Quem não se lembra da senhora cor-de-rosa que na campanha para as legislativas de 2015 aparecia diante de Passos Coelho para o confrontar com os cortes que segundo ela dizia (e a comunicação social repetia e repete), Passos fizera nas pensões? De nada servia explicar então (ou agora!) que a senhora cor-de-rosa não era uma paupérrima pensionista alvo dos nefandos cortes do Passos. Para começar “os cortes do Passos” eram nada mais nada menos que a contribuição extraordinária de solidariedade (CES) decidida pelo governo de José Sócrates em Dezembro de 2010 e inscrita no Orçamento para 2011. Por outro lado a CES só se aplicava a pensões com um valor superior a mil euros (a percentagem de redução ia dos 3,5% para as pensões acima dos 1.000 euros até aos 10% para pensões acima dos 3.750 euros) Em resumo os “cortes do Passos” foram aprovados em 2010 por um Governo socialista com os votos favoráveis do PS, a abstenção do PSD e o voto contra do CDS-PP, BE, PCP e PEV. Mas numa das mais espantosas manobras políticas de desresponsabilização de que há memória neste século em Portugal, não só muito rapidamente o PS se demarcou do que aprovara como, qual alma penada, o próprio PSD engoliu essa narrativa ao ponto de dizer que se quer reconciliar com os pensionistas. Pode dizer-se que isto se deve à estupidez natural e lutas internas dos laranjas. Também acho mas essa é apenas uma parte da explicação. Há neste baixar de braços também o reconhecimento do desgaste causado pelos falsos argumentos da senhora cor-de-rosa e seus clones: os argumentos combatem-se; as fantásticas senhoras e seu património emotivo são praticamente imbatíveis.

Note-se que a senhora cor-de-rosa não foi a única a marcar essa campanha de 2015. Tivemos também a “mãe revoltada”. A “mãe revoltada” surgiu em Setembro de 2015, num comício do PS em Setúbal. Estava Jorge Coelho a preparar-se para discursar quando subiu ao palco uma mulher que logo foi identificada como “mãe revoltada”. A “mãe revoltada” tinha um filho emigrado na China. O filho estava ou estivera em Portugal para celebrar o casamento mas o regresso a Pequim era incontornável. A “mãe revoltada”explicava à assistência a que se juntara Jorge Coelho: “Não venho falar de nomes, mas de sentimentos e de sofrimentos””Falo de sofrimento. Uma mãe não pode ficar calada“. Acabou a apelar ao voto em António Costa “Pois temos uma oportunidade de mudar”. (Dão-se alvíssaras a quem conseguir explicar porque tendo os jovens continuado a emigrar nos anos de Costa como primeiro-ministro não mais se ouviu a “mãe revoltada”)

Em 2024, a avó de Mariana Mortágua podia ter sido a outra senhora cor-de-rosa. Ou, mais provavelmente ainda, a líder do BE podia ter criado a figura da neta indignada, lídima  sucessora da senhora cor-de-rosa e da “mãe revoltada”,  quando no debate com o líder do PSD proferiu aquele fatídico: “Eu vi o sobressalto da minha avó ao receber cartas do senhorio, porque não sabia o que é que lhe ia acontecer, e essa foi uma responsabilidade do PSD, que esvaziou as cidades”.

Mal Mariana Mortágua acabou de invocar a sua avó algures devem ter-se acendido umas luzes vermelhas e não foi no estúdio da TVI/CNN onde decorria o debate. Talvez tenha sido entre o grupo de media training que está a trabalhar a imagem de Mariana Mortágua. Ou talvez entre alguns dirigentes do BE mais experientes nestas lides. Ou talvez ainda entre os compagnons de route do BE. Afinal era óbvio para todos que nos dias seguintes ia ser escrutinada a idade desta “avó-inquilina” que Mariana Mortágua trouxera ao debate, pois para a senhora ser abrangida pela legislação sobre arrendamento que Mariana-neta pretende ser da responsabilidade do PSD, a senhora teria de ter, em 2013, menos de 65 anos, coisa aparentemente impossível se tivermos em conta que por essa data o pai de Mariana tinha 79 e a mãe de Mariana 59.  Até agora Mariana Mortágua não esclareceu o assunto, invocando no debate que teve com Rui Tavares a defesa da sua privacidade e das “situações particulares”, por sinal a mesma privacidade que não sentiu necessidade de defender quando a meio do debate com Luís Montenegro trouxe a sua avó para o meio da discussão. Mais uns dias e ainda ouviremos o argumento de que a uma senhora não se pergunta pela idade.

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Mas por mais que nos faça sorrir, esta espécie de “fenómeno Benjamin Button ao contrário” aplicado à avó de Mariana Mortágua (tenha ela sido mãe com 14 anos ou no limite antes de nascer) não se trata de um lapso da líder do BE mas sim o recurso a uma táctica usada em Portugal com particular sucesso pela esquerda no século XXI, o chamado recurso às fantásticas senhoras. Os líderes políticos têm muito mais dificuldade em contestar uma mulher, mais a mais se esta puxar pelos seus galões de parentesco. O azar de Mariana Mortágua é que calcular a idade de avós, filhos e netos (netas no caso) é muito mais simples e directo de visualizar que explicar que após a aplicação da contribuição extraordinária de solidariedade (CES) o valor da pensão nunca poderia ser inferior a 1.000 euros; ou que lembrar que a alínea C, do ponto 4, do artigo 26º da  Lei n.º 31/2012,  dispunha taxativamente que que o senhorio não podia denunciar o contrato de arrendamento caso o inquilino tivesse idade ”igual ou superior a 65 anos”.  E também muito mais óbvio e fácil que denunciar que Mariana Mortágua mentiu descaradamente quando afirmou que a legislação sobre arrendamento da responsabilidade do PSD “esvaziou as cidades”.

Os centros das cidades após a aprovação da legislação sobre arrendamento em 2012 não se esvaziaram pela prosaica razão que não vivia lá quase ninguém. Nos 18 edifícios que em 1988 arderam no incêndio do Chiado, em Lisboa, não residiam sequer duas dúzias de pessoas! Os centros de cidades como Lisboa e Porto eram um contínuo de prédios quase desabitados, num estado deplorável; escadas partidas, instalações eléctricas que metiam medo, alguidares para apanhar a água,.. Mas sendo tudo isto verdade, é muito mais fácil confrontar Mariana Mortágua por causa da idade da sua avó do que por mentir para defender um modelo de sociedade em que o Estado controla preços, cria tectos, controla tudo e mais alguma coisa e, sempre em nome do combate aos abusos dos ricos, nos torna todos pobres.

Ironia sem moral nenhuma desta  da história: a avó de Mariana Mortágua fez mais pela explicação da chamada Lei Cristas e pelo desmontar das mentiras do BE que dezenas de artigos de opinião, explicações jurídicas e argumentários políticos.