O PS e o governo têm uma estratégia bem clara: cada vez que um assunto se torna incómodo, lançam a máxima confusão possível para combater a verdade e para espalhar culpas sobre todos. É o que estão a fazer com a TAP. A TAP já custou um ministro e alguns secretários de Estado ao governo, muito dinheiro aos portugueses, um inquérito parlamentar cheio de mentiras e ofensas entre membros do governo, e várias mudanças de posições do PS. O governo agora quer passar o incómodo para outros, nomeadamente para a oposição e para o anterior governo de Passos Coelho.

O objectivo é colocar os portugueses a dizerem, sim o PS errou, mas o PSD também. Sim o governo de Costa cometeu erros, mas o governo de Passos também. É a última versão da velha estratégia socialista: em Portugal, não há inocentes; são todos igualmente culpados, o que diminui a culpa socialista.

No caso da TAP, há dois grandes culpados: os governos de Sócrates e de Costa. Vamos começar na decisão desastrosa do governo de Sócrates de comprar, em 2006, uma companhia de manutenção aérea no Brasil. Entre 2006 e 2012, a TAP perdeu 600 milhões de euros com esse investimento, cerca de 100 milhões por ano. Ninguém tem interesse em saber por que razão e como esse negócio foi feito? Foi mais um dos negócios ruinosos para o Estado português feito durante os anos de Sócrates e de Lula.

Em 2011, o governo de Sócrates incluiu a privatização da TAP no memorando de entendimento assinado com a Troika. Quando o governo de Sócrates abandonou o poder, a TAP estava falida e o governo português não podia injectar capital na companhia. Foi neste contexto que se iniciou a privatização da TAP, com uma primeira tentativa falhada e finalmente concluída em 2015 ainda durante o governo de Passos Coelho.

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O governo de Costa voltou a atacar a decisão por falta de legitimidade politica. Os socialistas usam dois argumentos. Um ataca a venda por parte de um governo de gestão. O outro ataca a privatização porque o governo que se iria seguir era contra a privatização. Ambos os argumentos estão errados. No primeiro caso, a PGR já disse que o governo tinha legitimidade para concluir a privatização da TAP, e não apenas que a decisão foi legal. Quanto ao segundo argumento, a mudança de posições dos governos de Costa em relação à privatização da TAP valida a decisão de Passos Coelho.

Em 2015, o PS de Costa era contra a privatização da TAP e a favor da propriedade pública da companhia. Ora, o governo de Passos achava que tal visão era contrária ao interesse nacional, e que não havia condições financeiras para manter a TAP pública. Convém recordar que em 2016, a TAP precisava de pagar (ou restruturar) 700 milhões de euros de dívida. Entretanto, o governo socialista já mudou de posição e é agora a favor da privatização da TAP. O antigo ministro Pedro Nuno Santos disse que a TAP não sobrevive se não for adquirida por um grande grupo europeu. Em 2015, o governo de Passos estava certo em relação à privatização, e o PS de Costa estava errado em relação à nacionalização. Foi o PS que mudou, não foi o PSD.

Alguns socialistas argumentam que são a favor da privatização da TAP mas não daquela privatização, como foi feita em 2015. Quando uma companhia está falida e cheia de dividas, a venda faz-se como se pode, e não como se quer. Tomara o governo de Passos que em 2015 houvesse uma Lufthansa ou uma Air France a querer a TAP. Mas não havia. E em larga medida, não havia por causa da decisão ruinosa do governo de Sócrates de comprar a empresa de manutenção no Brasil. Aliás, o facto de agora se falar no interesse dos grandes grupos aéreos europeus é o maior elogio que se pode fazer à decisão de privatizar a TAP e à gestão do consórcio entre David Neeleman e Humberto Pedrosa.

Ao contrário do que diz o PS, o governo de Passos resolveu um grande problema ao primeiro governo de Costa. Vendeu uma companhia falida permitindo aos socialistas continuarem a atacar a ideia da privatização, sem terem que vender a TAP, o que foi muito útil em tempos de geringonça.

Mas o PS também se lembrou de atacar a compra dos aviões Airbus pela TAP privatizada. Mais uma vez, houve uma auditoria do Tribunal de Contas a validar a compra. A TAP comprou os aviões em termos absolutamente normais, como fazem outras companhias por todo o mundo. Pode ilustrar-se com um exemplo. A TAP tinha uma encomenda à Airbus de x aviões que custavam 100. A nova gestão da TAP decidiu que a companhia não precisava desses aviões, e bastaria comparar aviões que custam 75. A Airbus aceitou recomprar os aviões que custavam 100, porque tinham mercado e a diferença de preços, ou a poupança feita, foi injectada como capital na TAP. O capital investido, cerca de 250 milhões de euros, serviu para salvar a TAP. Mas a recapitalização da TAP deu-se com uma condição: durante 30 anos, a antiga gestão privada da TAP não poderia retirar um euro do capital injectado na companhia. Isso só mudou quando o segundo governo de Costa ofereceu 55 milhões de euros aos antigos proprietários da TAP para deixarem a companhia.

Resumindo. O governo de Costa começou por ser contra a privatização da TAP, mas deixou tudo na mesma depois da decisão do governo de Passos em 2015. Depois, permitiu que Neeleman regressasse aos Estados Unidos com 55 milhões de euros. E nacionalizou a TAP, com uma fatura de mais de 3 mil milhões de euros para os contribuintes portugueses. Agora, já é a favor da privatização da TAP. Se isto não é um desastre absoluto, e caro, o que é um desastre?