A luta contra o coronavírus ainda parece estar longe do fim, mas não é precipitado chamar a atenção para o facto de ela poder terminar com o aumento de regimes totalitários, pois são estes que, neste momento, estão a vencer as democracias, e não só no plano da propaganda.

O novo vírus surgiu na China, país dirigido por um regime comunista totalitário, e alastrou-se rapidamente a outros países devido ao facto de as autoridades de Pequim terem mentido ao mundo e escondido elementos fundamentais para que a luta contra essa praga começasse mais cedo. Agora, tenta virar o bico ao prego e apresentar-se como um dos “salvadores da humanidade”, enviando para outros países, principalmente para Itália, Etiópia, etc., médicos e material médico.

Este exemplo foi seguido pela Rússia, que enviou para Itália nove aviões de carga com os seus melhores virologistas (todos militares de alta patente e com experiência no combate a epidemias) e equipamentos médicos, e por Cuba.

Quanto à Rússia, a situação é deveras muito estranha, pois é difícil acreditar nos números que são revelados pelas autoridades. Segundo os últimos dados oficiais, o número de pessoas infectadas é de 438 e ainda não se registou qualquer vítima mortal. É verdade que o Kremlin optou por decretar medidas draconianas em Moscovo, onde se regista o maior número de casos, e noutras cidades, o que pode travar o alastramento do coronavírus. Mas, por outro lado, as dúvidas aumentam se tivermos em conta que esta pandemia não pode estragar os grandes planos de Vladimir Putin. À pala da pandemia ele conseguiu prolongar o seu poder eternamente e as suas consequências não podem estragar a “votação popular” às emendas da Constituição, marcada para 22 de Abril.

Além disso, para o dia 9 de Maio está marcada a Parada da Vitória, dedicada ao 75% aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Trata-se não só de uma demonstração do poderio militar russo, mas também um sinal do aumento da influência internacional do país.

Se tudo correr como planeado, será também uma boa ajuda para que Vladimir Putin justifique as dificuldades que o país vai atravessar devido à queda do preço do petróleo.

Nesta luta, os Estados Unidos e a União Europeia têm transmitido uma imagem péssima, talvez nunca vista nas suas histórias durante o século XX. É verdade que o surto de coronavírus apanhou todos de surpresa, mas a reacção e as medidas tomadas pelos Estados Unidos e a União Europeia foram desastrosas.

Donald Trump discute publicamente com cientistas, desdramatiza a situação de forma nada convincente e permite o avanço da pandemia. Estamos claramente perante um político incompetente, narcisista, que apenas se preocupa com a sua reeleição.

Os dirigentes da União Europeia mostraram total descoordenação no ataque à pandemia, falta de solidariedade entre os seus membros e um economicismo macabro (que o diga a Sra. Christine Lagarde!). Claro que a gravidade da situação em Itália e em Espanha é consequência da incompetência das elites políticas nacionais, mas o facto de Bruxelas não ter ido imediatamente em ajuda dos países mais atacados e de levar a Itália a pedir ajuda à China ou à Rússia poderá ter consequências fatais para o futuro da UE. Por exemplo, o que irão fazer os italianos depois da pandemia se a ajuda russa tiver sido útil? No mínimo, levantar unilateralmente as sanções económicas contra a Rússia, decretadas por Bruxelas depois da ocupação militar russa da Crimeia. Isto para já não falar do muito provável aumento da força eleitoral da extrema-direita pró-russa em Itália, França, etc.

Aliás, há aqui um problema também de segurança dos próprios países da União Europeia e da NATO. Esta crise mostrou os pontos fracos delas no caso de uma guerra biológica. Hoje, os especialistas militares russos e chineses que trabalham em Itália dispõem de uma oportunidade única para estudar esses pontos fracos. Alguém poderia perder semelhante oportunidade?

Depois desta crise, será difícil, senão ridículo, falar de unilateralismo nas relações internacionais e a União Europeia terá de se preparar para esse novo mundo, o que só poderá conseguir elevando o grau de cooperação e integração, transformando-se num dos polos do poder no mundo. Ela tem de se preparar para próximas pandemias ou catástrofes que possam vir, criando, por exemplo, centros de reacção rápida conjunta dos seus membros em casos como o actual, de investigação médico-científica conjunta. O conceito de globalização terá de ser repensado. Por exemplo, a União Europeia não pode depender de medicamentos e materiais médicos que são apenas fabricados na China ou na Índia, tem de ter uma indústria médica capaz de a proteger.

Esta crise é o maior desafio à existência da UE depois da sua criação. Os seus dirigentes mostraram ser pouco competentes e, se não surgirem políticos capazes de enfrentar os desafios futuros, a unidade europeia poderá passar à história. É fundamental mostrar que as soluções apresentadas pelos regimes autocráticos ou ditatoriais conduzem a um beco sem saída, que as democracias continuam a ser o melhor regime político criado pelo homem. No lugar de se perder tempo a falar de direita e esquerda, talvez não fosse má ideia falar de ditadura e democracia.

P.S. Não podia deixar de referir-me a países como o Brasil e a Ucrânia. O primeiro corre sérios riscos devido à política desastrosa do Presidente Balsonaro face à pandemia e o segundo poderá desintegrar-se devido à falta de meios financeiros para superar a crise instalada e à instabilidade política criada por oligarcas e políticos inexperientes. Neste último caso, Vladimir Putin está à espera da sua oportunidade…