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Se o Presidente Vladimir Putin se preocupasse tanto com o combate ao COVID-19 na Rússia como se preocupa com o reforço do seu poder ditatorial, o país não estaria na situação sanitária catastrófica em que se encontra.

Nos últimos meses, não há dia em que a Rússia não bata o próprio anti-recorde quanto ao número de infectados e mortos pela pandemia, tendo, no Domingo, chegado, segundo dados oficiais, aos 34 325 novos casos e 998 mortos. Um número aparentemente estranho se tivermos em conta que os dirigentes russos, à velha maneira soviética, não se cansam de falar dos êxitos nesse combate a nível interno e externo.

Putin foi o primeiro a anunciar a criação de uma vacina altamente eficaz contra o vírus: a Sputnik V, dando assim a entender que a Rússia continua a ser uma superpotência científica não obstante todas as dificuldades criadas pelas sanções e pela política de confronto do chamado Ocidente.

(Abro aqui um parêntesis para frisar que são os especialistas que devem avaliar a qualidade das vacinas, sejam elas russas, chinesas, norte-americanas ou inglesas, mas eu, pessoalmente, se estivesse na Rússia durante a pandemia, não hesitaria em vacinar-me com a Sputnik V).

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A euforia em torno deste importante trabalho científico continuou na propaganda, mas a prática veio complicar os planos do Kremlin.

Inicialmente, constatou-se que a indústria farmacêutica russa não estava preparada para responder a todas as encomendas vindas de dentro e de fora, à semelhança do que aconteceu com as farmacêuticas ocidentais. Porém, o mais grave veio a seguir: com vacinas disponíveis, os russos não correram a vacinar-se e a maioria da população continua a recusar fazê-lo. Os números oficiais são claros a este respeito: 51 443 525 de pessoas (35,2% da população) recebeu uma dose da vacina e 47 322 855 receberam as duas necessárias. A este ritmo, o número de vacinados só chegará aos 70% da população dentro de 64 dias. Isto é demasiado tempo para travar a maior onda da pandemia que o país enfrenta.

 

O que leva os habitantes da Federação da Rússia a não se quererem vacinar?

O primeiro e principal factor é a falta de confiança de grande parte da população face às afirmações dos dirigentes políticos russos relativamente à eficácia da vacinação. Como estão habituadas, desde, pelo menos, depois da chegada dos comunistas ao poder em 1917, a ver que os líderes do seu país dizem uma coisa, mas fazem outra completamente diferente ou mesmo oposta, as pessoas olham para qualquer medida ou receio e desconfiança. Se, por exemplo, Vladimir Putin se tivesse vacinado mais cedo e perante as câmaras de televisão, talvez hoje mais alguns milhões de russos estivessem vacinados, mas o secretismo criado pelo Kremlin em torno dessa questão e as “medidas profiláticas” contribuem para o aumento do receio.

A população desconfia também da própria medicina e dos médicos, bem como das estatísticas oficiais.

“Muita gente diz que não está na lista para se vacinar porque não confia na forma como a Sputnik V foi desenvolvida. As pessoas sentem-se muito incomodadas com a falta de informações sobre como a vacina foi feita, seus efeitos colaterais, quantas pessoas ficaram doentes, quantas tiveram formas graves, quantas foram hospitalizadas, etc”, considera a antropóloga russa Alexandra Arkhipova, em declarações à rádio BBC.

Segundo esta cientista, o facto dos médicos de família não estarem também bem informados em relação aos efeitos da vacina em pessoas com doenças crónicas, optam simplesmente por dizer aos seus pacientes que não se vacinem.

“Se Maomé não vai à montanha…”

 

Como as autoridades russas proíbem a importação de vacinas estrangeiras, como resposta ao “boicote” do chamado Ocidente à Sputnik V, numerosos russos optam por ir tomar as vacinas a países estrangeiros, principalmente europeus. Este número é de tal forma considerável que deu origem ao chamado “turismo de vacinação”. As agências de viagem propõem pacotes aos seus clientes que lhes permitem não só descansar, visitar museus ou fazer compras, mas também receber vacinas e certificados europeus de vacinação.

Desse modo, os turistas resolvem vários problemas numa só viagem: ao mesmo tempo que se protegem, recebem um certificado que lhes permite viajar para numerosos outros países, pois, como é sabido, nem a Organização Mundial da Saúde, nem a Agência Europeia do Medicamento deram “luz verde” à Sputnik V.

Sistema de saúde em queda livre

 

Para agravar ainda mais a situação contribui o estado deplorável em que se encontra o sistema de saúde russo. Isto é particularmente evidente na província, onde a assistência médica é insuficiente ou mesmo inexistente.

O caso da epidemia de SIDA na Rússia é mais um exemplo disso. Segundo dados oficiais divulgados pelo Serviço Federal de Controlo na Esfera da Defesa dos Direitos dos Consumidores e do Bem-estar do Homem (designação totalmente orwelliana), na Rússia há dez vezes mais infectados com SIDA do que em todos os países da União.

“No ano passado, na Rússia foram fixados 60 mil novos casos de SIDA, enquanto em todos os países da EU: 25 mil. Na Rússia vivem bastantes infectados, nós apenas registamos 1 milhão e 100 mil pessoas com a infecção confirmada em laboratório e mais de 400 mil pessoas morreram até hoje”, declarou Natália Ladnaya, cientista do Centro de Prevenção e Combate à SIDA do já citado serviço federal.

Todavia, considera o jornal Novaya Gazeta, citando estudos realizados, a situação é ainda mais grave: o número de infectados é de 1 milhão e 500 mil pessoas, sendo que algumas regiões dos Urais e da Sibéria estão ao nível dos países africanos. Se, na primeira onda de SIDA, no final dos anos de 1990, o principal responsável pela transmissão era o tóxico dependente, na segunda são as relações sexuais desprotegidas. O académico Vadim Pokrovski, director do Centro Federal da Luta contra a SIDA, culpa a falta de educação sexual nas escolas e na sociedade deste novo aumento brusco da doença.

Com os recursos de que dispõe a Rússia, a situação poderia estar bastante melhor, mas o problema reside nas prioridades de Vladimir Putin. Se no lugar de se concentrar na perseguição aos jornalistas e aos opositores, se em vez de enterrar milhares de milhões de euros em armamentos, de deixar desaparecer outro tanto nas areias da corrupção, o ditador russo se preocupasse com a saúde dos seus cidadãos, as coisas não estariam assim tão mal.