De vez em quando, abre-se a caça às bruxas. Não era só na Idade Média que, por vezes, as multidões enfurecidas decidiam fazer justiça pelas suas próprias mãos. Também agora, não faltam casos em que se pretende fazer justiça popular, que é talvez a mais popular das injustiças. Dois exemplos recentes: o julgamento mediático a que foi sujeito Brett Kavanaugh, o novo juiz do Supremo Tribunal norte-americano e o processo contra ‘o melhor jogador de futebol do mundo’, que é conhecido por CR7.

Não me compete fazer qualquer juízo sobre a conduta moral do magistrado ou do desportista, nem muito menos pronunciar-me sobre os factos que lhes são atribuídos. Mas não se pode deixar de achar curioso este afã vingativo que, ciclicamente, sobe à tona da vida social e leva a desenterrar casos há muito acontecidos mas que só agora, vá-se lá saber porquê, são elevados à sublime condição de escândalos mediáticos. A ‘investigação’ em relação ao passado de Brett Kavanaugh chegou a minúcias de uma mesquinhez incrível, enquanto as acusações agora formuladas contra Cristiano Ronaldo, que provavelmente não é uma referência moral, mas também não é nenhum monstro, parecem-se tanto a uma vulgar manobra de extorsão, que é difícil acreditar que foram motivadas por um puro e desinteressado amor à justiça.

Mas mesmo que os factos imputados ao magistrado norte-americano e ao futebolista português sejam de natureza criminosa e, como tal, devam ser submetidos à justiça correspondente, nunca é lícito que os tribunais sejam substituídos pela imprensa e pelas redes sociais. Quando assim acontece, as meras alegações, mesmo que pouco credíveis, são apresentadas como se fossem factos comprovados; e qualquer suspeita ganha, à força de ser tantas vezes repetida, a consistência de uma evidência irrefutável. A presunção de inocência, que deve ser mantida até ao trânsito em julgado da sentença de condenação, transforma-se numa presunção de culpa: já não é o acusador público que tem de demonstrar o crime imputado, mas é o arguido que tem de provar, no tribunal da opinião pública, a sua inocência.

Este jeito de fazer justiça através da comunicação social é a mais injusta das injustiças sociais. É compreensível, e até louvável, que os candidatos à presidência da república, à câmara dos representantes, ao senado e aos mais altos cargos da magistratura judicial, sejam escrutinados pelos órgãos competentes. Mas é verdadeiramente vergonhosa a forma como, publicamente, se vasculha e publicita a vida privada dos cidadãos, que são literalmente despidos e exibidos na praça pública, para seu opróbrio e voraz satisfação da vilanagem.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.