Não obstante as declarações do Presidente da Rússia de que os dirigentes da Ucrânia, França e Alemanha chegaram a um acordo sobre o cessar-fogo e sobre a separação das forças beligerantes no Leste ucraniano, o risco do alastramento da guerra continua a ser muito grande.

No fundo, a maratona negocial serviu, segundo as declarações dos seus participantes, para criar “mais mecanismos de implementação dos Acordos de Minsk”, aprovados em Setembro do ano passado. É contudo muito grande ainda o risco de que estes novos Acordos de Minsk, ou Minsk-2, não saiam também do papel.

Na mesma conferência de imprensa em que Vladimir Putin anunciava os resultados da maratona negocial de 16 horas, ele considerou que os cerca de 6 a 8 mil soldados ucranianos “cercados em Debaltsevo devem entregar as armas”, acrescentando que “Kiev tem uma opinião diferente”.

É claro que os dirigentes ucranianos têm uma opinião diferente pois, além da derrota moral que isso constituiria para o país, a retirada das tropas ucranianas permitiria ligar as auto-proclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk.

Os separatistas, com o apoio das armas e homens russos, ainda têm dois dias para tentarem obrigar os soldados ucranianos a renderem-se, mas Kiev continua a negar que as suas tropas estejam cercadas. Se os rebeldes conseguirem o seu objectivo isso poderá fazer tremer o regime do Presidente ucraniano Petro Poroshenko, o que não está fora dos planos de Moscovo. Há porém a hipótese de ele vir a ser substituído por outro político muito mais radical no que respeita à solução militar em torno dos territórios separatistas.

Não se compreende bem o que levou os dirigentes separatistas a, inicialmente, recusarem-se a assinar o acordo e, depois, a pôr lá a sua assinatura. Pelos vistos, não ficaram satisfeitos com o grau de autonomia que lhes foi proposto.

Ora, no fim das conversações, Poroshenko frisou que “não houve qualquer acordo sobre autonomia ou federalização”, acrescentando que tinha sido apenas acordado um cessar-fogo, o controlo das fronteiras e a retirada das tropas estrangeiras do território da Ucrânia.

Esta última declaração do Presidente ucraniano encerra também grandes enigmas, pois a Rússia nunca reconheceu a presença de tropas suas no território do estado vizinho e os separatistas reivindicam a independência.

É também preocupante a declaração de François Hollande sobre que “nem sobre tudo foi possível chegar a um acordo” sendo que, como se costume dizer, “o diabo esconde-se nos detalhes”.

No fim da reunião, Aexandre Zakhartchenko, líder da auto-proclamada República Popular de Donetsk, deixou no ar uma ameaça: “todos os parágrafos exigem mais conversações, por isso, no caso de alguma violação, não haverá novos encontros e novos acordos”.

Esperemos que não seja necessária mais uma Cimeira de Minsk para apagar o fogo da guerra que se alastra na Europa. Mas as interrogações são muitas pois muitos foram os temas deixados em aberto.