Escrevo enquanto em Bruxelas já se entrou na 25ª hora para chegar a uma solução para a emergência grega. O desfecho da negociação tem sido bipolar: num momento parece que está tudo bem encaminhado para um acordo para, no momento seguinte, se anunciar a ruptura iminente. O resultado é imprevisível. Mas deste folhetim que dura há cinco meses podem tirar-se já alguns ensinamentos. Aqui ficam alguns dos que me parecem mais importantes.

Não faças promessas que dependem sobretudo de outros. As promessas feitas pelo Syriza, que em grande parte o levaram ao poder na Grécia, até podem ser genuínas e coerentes com a sua matriz ideológica e programática. Mas têm um insanável problema de base: a sua concretização depende, em grande parte, de decisões que se tomam a 19 em Bruxelas e em todas as outras capitais de países do euro – e mais do BCE e do FMI. Proclamar que “a troika é passado” e “a austeridade acabou” só dependeria da vontade de Alexis Tsipras se no dia seguinte ele comunicasse aos credores que a partir daquele momento a Grécia dispensava os seus financiamentos. E, sabemos isso, o país não estava, nem estará tão cedo, em condições disso.

A legitimidade democrática não começa e acaba em ti. Muitos querem convencer-nos que a Grécia inventou a democracia por duas vezes: há 25 séculos e, de novo, há cinco meses. É para isso que remetem muitas das alusões ao mandato eleitoral que o Syriza recebeu dos seus eleitores, que seria o salvo conduto para que os outros 18 aceitassem sem mais todas as sua exigências. Acontece que os outros 18 foram eleitos da mesma forma, para mandatos tão legítimos como o do Governo grego e para defender aquilo que consideram ser o interesse dos seus países, cidadãos e contribuintes. Ou as eleições de 25 de Janeiro da Grécia foram eleições gerais para a zona euro?

Se queres ser totalmente soberano não te esqueças da independência financeira. Acontece com as famílias e com as empresas. E os Estados não são excepção. Só somos inteiramente donos do nosso destino quando, entre outras coisas, não dependemos de ninguém para o financiar. Não há soberania feita de cheques alheios.

Não comeces uma negociação com uma granada na mão. Se queremos convencer os credores da bondade das nossas propostas e das nossas intenções é um péssimo começo começar por ameaçar que se nós cairmos levamos outros connosco para o abismo. O governo grego começou por apostar no efeito de contágio a Portugal, à Espanha ou à Itália. Isto não é inciar uma negociação, é tentar fazer reféns.

Os problemas de dinheiro resolvem-se sobretudo com dinheiro. A ideologia é fundamental em política e o confronto entre propostas diversificadas é essencial para a vitalidade democrática. Mas nenhuma retórica é boa se no fim do dia não conseguirmos pagar as contas.

Se queres mudar as regras do jogo começa primeiro por jogá-lo. A zona euro está instituída, com as suas virtudes e defeitos e com as suas regras que são de todos conhecidas desde o início. Só lá está quem quer. Dois países, o Reino Unido e a Dinarmarca, optaram legitimamente por ficar de fora. Outros 19 preferiram aderir, Grécia incluída. Se o governo grego não concorda com os mecanismos deve tentar convencer os parceiros a alterá-lo a partir de dentro. Entrar pela primeira vez em campo declarando que a partir de agora o futebol se joga com as mãos e que todos devem passar a jogá-lo dessa forma não dá bom resultado.

Tem sempre um plano B. E se o teu plano A é de alto risco desenha também um plano C. Ter uma boa estratégia de saída é, muitas vezes, tão importante como ter uma boa estratégia de entrada. E se esta é confrontacional, como foi o caso da Grécia, é fundamental que se saiba o que se faz a seguir se a negociação não correr bem. Atenas precisa de fundos regulares dos credores – que são, recorde-se, os contribuintes dos restantes países do euro – para manter o seu Estado a funcionar. Se não chegar a acordo para manter essas linhas de financiamento vai fazer o quê? Entrar em default? Sair do euro? Pedir dinheiro à Rússia? Estas alternativas estão pensadas com prós e contras medidos? Ou o único plano é a ameaça de implosão da zona euro? Voltamos à negociação de granada na mão…

Se queres ganhar a confiança alheia torna-te confiável. Quando chegou a Bruxelas pela primeira vez o Governo grego foi recebido com manifestações de abertura por parte da vários parceiros. Da França à Itália, passando pelo próprio presidente da Comissão Europeia, foram vários os responsáveis políticos que declararam a necessidade de se chegar a um entendimento que acolhesse também as novas propostas de Atenas. Cinco meses depois, não se ouve no Eurogrupo uma voz que faça a defesa pública das posições gregas, mesmo entre os governos socialistas europeus. Com a sua estratégia negocial, Atenas rapidamente gastou esse capital de abertura. E é de dinheiro e de confiança que ali se fala.

Se os credores estão unidos os teus não podem estar divididos. O governo grego tem de lidar, externamente, com um bloco de países do euro que não mostra divergências públicas e, internamente, com correntes e sensibilidades diferentes no seu apoio parlamentar. O que pode ser aceitável para os credores não o é para uma boa parte do Syriza. E o que estes pretendem não vai convencer nunca os credores. Esta quadratura do círculo não é fácil de fazer porque foi cometido o pecado original: fazer promessas cujo cumprimento depende, essencialmente, do entendimento com terceiros.

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com