Vamos ser torrados, assados e grelhados
Christine Lagarde

O objectivo? Passar a mensagem para algo nobre: salvar o planeta, apoiar a chamada acção climática. Como? Usando tudo e o seu contrário para alimentar o medo, para mexer com os sentimentos das pessoas: vem aí o Apocalipse Climático. Consequência? As pessoas confrontados com tamanha ameaça, amplificada e difundida pela Comunicação Social uma vez que dá óptimas manchetes, naturalmente querem “fazer alguma coisa”. Parece fácil. Mas é só impressão. E é muito perigoso.

Fazer alguma coisa é… política! E que políticas desejamos? Normalmente não simpatizamos com autoritarismo ou desresponsabilização. Mas o medo fala mais alto. Políticas racionais, equilibradas, baseadas nos melhores conhecimentos, socialmente justas, participadas, transparentes? Estamos dispostos a abdicar delas e a aceitar o aproveitamento político dos nossos sentimentos, a aceitar toda e qualquer agenda mascarada de verde, a dar carta-branca à classe política para fazerem o que lhes apetecer com os nosso impostos. Eles esfregam as mãos de contentes!

E mais contentes ficam com outro bónus: a isenção de responsabilidades, o bode espiatório ideal para quando as coisas correm mal. Exemplos? “as alterações climáticas são as responsáveis pela situação dramática que se vive em Veneza” logo disse o autarca local; “um plano que adapte a Austrália ao aquecimento do clima”, logo reclamou a oposição. As ruas alagadas, os koalas aflitos, mexem com os nossos sentimentos, o nosso espírito crítico perde-se. Facilmente explicáveis sem alterações climáticas (nem precisando referir que episódios destes têm sido recorrentes ao longo da história, com clima mais frio, lembrando simplesmente que as alterações climáticas não se espelham em eventos avulsos, porque como o nome indica são climáticas e clima são valores médios em séries de tempo definidas), estas de facto são uma excelente desculpa para a ruinosa falta de planeamento.

A Greta vem a caminho. Um caminho turtuoso, arriscado, poluente? Pode ser isso tudo, mas é também simbólico: o caminho do bem. A ideia é mesmo tocar-nos a todos na emoção. E abdicamos da razão? Se o problema sério, as soluções não serão simples e não se podem ficar pelo coração, também exigem cabeça. A natureza sempre nos trouxe dificuldades e, não sejamos ingénuos, continuará a trazer. Queremos só “alguma coisa” — seja proibir vacas, explorar energia nuclear, canalizar fundos para as grandes cidades ou aumentar impostos, tudo pode ser justificado com ação climática – e quando as desgraças nos baterem à porta, chamamos-lhes o “nosso fado” e deixamos a culpa morrer solteira? Evitar desgraças não é uma tarefa para a qual elegemos os nossos políticos? Vamos desresponsabilizá-los? Como nos atrevemos?