Há poucos dias, Rui Ramos escreveu aqui sobre umas recentes declarações do eminente astrofísico Stephen Hawking, para o qual de uma forma ou de outra o progresso da ciência teria provado, ou iria provar, a inexistência de Deus. Não era o ateísmo de Hawking, obviamente, que chocava Rui Ramos, mas, se bem o percebi, o particular modo da sua justificação: no fundo, a pura e simples ideia segundo a qual a ciência poderia provar algo no capítulo em questão.

Pela minha parte, quase subscreveria por inteiro o que Rui Ramos disse no seu artigo. E até me permito acrescentar algo. Não é aqui, de resto, a questão de Deus propriamente dita que me parece a mais significativa, mas sim duas atitudes mais gerais que são trazidas à luz por aquilo que Hawking (um exemplo entre muitos) exprimiu.

Em primeiro lugar, uma enorme indiferença pelas questões propriamente filosóficas, uma indiferença impensável nos grandes físicos da primeira metade do século XX (Einstein, Heisenberg, Bohr, entre muitos outros), mas que se tornou, até com alguma coquetterie, comum desde há várias décadas. E nas questões filosóficas incluo aquelas que dizem respeito à natureza da ciência e ao tipo de inteligibildade do mundo que ela nos assegura.

Em segundo lugar, e isso é o mais importante, a ideia de que as crenças científicas constituem o modelo único de todas as crenças e que a maneira de pensar das ciências natureza é válida, sem perda de eficácia, para todos os assuntos humanos. Seria pedante fazer aqui a história das muitas encarnações desta convicção. Apontar alguns dos seus defeitos certamente não o é.

Um desses defeitos é uma espécie de cegueira sobre a natureza da sociedade e os modos do seu funcionamento. As sociedades não podem sobreviver sem um conjunto de crenças colectivas (“significações imaginárias”, chamava-lhes um filósofo) que são em larga medida arbitrárias e que se corporizam em instituições e criações de todo o tipo, que variam de sociedade para sociedade. Não há racionalidade científica que as possa explicar, embora, é claro, a sua natureza, tal como a sua bondade ou maldade, possam ser discutidas com os instrumentos de uma racionalidade comum, também ela variável na forma e no estilo.

A crença em Deus é, de resto, um bom exemplo na matéria. Deixo de lado a questão do conforto que, numa vida em que o sofrimento é, de um modo ou de outro, inescapável, a religião pode oferecer, um facto que um ateu (é o meu caso) tem obrigação de reconhecer e que a barbárie a que por vezes a religião induz, algo hoje em dia particularmente patente em certas paragens, de modo algum põe em causa. Deus é um bom exemplo porque, entre outras coisas, a crença religiosa é inseparável da maior parte da criação artística do Ocidente, que sem tal crença não poderia existir.  Fra Angelico não poderia existir, nem Dante, nem A Paixão segundo Mateus de Bach. Limito-me aos exemplos mais óbvios, mas o seu número é infinito. O magma que isso constitui é perfeitamente imune a uma (impossível, de resto) prova da não-existência de Deus. Pretender que o progresso científico pode provar que Bach, apesar do seu génio, estava errado (tinha crenças erradas) é um absurdo palpável. O exercício não faz sentido algum: a questão da verdade e do erro não se aplica nestas matérias. É, no entanto, a consequência directa da ideia que aparentemente Hawking quis transmitir.

Um outro exemplo dos efeitos nefastos da convicção segundo a qual o conhecimento científico possui absoluta jurisdição em todos os domínios é o prestígio espúrio de que gozam os cientistas (falo de “cientistas” no sentido corrente de investigadores das ciências da natureza) quando se pronunciam sobre matérias políticas. Nada, ou praticamente nada, na racionalidade científica assegura uma opinião justa nas coisas políticas. Nem é preciso, para o constatar, lembrar exemplos extremos, como a imoderada simpatia, em tempos idos, de vários ilustres sábios por Estaline. Basta olhar à volta e, se se quiser, ler certos nomes em petições públicas que quase diariamente circulam. Sobre Israel, por exemplo. E, se aceitarmos, com alguma bondade, alargar a acepção da palavra “cientista” às chamadas “ciências humanas”, o simples nome de Noam Chomsky, cujos trabalhos em linguística e em certas áreas da filosofia são, qualquer que seja a avaliação que deles se faça, apaixonantes, basta quase para dizer tudo.

É como se, quando se passa de um objecto para outro, da natureza para a sociedade, se perdesse todo o cepticismo (algo que Rui Ramos referiu) e se mergulhasse por inteiro na facilidade de acreditar e no pensamento a crédito. Pensamos a sociedade de uma maneira muito diferente daquela que pensamos a natureza porque os objectos são mesmo muito diferentes. E quando queremos julgar uma a partir dos critérios que nos servem para julgar a outra, a asneira, ou até a monstruosidade, são quase certas.

De todas as utopias, a utopia de uma colaboração colectiva, de um trabalho em comum, no conhecimento científico da natureza foi, pelo menos a partir do século XVII, a única verdadeiramente triunfante e os seus resultados foram extraordinários. Mas se quisermos pensar a sociedade através dos seus critérios arriscamo-nos a acabar como os sábios da Academia de Lagado, nas Viagens de Gulliver de Swift, que, na sua paixão pela uniformidade e pelo geométrico, comem as costeletas de cordeiro cortadas em triângulos equiláteros, a carne de vaca em forma de rombóides e o chouriço é cicloidal. Não consta que a sociedade possua essas formas. E, pelo que tenho lido, Deus também não.

Pode-se acreditar que Deus não existe, mas não é com chouriços cicloidais que o podemos provar. Nem, para dizer a verdade, de uma outra maneira qualquer. Tal como a crença religiosa, o ateísmo é insusceptível de prova. Se não fosse, os jornais e as televisões já nos teriam informado do caso.