Da CNN à SIC a crítica à política de Trump acabou por se tornar na arte de injuriar e ridicularizar o homem. Isto deve trazer uma grande satisfação à alma dos crentes na “correcção política”, que dia a dia cresce em rigor e fúria. Na América, o jornalismo é agora uma ininterrupta campanha para correr com o execrado Donald da presidência a pretexto das suas putativas ligações à Rússia, que na última quinta-feira Putin pareceu implicitamente confirmar. Estas coisas não me incomodam. O que me incomoda é a completa indiferença pelo que Trump representa na sociedade que o elegeu e na história de que ele é a mais recente consumação. Não basta dizer, como aliás aqui mesmo já disse, que Trump está, na prática, a promover um regresso ao isolacionismo. Convém saber do que se fala para não proclamar asneiras a título de revelações.

A ideia da América dos felizes anos 50, dominante no Ocidente inteiro e domesticamente indiscutível e pacífica, não desapareceu, pelo menos da memória de uma parte considerável da população. O passado recente, da crise cubana ao Vietnam e do 11 de Setembro à invasão do Iraque, fez com que o papel de leader global deixasse de ser tão apetecível ou até necessário depois da queda do império soviético. Com essa mudança de perspectiva e de sentimentos subiram à superfície os conflitos sociais e raciais de um país profundamente dividido e também a nostalgia de um mundo mais fácil e harmónico, que de facto nunca existira. A simplicidade (no mau sentido da palavra) de Trump é a simplicidade desse imaginário paraíso. De qualquer maneira, para muita gente, a presença da América no universo exterior e a promoção dessa presença pelo inimigo interno (os “liberais” do Partido Democrático e os seus companheiros de caminho) contaminam e corrompem a “luminosa cidade da colina” e o esplêndido isolamento original.

Isto explica que Trump não perca o seu apoio dito “duro”, apesar de um comportamento que escandaliza todo o Ocidente “civilizado”, e que persista numa política à superfície absurda e contraproducente, mas no fundo desesperada. A América com que ele sonha e sonha o seu eleitorado não voltará mais. Como de resto a Inglaterra com que sonham os partidários do Brexit. Quanto a Portugal não corre o menor risco de produzir um Trump ou um “trumpismo”, porque não passou por uma idade de ouro de que alguém tenha saudades. A indignação que por aí se manifesta pela política do Donald não passa de fervor religioso.