Se existe uma ala moderada/social democrata ou liberal de esquerda enquanto cidadão e militante sempre me identifiquei neste sector de pensamento político. Mas, assim como não fui mandatado por ninguém para escrever estas linhas, também não mandatei Assis para falar por mim e aqui, publicamente, o afirmo: não me identifico nem com a postura nem com a história de Pedro Nuno Santos no PS e no país e não o apoiarei em troca de um lugar para Assis no Parlamento Europeu ou numa candidatura para Belém. Não em meu nome, Francisco Assis.

Assis foi usado como um adereço na apresentação de campanha de Pedro Nuno Santos para tentar fazer a passagem de um novo candidato a secretário geral do PS mais moderado, calmo e centrista (o local político onde se ganham e perdem eleições). Mas, assim como não falo por ninguém (o que não quer dizer que esteja sozinho), também Assis não fala por mim nem me representa neste exercício coreográfico bem urdido, melhor executado mas sem substância relevante. E, contudo, Portugal precisava que o PS apresentasse um candidato moderado, de centro esquerda que não esteja previamente capturado pelos partidos à esquerda do PS e que esteja melhor posicionado, pela sua história pessoal, temperamento e temperatura política, para negociar governos e orçamentos com todos os partidos representados no Parlamento, desde a IL ao Bloco, por forma a garantir que o Populismo não ascende a um lugar que lhe permita integrar ou condicionar um governo da República.

Ninguém sabe qual será a evolução das sondagens nesta longa caminhada que temos de percorrer até 10 de Março mas – a esta distância – é improvável que em 2024 tenhamos um governo de um único partido. Tudo indica que os vencedores antecipados das Legislativas PS ou PSD tenham que negociar no parlamento a formação e os próximos orçamentos e que não deve existir uma preferência antecipada – não sufragada previamente pelos eleitores – por coligações ou apoios à esquerda ou à direita. E apesar da expansão do partido populista de direita, não o devemos confundir com “extrema direita” porque isso o faria persistir no mesmo minúsculo nicho onde vive o PNR/ergue-te e o afastaria de um papel de onde poderia influenciar a governação. O Chega é uma ameaça à democracia precisamente porque não é um partido de extrema direita (como diz Nuno Santos) mas porque é um partido populista capaz (como demonstram vários partidos europeus) de conquistar e condicionar o governo.

A candidatura de Pedro Nuno Santos ameaça também o resultado do sufrágio que deve produzir um governo europeísta, financeiramente credível e moderado, porque muitos eleitores flutuantes vão preferir votar na “coisa verdadeira” a votarem na aproximação Pedronunista, e com esta dispersão vão intensificar a representação parlamentar do Chega. Sem o querer, Pedro Nuno Santos pode acabar beneficiando o adversário principal da democracia em Portugal.

Os meios de comunicação social podem acreditar que com Pedro Nuno Santos a diversão está garantida, assim com uma sucessão de cachas e soundbytes que abrirão os telejornais. Mas Portugal não carece de um anjo caído ressuscitado ou de um Dom Sebastião de esquerda mas de um perfil diferente: mais centrista, equilibrado e moderado. Não precisa de mais radicalismo ou de quem aceite, numa mercearia de apoios, “representar”, sem mandato, a dita “ala moderada” do PS. Não precisa de um candidato de um aparelho cada vez mais aristocrático e endogâmico onde o ventre em que se nasce conta mais do que qualquer percurso de vida ou conhecimento acumulado. Não precisa de mais radicalismos ou de “moderados” comprados por cargos. Precisa de mais contenção, moderação e capacidade negocial.

O PS e o país precisam de um sucessor de António Costa que seja capaz de assegurar que o populismo de direita não toma conta do país e que seja capaz de dialogar à esquerda e à direita. E Pedro Nuno Santos não é esse candidato, tenha ele, ou não, o troféu de Assis erguido ao seu lado: não em meu nome.

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