Por muito que nos custe o Reino Unido deve mesmo sair da União Europeia. Por muito que a convocação do referendo de 2016 tenha sido um erro (o futuro de um país não se deve decidir com uma resposta de ‘sim’ ou ‘não’ a uma pergunta que pode conter vários significados e diversas consequências), o certo é que sair da União foi a decisão da maioria dos que votaram no referendo. A vida é demasiado complexa e foi precisamente devido a isso que a democracia representativa e liberal se inventou. Esta deveria ser a primeira lição a retirar deste já longo processo.

Mas o mal está feito e pouco há a fazer para o reparar. Três anos depois de chumbos no Parlamento, a decisão da maioria do povo britânico no referendo de 2016 é dos poucos factos concretos que restam sobre o assunto. Ao ponto de a solução ideal para o contrapor seria a convocação de outro referendo em que se votasse entre o acordo firmado com Bruxelas ou a manutenção da União Europeia. O risco de uma saída sem acordo é, no entanto, demasiado elevado para que se tente a pergunta que sempre deveria ter sido colocada: quer sair da UE da forma que o governo negociou com Bruxelas ou ficar na UE? Não foi assim que sucedeu em 2016, nem se espera que assim seja em 2019, ou venha ser em 2020. E assim sendo, o melhor é que o Reino Unido saia de vez.

Até porque o Brexit pode conter vantagens que não são visíveis nem imediatas. Há dias, em conversa com um português que trabalha no sul de Inglaterra, este transmitiu-me dois factos extremamente interessantes: primeiro, que a insistência de Bruxelas na questão da fronteira irlandesa (que é o ponto fraco do Reino Unido) está a causar desagrado entre os Britânicos, principalmente entre os Ingleses. Segundo, e mais importante, que há entre os Britânicos (e julgo que também entre os outros povos europeus, burocratas de Bruxelas incluídos) a percepção de que se o Reino Unido não consegue sair da União Europeia, nenhum outro Estado o conseguirá. O Reino Unido são duas ilhas (a única ligação terrestre com outro Estado é de facto uma armadilha) e uma potência. Ora, se mesmo assim os Britânicos não conseguem sair da UE, se nenhum outro país o conseguirá fazer, nesse caso Bruxelas terá luz verde para se tornar num super-Estado. Na verdade, não sendo possível sair, e com o sinal de impotência que um cancelamento do Brexit transmitiria, ficar corresponderia a uma quase total submissão a Bruxelas. Se ao fim destes três anos o Reino Unido desistisse do Brexit a União Europeia sentir-se-ia livre para carregar no acelerador do processo de integração europeia. Tal poria em causa as democracias dos Estados-membros e poderia conduzir a reacções violentas (que não se vêem entre os Britânicos) com vista a saídas forçadas de uma organização cujos objectivos iniciais teriam sido largamente ultrapassados. É nesta perspectiva que, para a maioria dos Britânicos, ficar na UE após este processo com mais de três anos seria um sinal de fraqueza que não pode ser consentido. Traduzir-se-ia a dar luz verde para que Bruxelas fizesse o que quisesse do projecto europeu.

Mas há mais: a saída do Reino Unido permitirá ainda que este se torne num escape às tentações centralizadoras de Bruxelas. É conhecido o sonho de Boris Johnson de criar uma Singapura às portas da União Europeia. Claro que isso é praticamente impossível, até porque o gasto com o sector público no Reino Unido se situa entre os 40% e os 45% do PIB enquanto em Singapura se fica pelos 16%. Mas o governo de Boris Johnson tem intenção de desregulamentar alguns sectores económicos, nomeadamente os portos e os aeroportos, criando verdadeiras zonas de comércio livre com vista para Bruxelas. Nesta perspectiva a saída do Reino Unido da União Europeia, não só obrigaria Bruxelas a ter mais cautela com os seus intuitos de aprofundamento da integração europeia, como a forçaria a também pôr em marcha um plano de liberalização. O acordo de parceria económica entre a EU e o Japão, que se iniciou em 2013 e foi fechado em 2017, é um sinal disso mesmo. Este acordo de Bruxelas com o Japão é ainda mais significativo se tivermos em conta que o Japão é um importantíssimo investidor no Reino Unido, nomeadamente através da Nissan, da Toyota e da Hitachi. Os Japoneses já pediram mesmo garantias ao Reino Unido de que os seus negócios não serão afectados pelo Brexit, e Londres está desejosa por fechar um acordo com Tóquio.

Como se vê as tensões não são apenas políticas e com tendência para que os Estados se fechem em visões proteccionistas e de cariz mercantilista. Do ponto de vista comercial, as perspectivas até são animadoras, com o Reino Unido e a União Europeia a competirem no campeonato da desregulamentação. Se tivermos em conta o que Donald Trump pensa sobre esta matéria e aquela que tem sido a tendência com a guerra comercial entre os EUA e a China, as perspectivas de uma saída do Reino Unido não são forçosamente negativas. Bem encaminhado o processo até pode terminar a bem, ser libertador e para benefício de muitos.