Depois da polémica com este filme, originada com o movimento Black Lives Matter  lá tive de ir ver o dito – mais uma vez – com olho clínico, a fim de averiguar o eventual racismo lá presente. Assim e nas minhas férias, em três sessões e durante três dias, revi este épico da 7ª Arte.

Vamos por partes:

  1. Apesar de ser dos anos 30 do século passado, quando ainda não era crime usar a expressão “nigger”, a mesma não é usada uma única vez durante o filme.
  2. O acto mais violento (assalto com vislumbre de violação) contra uma mulher branca, não é perpetrado por um negro, mas sim por um branco.
  3. Os negros não são caracterizados como maus. Uns fogem, outros ficam. Uns são violentos, outros não. Assim somos todos, independentemente da cor da pele.
  4. Os negros – que eram escravos – são os empregados das casas senhoriais. E então? Não era um facto? Quando se assiste à premiada Downton Abbey, os empregados não vivem na cave? Na cozinha? E o que eram os servos da gleba na Idade Média? Não se trata de achar bem ou mal. Trata-se de, quando se escreve um livro, se faz um filme, retratar-se com a maior fidelidade possível a época e o meio que servem de palco à história.

Não há quem, no seu juízo perfeito, não concorde que a escravatura foi um crime inenarrável, uma falha moral, uma desumanidade.

Claro que não foi sempre um crime de brancos contra negros, mas isso nem interessa. Estava e estará sempre errado (não deixando de ser interessante como certas luminárias se esquecem que Roma, Atenas, Alexandre, os faraós, construíram as suas grandes civilizações e impérios à custa de escravos…).

Nos EUA, muitos dos – e os melhores – “Pais Fundadores” da nação americana eram oriundos da rural e aristocrática Virgínia, sendo grandes proprietários de terras e de escravos. No entanto, lendo a história da criação da Constituição americana – “Plain, Honest Man: The Making of The American Constitution”, de Richard Beeman – constata-se que o problema existiu desde sempre e que a escravatura no Sul já era, nessa altura, um espinho nas mentes iluminadas.

Também é bom de recordar que o herói Lincoln não considerava os negros como pessoas com exactamente os mesmos direitos que os brancos. Resumir a Guerra da Secessão à questão da escravatura é redutor e infantil. Há que juntar – como bem o faz Mark David Ledbetter na sua “America’s Forgotten History”– a geografia, a economia (a decisão sobre as linhas de caminho de ferro tem uma importância enorme), a religião e o facto dos brancos serem minoritários no Sul, situação que os levaria a perder o poder de decidir se, do dia para a noite, se desse direito de voto à maioria negra.

Voltemos ao filme.

Se todos gostamos de Revisitar Brideshead, Downton Abbey e da Família Bellamy, como não gostar de Gone With The Wind?

Já vi o filme várias vezes, e, por muitas vezes que o veja, não me sinto tentado a gostar da escravatura ou, sequer, a aceitá-la. A educação que tive, os valores que me foram passados, não mo permite. Da mesma forma, não gosto de ver os “libertadores dos negros” a massacrarem os nativos americanos até à sua – quase – extinção.

A questão está, como sempre, na educação e não em burocracias ridículas, levadas a cabo por mentecaptos. Gente a quem o vento levou o último neurónio de que dispunham.

O filme é belo. A cinematografia excelente. Vivian Leigh vai espectacular. O canastrão do Clark Gable faz um papelão (talvez só superado pela sua interpretação em Misfits). A história é real e retrata bem a época. O incendiar de Atlanta e a política de terra queimada do “herói” Sherman até são aligeiradas (este General – do Norte – dizia que a guerra era um negócio horrível e que, por isso, quanto mais horrível fosse, mais depressa acabava).

O Sul nunca teve qualquer hipótese. Zero. O cínico Reth Buttler (Gable) passa o filme a afirmá-lo.

Depois da guerra, o Sul foi saqueado pelos carpetbaggers (funcionários públicos oriundos do Norte salvador), que criaram as condições para o aparecimento do KKK e para o ódio contra os negros. Estes saqueadores eram maioritariamente do Partido Republicano, razão pela qual, e até aos anos de Kennedy, o Sul tenha sido terra democrática (sim, os racistas do Sul votaram sempre e muitos ainda o fazem, no Partido Democrata, o de Obama).

No filme, existe uma cena, já depois da guerra, em que é oferecido a Scarlett trabalho escravo – não de negros, mas de negros e brancos. De prisioneiros. Uma situação que ainda hoje acontece nos EUA.

Outra ideia que perpassa no filme é que a escravatura estava no fim. Escravatura, comunismo, fascismo e afins caem sempre. Não duram mil anos. Tudo o que atenta contra a liberdade acaba por desabar. O que é estranho é que, ainda hoje, exista quem não tenha aprendido a lição.

É também importante referir que a guerra, pelo lado sulista, foi lutada maioritariamente pelos pobres, pois uma lei isentava do serviço militar todos os que tivessem mais do que quatro escravos. Nas guerras, os mortos raramente são os que com ela ganham ou perdem mais (além da vida, é claro).

O belo filme que é Gone With The Wind, é uma carta de amor à terra, ao país de onde somos.

O vento leva e traz muitas coisas. Ultimamente, e por culpa de uma esquerda radical, que de tão radical e de tão politicamente correcta, se torna estúpida na sua perseguição aos valores perenes de uma Nação, faz levantar um vento que nos traz uns quantos oportunistas que aproveitam a brisa para falar dos direitos dos brancos, dos heterossexuais, dos cristãos, etc.

Este vento, de mau cheiro, do qual a esquerda é responsável, tem levado de arrasto a nossa cultura, a nossa língua, a nossa história, o nosso orgulho de sermos parte de algo que nos é superior. Estes internacionalistas de pacotilha, são tão abjectos como os defensores da escravatura. O problema é que – ao contrário dos patetas que se dizem fascistas –, estes patetas têm tempo de antena e dominam a maior parte das redacções (como tal foi conseguido, era um bom tema para uma tese de doutoramento em Ciências de Comunicação).

Tal como Scarlett ama Tara, eu amo Portugal. Amo desde que era Condado Portucalense. Quem ama, não foge, não deserta, não apaga eras, anos ou regimes. É por isso que não quero que o vento me leve o D. Afonso Henriques, o D. Diniz, o D João I, o Santo Condestável, o Infante D. Henrique, o Mouzinho de Albuquerque, os combatentes em todas as nossas guerras, o Vasco da Gama, o Gil Eanes, o Bartolomeu Dias, o Fernão de Magalhães, o Pedro Álvares Cabral, O Camões, o Pessoa, o Sacadura Cabral, o Gago Coutinho, o Hermenegildo Capelo, o Almada, o Duarte Pacheco, a Amália, o Eusébio, o Cristiano, os campeões de 2016, o Carlos Lopes, a Rosa Mota, o Agostinho da Silva, o Adriano Moreira, o Freitas do Amaral, o Mário Soares, o Sá Carneiro, o Ramalho Eanes, o Salgueiro Maia, o soldado Milhões, a Padeira de Aljubarrota, o Fontes Pereira de Melo, o Marquês de Pombal, o Eça de Queiroz, a Sophia M.B. Andersen e o Viriato.

Mas desejo que o vento leve – para bem longe – todos aqueles que não defendem Portugal e a sua História.