Sempre que há um ataque jihadista, a primeira coisa que se começa a discutir nos estúdios da televisão não é o Estado Islâmico, mas Marine Le Pen e Donald Trump. Como se o problema fosse o aproveitamento demagógico dos atentados, e não os atentados em si, a sua frequência e a sua violência. Como se bastasse ralhar a Le Pen ou a Trump, para limitar as reverberações políticas e sociais do terrorismo. O esforço para desviar a conversa do tema politicamente incorrecto da campanha jihadista contra o Ocidente é notável, como se viu no caso de Orlando, logo reduzido à polémica sobre o acesso comercial a armas. A França não é a América, mas nem por isso os jihadistas deixaram de matar 130 pessoas em Paris e agora cerca de 80 em Nice. Em Nice, nem foram precisas armas, chegou um camião.

Não, o problema é este: a Europa alberga hoje grandes comunidades imigrantes em crescimento descontrolado, e onde demasiada gente rejeita os valores ocidentais. Alguns sentem-se inspirados ou foram mesmo organizados para atacar a sociedade que os acolheu. Não são todos, são até poucos, mas estão a conseguir importar para a Europa o sectarismo e o terrorismo que há décadas se tornaram endémicos no Médio Oriente e no norte de África. Não é sensato continuar a invocar o “racismo” e a “islamofobia” para impedir um debate sobre o jihadismo. Porque o racismo e a islamofobia hão de alastrar quanto mais os regimes europeus se mostrarem incapazes de enfrentar a insegurança da jihad. E também não será sensato continuar a fingir que nos podemos esquecer do Médio Oriente e deixar os árabes entregues à sua sorte: o Iraque provou que uma invasão para derrubar um tirano não é, só por si, uma solução; mas a Síria provou que não fazer nada, e deixar uma guerra civil continuar o seu curso, também não. Não há soluções fáceis: mas não querer ver o problema não é uma solução.

Haverá um momento em que já não chegarão os lugares comuns, a começar pelo mais cansado de todos: o apelo para não fazermos o “jogo dos terroristas”. Haverá um momento em que as vigílias e demais cerimónias do “Je suis” consolarão cada vez menos gente. Haverá um momento em que já quase ninguém terá paciência para mais um exercício de auto-flagelação a propósito da guerra do Iraque de 2003 ou do acolhimento dos imigrantes. Nesse momento, a vida nas sociedades ocidentais, tal como nos habituámos a ela, estará comprometida.

Não será possível manter os padrões actuais de liberdade, tolerância e pluralismo numa sociedade sacudida por matanças regulares de cidadãos. Um dia, esse será o problema que a maior parte dos cidadãos quererá ver tratado, e não a arqueologia da guerra do Iraque ou os confortos devidos aos imigrantes. Um dia, o público ocidental esperará que a polícia tudo faça, incluindo o que agora é inaceitável, para limitar os riscos, de modo que nunca mais se saiba que um terrorista era, afinal, conhecido das autoridades, que nada fizeram ou puderam fazer. Um dia, alguém se lembrará do que os paraquedistas franceses conseguiram em Argel, em 1957, quando o seu poder deixou de ter regras e limites (como diria Tácito, fizeram um deserto e chamaram-lhe paz). Um dia, quem sabe, veremos os cidadãos europeus, indiferentes ao sofrimento dos outros, exigir retaliações nas terras de origem dos terroristas.

É isso que os jihadistas querem? É de facto isso que os jihadistas querem, quando abusam do Islão e recorrem ao terrorismo para separar as comunidades islâmicas e as sociedades ocidentais. Não devemos aceitar essa segregação. Mas não bastarão meia dúzia de banalidades de concurso de misses para os jihadistas falharem o seu objectivo.

Foi assim, explorando a impotência do Estado russo perante o terrorismo checheno, que Vladimir Putin edificou a sua autocracia. Mas não se evita o autoritarismo securitário denunciando simplesmente o autoritarismo securitário. Evita-se, lidando com as dificuldades. Àqueles que, muito justamente, receiam por esta Europa em que nascemos e temos vivido, é preciso dizer: é muito mais provável que o fim comece com atentados como o de Nice, se ficarem sem resposta efectiva, do que nas negociações dos acordos comerciais do Brexit.

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