A repulsa à morte pode facilmente converter-se em repulsa à vida quando, sentida a decadência do corpo e da mente, se perde a esperança de um dia voltar a ser capaz de actos banais, como calçar os sapatos e apertar os atacadores, bem como respirar e comer por si. Porém, a decisão de adiantar a morte é intolerável quando a vida é vista como dogma que obriga todo o vivente a viver até ao dia fatídico, regra que desvaloriza o sofrimento, parte do Karma, processo de realização da alma. Sobre o “carácter inviolável da vida” diria que há coisas piores que morrer e, em muitos anos de contacto próximo com gente sofredora, nunca encontrei alma alguma feliz aprisionada num corpo decrépito.

Eu thanatos”, etimologia da palavra eutanásia, remete-nos literalmente para a ideia de boa morte. A questão é que nenhuma morte é boa aos olhos da vida sedenta de mais vida, numa sociedade sôfrega de materialidades, que recusa o fim do sonho, o fracasso do homem face aos avanços da ciência e da tecnologia. Nas sociedades ocidentais, a morte surge na contramão de sentimentos de imortalidade e eterna juventude, onde parece não haver lugar ao velho, ao deficiente, ao gordo, para que prolifere um mundo de gente perfeita bem maquilhada e tonificada, persistente make-up da vida. Importa, pois, questionar se é desta vida que se nega o fim, ou daquela que é de alguém confinado à cama, à dor e à fralda e não quer assim viver.

O doente crónico, dependente, é, por regra, expropriado do seu ambiente, dos seus pertences e colocado em unidades de cuidados paliativos ou unidades hospitalares de retaguarda, a quem a família delega o seu cuidado por falta de condições, paciência, mas, principalmente, por incapacidade de coabitação com a doença e a iminência da morte as vinte e quatro horas do dia. Refere Elisabeth Kübler-Ross (1926 -2004) no livro Sobre a morte e o morrer, que “quando um paciente está gravemente enfermo, em geral é tratado como alguém sem direito a opinar. Quase sempre, é outra pessoa que decide se, quando e onde o paciente deverá ser hospitalizado. Custaria tão pouco lembrar que o doente também tem sentimentos, desejos, opiniões e, acima de tudo, o direito a ser ouvido”.

Torna-se deste modo inegável, o direito a dispor da própria vida quando existe desejo lúcido em por fim ao sofrimento, mesmo contra a vontade da família. O doente deve contar com o auxílio das entidades que zelam pelos seus direitos, liberdades e garantias, para que se torne possível partir serenamente com dignidade, sem dor, e não seja necessário recorrer aos serviços de saúde de outros países.

A controvérsia desta matéria é legitima, faz parte do caminho para a maturidade ético-moral da sociedade, mas não é uma questão política e o seu carácter sensível exige seriedade na argumentação, sem outros aproveitamentos na manipulação da opinião pública. Há argumentos que se arrogam de superioridade moral, quando são mero pretexto de adesão a uma suposta imagem de nobreza de carácter que não é de direita nem de esquerda, nem dos que são a favor nem contra eutanásia. Quando se vive em alheamento do sentido de estar vivo e se confunde vida com funções vitais: comer, dormir, higiene e outras, é fácil inspirar-se num altruísmo patético para se opor à autodeterminação de quem, em consciência, percebe que tem a vida reduzida a um tormento sem fim e prefere por ponto final na sua própria história.

Deixemos legislar e regular a favor da vida com dignidade, exigência contida nos artigos 25º e 26º da Constituição Portuguesa, que impedem de um dia, chegados a velhos ou doentes, sejamos dizimados por qualquer químico letal num género de limpeza comunitária, medo constrangedor de muitas convicções.

Na década de oitenta, era eu jovem estagiária de enfermagem no serviço de neuro-traumatologia dos hospitais da Universidade de Coimbra e iniciava o segundo ano. Naquela manhã cheguei à cama do Miguel, 20 anos, para lhe prestar cuidados de higiene e nem me deixou dizer bom dia. Olhos fixos no teto, completamente imóvel, proferiu uma frase que três décadas depois ainda ressoa na minha memória – “ajuda-me a morrer, não consigo coçar o nariz”. Tinha tomado consciência que estava tetraplégico depois do acidente de mota.

Massajei-lhe o nariz com uma compressa, contive as lágrimas, aquelas o Miguel também não conseguia chorar. Acabei com o prurido, mas um pouco de mim morreu na angústia dele. Morremos todos os dias um pouco e precisamos de mão amiga, eu thanatos, que nos ajude desde o primeiro grito na maternidade ao último suspiro no hospital… porque a vida mais não é que a morte adiada.