Sempre que defendia as quotas para a administração pública, governo e listas eleitorais, quem não concordava usava o argumento estafado e profundamente intelectualmente preguiçoso do mérito: que as pessoas deviam ser escolhidas em função do mérito, não do sexo. (E deixavam subentendido, muitas vezes com pouca subtileza, que as mulheres não eram escolhidas, antes das quotas, por não terem tanto mérito como os sortudos eleitos.)

Eu ria-me, claro. Ou não, porque às vezes a desonestidade intelectual e a má-fé do argumento era tão gritante que nem servia para risota. Porque, bem, toda a gente sabe como são feitas as escolhas políticas. Mérito (no sentido de competência e capacidade de análise e concretização) é um atributo que vem no fim de uma lista onde constam características mais importantes como ‘afinidade ideológica’ e ‘lealdade política’ (no lado benigno), ‘devo-te um favor’, ‘apoiaste-me, agora pago-te com uma nomeação’, ‘preciso de controlar a tua fação’, ‘fazes muito barulho mediático ou no partido e quero calar-te’, ´és um arruaceiro traiçoeiro e quero controlar-te’ (no lado maligno) e outras que tais.

Esta singela realidade ‘do mérito’ não surgiu apenas agora. Sempre esteve lá para quem quisesse ver. Em todos os partidos. O PS simplesmente lhe juntou um novo critério de seleção para cargo político: ser familiar de alguém com (ainda) mais poder.

Pelo que usar o argumento do mérito é, em si mesmo, uma admissão explícita de que se considera que as mulheres devem ser avaliadas por bitolas mais altas que os homens: os homens são escolhidos por conveniência política, as mulheres só podem ser escolhidas depois de darem provas profissionais inquestionáveis. (Na verdade é uma admissão envergonhada de que se quer dificultar a participação política das mulheres. Umas vezes por questões ideológicas de conservadorismo extremo, outras porque não se quer a concorrência de mulheres para o número limitado de cargos que existem para preencher.)

E inquina-se despudoradamente a discussão. Porque não se discutem as quotas – mais mulheres em cargos políticos – tendo em conta a realidade de recrutamento político como ela é. Usa-se de nova desonestidade, de resto comum quando se debatem questões que envolvem mulheres: assume-se que o mundo é perfeito, funciona sem engulhos, pelo que qualquer distorção que imponha mulheres em cargos políticos é acrescentar imperfeição a um mundo perfeito, onde o mais puro mérito vigora na escolha dos que tratam da res publica.

Também se assume que alguém é capaz de uma avaliação universal e infalível do ‘mérito’ de uma pessoa (homem ou mulher). Algo que só alguém que nunca trabalhou em recursos humanos ou com equipas, nem estudou qualquer módulo de gestão de RH pode argumentar. Como se a avaliação que todos fazemos sobre os outros não fosse necessariamente inquinada pela nossa visão do mundo, limitações, preconceitos. Mas esta é uma discussão mais fina, que por economia de espaço, deixo de fora.

As quotas e o maior recrutamento de mulheres, sem surpresa dada a realidade, têm proporcionado um aumento do tal mérito nas hostes políticas. Porque obrigam que se vá buscar pessoas (no caso, do sexo feminino) fora destes círculos partidários – e, neste caso, sim, são mais escolhidas pelo mérito profissional que pela envolvente política. Porque a diversidade de pontos de vista, de percursos profissionais, de perceção das necessidades das populações, tudo isso potencia a qualidade das decisões. Sendo que obviamente estas diversidades são estimuladas pela diferença entre os membros de um grupo: diferenças de sexo, região onde se nasceu, classe social de origem, raça, área de estudo, e por aí adiante.

Tanto é assim que os estudos que existem (ainda poucos, visto ser uma realidade recente) apontam todos para uma melhoria de qualidade dos políticos com a introdução de quotas. O contrário que os iluminados do estafado argumento do mérito prometiam. Veja-se Gender Quotas and the Quality of Politians, um paper que avaliou um período em Itália em que foram introduzidas quotas e várias eleições autárquicas apresentaram listas com, pelo menos, um terço de mulheres, havendo um grupo de autarquias que não tiveram eleições nesse período e mantiveram os anteriores rácios entre os sexos. Apurou-se que não só a qualidade global dos políticos aumentou (verificado por vários indicadores) nas autarquias que introduziram quotas, como até a qualidade dos políticos homens aumentou, escolhendo-se menos homens pouco escolarizados. (Para quem não quiser ler o paper, Paola Profeta explica tudo numa TED Talk.)

Temos, então, a agradecer ao PS – com a sua política familiar – o ter escancarado que há muitos fatores que levam ao recrutamento político – e que têm muito mais a ver com a confiança, relações pessoais, politiquice e pedigree partidário que com o ‘mérito’. Nem pretendo defender que os familiares escolhidos (já lhes perdi a conta) não são competentes. E até simpatizo com as queixas de quem vê a sua competência menorizada por relações familiares auspiciosas que facilitam a vida.

Sucede que uma ou outra ocorrência até se poderia explicar pelo acaso. Mas do que se conhece estamos já num nível de governo como negócio familiar. Faz lembrar os romances policiais de Qui Xiaolong, quando versam sobre o governo da China pela aristocracia do Partido Comunista Chinês, esse bom exemplo de transparência.