Os cientistas sociais que se dedicam a estudar as atitudes e comportamentos da população perante o desenvolvimento da economia sabem que os inquiridos têm tendência para prever uma situação familiar melhor para eles do que para o conjunto do país, o que na maioria dos casos tem pouca viabilidade de se verificar. Já os economistas que estudam as últimas estatísticas e fazem previsões para o futuro próximo, passam por cima das expectativas pessoais mas, em compensação, retratam com bastante fidelidade aquilo que se passou e o que se vai passar no futuro próximo.

Ora, os «links» abaixo permitem-nos perguntar onde é que o actual primeiro-ministro foi buscar a ideia de que Portugal teria crescido nos seus três anos de governação acima da média europeia e muito menos em 2019, quando Portugal será o terceiro a contar do fim em matéria de crescimento na UE.

Não é que o impacto da situação económica tenha obrigatoriamente um impacto directo e proporcional nas eleições em geral e, concretamente, nas deste ano. Positivo para o governo e para os seus aliados da «geringonça» só o será na aparência pois, comparativamente à grande maioria dos outros países da UE, Portugal cresceu menos. Pelo seu lado, o novo líder do PSD, Rui Rio, continua a fazer confusões tais quanto ao seu posicionamento no tabuleiro partidário relativamente ao PS e ao CDS, que só este último poderá tirar alguma vantagem da queda do crescimento económico abaixo de 2% pelo terceiro ano consecutivo.

Há, no entanto, outros factores em jogo, segundo as diversas eleições previstas (Europeias em 26 de Maio e Legislativas em 22 de Setembro, além das eleições regionais da Madeira no mesmo dia que as Legislativas). As eleições para o Parlamento Europeu serão, seguramente, desprezadas pela grande maioria dos portugueses, como tem sucedido no passado. Há quatro anos abstiveram-se dois-terços dos eleitores e, desta vez, é provável que surjam novas manifestações de antieuropeísmo, incluindo da parte do PCP e do BE. Por maiores que sejam as promessas do PS a nível europeu, vizinhas dos «manifestos de intelectuais» que começam a aparecer, não é de crer que elas mobilizem o seu eleitorado. Fica, pois, um grande ponto de interrogação até Setembro depois da provável vitória do Partido Popular Europeu e o aumento dos antieuropeístas em Maio.

Não será daí, portanto, que o PS tirará forças para Setembro. Entretanto, os satélites do actual governo, procurarão por toda a maneira diferenciar-se do PS e evitar hemorragias para «o partido à sua direita». Excluindo os eventos imprevisíveis que não deixarão de ocorrer até às legislativas, o furo mais evidente na roda da «geringonça são as greves incontinentes do PCP e das organizações corporativas, como os funcionários públicos das escolas, dos hospitais, dos transportes, etc., greves essa de que a população está farta! Se o governo não paga, o PS não recebe os votos; e se paga, é a economia que se ressente, para não falar do aperto que viria certamente por parte de uma zona euro que não pretende injectar mais balões de dinheiro.

O Brexit e a instabilidade permanente da cena internacional, desde os Estados Unidos à Rússia e ao Brasil, para não evocar os fumos de guerra e de terrorismo que se temem em todo o lado, já dificilmente serão compensados pelo turismo e pela especulação imobiliária em Portugal. O próprio facto de o crédito bancário ao consumo continuar a jorrar como no tempo da bancarrota iminente da década passada só minará os fundamentos da economia produtiva, bem como da cotação internacional do país, que continua a ter uma das maiores dívidas do mundo em percentagem do PIB.

É hoje notório, ao cabo de três anos de «geringonça», que a continuação das manobras do Ministério das Finanças para conter essa dívida já levou à crise de serviços públicos tão decisivos do ponto de vista sócio-demográfico como a saúde. Pouco faltará para mais um desastre assim como nos transportes. Quanto à instrução pública é o que se sabe: promessas absurdas e resultados pífios, como as organizações internacionais salientam. Acabada a «pausa natalícia», o sentimento de preocupação generalizar-se-á e cada vez menos pessoas acreditarão nas obras públicas anunciadas em catadupa. Entretanto, com a saída da antiga Provedora de Justiça e com a mudança de juiz do processo, podemos estar certos que Sócrates e companhia não serão julgados tão cedo. Até lá, o tempo será longo para os partidos. Só um resultado é certo: não existem hoje forças políticas que garantam as mudanças de que o país precisa para sair do atoleiro em que está.