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O Conselho Económico e Social (CES) quer importar linguagem inglesa dita “neutra e inclusiva” para Portugal.  Estas causas das elites das sociedades inglesa e americana são cada vez mais copiadas pela esquerda portuguesa. Há muito boas práticas anglo-saxónicas que até devíamos importar, como a vacinação rápida, a gestão governativa focada nos resultados, a contratação com base no mérito para a administração pública, as leis que limitam o nepotismo, a justiça célere contra a corrupção, ou a eleição em círculos unipessoais dos deputados, para realmente serem representantes diretos da população.

Infelizmente, os nossos governantes e nomeados políticos, para disfarçar do que interessa resolver ou implementar urgentemente no país, só importam do mundo saxónico as causas de ideologia woke, que se podem traduzir como vitimização politicamente correta. Alheiam-se do país real como se numa patuscada portuguesa, em vez de pastéis de bacalhau e vinhos do Douro ou do Alentejo, nos quisessem impingir scones e chá.

Relevantemente, na recente entrevista feita pela bilionária Oprah Winfrey aos dois príncipes multimilionários britânicos, Harry e Meghan, que agora residem na Califórnia, estes informaram-nos que são vítimas de discriminação. Há, de facto, problemas graves, inegáveis e com longa história de discriminação de certos grupos no Reino Unido e nos EUA. No entanto, no caso particular destes príncipes, é relevante salientar que receberam 40 milhões de euros dos contribuintes britânicos só para o casamento e que poderão receber 100 milhões de euros só num contrato com a companhia americana Netflix.

Vem isto a propósito de uma certa esquerda portuguesa – que poderíamos designar de “caviar,” privilegiada e dependente da política – prosperar também a falar da discriminação, sem originalidade nem, sobretudo, muita relevância para Portugal. É que políticos poderosamente principescos, como Francisco Louçã, dedicarem-se à importação da discriminação anglo-saxónica é uma forma de evitarem falar, por exemplo, do desperdício lusitano de milhares de milhões de euros dos contribuintes por inação ou inépcia dos nomeados políticos que vão parar ao regulador Banco de Portugal.

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Também para outro Francisco, Assis, presidente do CES, é mais fácil emitir “manuais de linguagem neutra e inclusiva” importados de universidades inglesas medianas, como a de Manchester, falar do sexo dos anjos, perdão, da “população em cargos de gestão” (o novo termo proposto pelo CES para gestores), do que resolver o problema de toda a (o?os?as?) população portuguesa, que tem um poder de compra tão baixo que é apenas superior ao da Bulgária.

E fácil fechar os olhos e sonhar que não temos pobreza e emigração em Portugal, mas, sim, o mesmo nível económico da Inglaterra e a mesma diversidade da população do mundo inteiro a querer ser imigrante lá. Só assim poderia fazer algum sentido dedicarmo-nos com o mesmo afinco aos detalhes linguísticos a que os ingleses se dedicam, em vez de pôr as mãos à obra ao muito que há a fazer primeiro por cá.

Igualmente, seria difícil resolver por cá o problema de que, ao contrário do Reino Unido, a nossa “população em cargos de gestão” na administração pública normalmente não tem qualificações ou experiência em gestão no privado para bem gerir no público o que quer que seja, da vacinação à regulação. Relembremos que o deputado Ascenso Simões, ex-regulador da energia mais cara da Europa por poder de paridade de compra, em vez de usar a sua “experiência” para discutir propostas para reduzir tais preços de energia que asfixiam as famílias e as empresas portuguesas, preferiu dedicar-se a propostas para derrubar estátuas, outra das grandes causas woke defendidas por jornais ingleses como o The Guardian.

Aliás, voltando aos ensimesmados Harry e Meghan, classificados por jornalistas britânicos, como Piers Morgan, precisamente como os príncipes das causas woke, a sua auto-vitimização e auto-proclamação como representantes dos oprimidos fez lembrar o estilo de José Sócrates. Os príncipes falavam de uma mansão na zona mais cara na Califórnia. Sócrates falava de um apartamento nas zonas mais caras de Paris. “Sofre-se” muito na esquerda caviar. A vida nos aviões e iates privativos dos amigos não é o que parece.

Outra semelhança curiosa, é que Sócrates queixava-se às administrações das televisões e jornais dos jornalistas que o criticavam e tais jornalistas acabavam geralmente despedidos. Da mesma forma, os príncipes fizeram queixa à administração da televisão britânica ITV sobre as críticas do já referido Piers Morgan, que questionou a veracidade dos factos afirmados na entrevista. Morgan acabou por perder o emprego, vendo-se obrigado a demitir-se da TV, ficando claro de que lado está o poder e os riscos que estamos a correr com a liberdade de expressão no mundo inteiro, liberdade cada vez mais limitada por uma certa elite internacional. Algo que nos parece que todos na esquerda caviar querem, internacional e nacional, é só ter privilégios e direitos sem questões nem deveres ou responsabilidades perante ninguém.

O inacreditável nesta entrevista ao casal ultraprivilegiado a caminho de ser bilionário, foi quando Oprah perguntou à princesa se não tinha sido bastante bom para si ter casado com o príncipe. Meghan respondeu, com cara de pau e muito séria, que não, que a sua carreira e vida antes de casar – de atriz de segunda de telenovelas de segunda, como a série Suits – tinham sido prejudicadas por amor ao príncipe.

Os príncipes, em vez de demonstrarem qualquer gratidão por um milhão, sequer, dos muitos que receberam dos contribuintes e da casa real, dispararam a tal acusação, muito grave e generalizada, de discriminação racial com base em conversas com um único indivíduo, cuja identidade não revelaram, deixando a suspeita a pairar sobre toda a família real e todos os empregados da casa real. Chegaram a insinuar que o seu filho não tinha o título de príncipe por discriminação. Isto, quando desde há 100 anos, que qualquer bisneto do monarca que não esteja na linha direta de sucessão não é príncipe. Sugeriram, também, que era uma injustiça, agora que estão na América sem prestar nenhum serviço ao povo britânico, não receberem mais milhões dos contribuintes para proteção na sua mansão californiana.

Mesmo tendo tido médico privativo no palácio e vários familiares a trabalhar na promoção de organizações britânicas de saúde mental, os príncipes afirmaram também que ninguém os ajudou nessa área, assacando mais suspeitas graves generalizadas contra a família real e o Reino Unido em geral. Curiosamente, nesta área da saúde mental, apesar dos possíveis preconceitos e dificuldades ainda existentes, o Reino Unido está até bastante mais avançado do que Portugal.

Muitos psicólogos portugueses, aliás, veem-se forçados a ir trabalhar para as ilhas britânicas pois em Portugal essa área é ainda, geralmente, desprezada. Como este é um problema concreto existente em Portugal, duvidamos que qualquer dos nossos governantes vá importar esta causa em particular para cá. Interessa mais aos nossos políticos importar causas irrelevantes para Portugal, que não lhes exijam muito trabalho nem a resolução de problemas concretos dos portugueses.