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Calma aí, que isto aqui não é o Texas, foi uma expressão da qual abusei na minha adolescência, sempre com uma conotação tendencialmente negativa. Hoje, tal como tantas outras pérolas como ‘népia’, ‘butes’, ‘nicles’ que me parecem acrescentar pouco a um discurso adulto, foi sentenciada a uma estadia perpétua na gaveta do silêncio. Claro, a vida é de ironias que os nossos próprios juízos não adivinham e por isso, quando essa mesma idade me levou a trabalhar para uma empresa cuja sede é na hipster capital daquele mesmo estado americano, as minhas visitas ao local levaram-me a repensar a repescagem da dita cuja expressão.

Austin é uma terra como nenhuma outra que eu tenha conhecido. Entre bairros e zonas da cidade, uma pessoa desloca-se em autoestradas de pelo menos três faixas, entupidas de camiões e camionetes, carrinhas mais ou menos enormes (mas nunca pequenas) que a qualquer hora do dia exigem paciência para o pára-arranca. Uma das principais atrações da cidade envolve tentar ver morcegos a atravessar uma ponte, e mesmo no centro, ir a pé da avenida principal para aquilo que parece um museu adjacente é uma péssima ideia, já que o caminho inclui avenidas gigantescas e ruelas traseiras em obras (que podiam ou não bem ser a casa de alguém). É também terra onde, não surpreendentemente, fritos acompanham com fritos, qualquer mulher sem rugas vincadas tem que apresentar o passaporte ao pedir um copo de vinho e onde as apreciações raciais podem surgir a partir dos mais inusitados motivos.

Mas é também uma cidade desenvolvida e em crescimento. Onde se pode escolher entre tentar a sorte para trabalhar no Facebook, Google, Microsoft ou vários outros gigantes que lá tem impressionantes campus. O Capitólio do estado é maior que o de D.C., como qualquer guia turístico não se cansa de apontar (ainda que membros da casa dos representantes se reúnam apenas ano sim, ano não, por períodos de meses extensivos). Comprar uma casa onde caibam dois cães no jardim de trás não tem de esperar até aos 40’s e as opções de atividades e serviços existem para todos os gostos e estilo de vida. Lembro-me de pensar na altura que Austin misturava de forma muito complexa tradição e inovação, o novo e antigo, abertura e preconceito, desenvolvimento e submundo, tal bolo mármore marado (olha outra expressão que talvez devesse entrar para a gaveta).

Certo é dizer que, com o que eu vi e conheço do Texas, isto por cá não o é. Terra a nossa onde trabalhar numa grande empresa requer um excecional talento (e uma excecional sorte) e mesmo esse grande feito dificilmente possibilita comprar a casa com o jardim, seja ele onde for. Mas também, Terra onde facilmente uma pessoa se desloca a pé, nem que seja para comprar pão (que existe em menos de 40 variedades e sem ser em locais designados para a sua venda).

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Esta semana a minha agenda de trabalho esteve anormalmente calma pelas tardes, que ocupo, em regra, em reuniões com os meus contrapartes texanos. Ao início, as queixas de faltas de luz, foram coisa na qual me pode rever (chamadas para o provedor de rede móvel a queixar-me da qualidade da internet são ocorrências já conhecidas). Mas, mais para o final da semana, inteirei-me que afinal, não me posso rever no que se passa atualmente no Texas. A minha equipa, malta com as ditas casas porreiras nas quais andam de t-shirt todo o ano, mandavam fotografias a cozinhar em fogões de acampamento, enrolados em cobertores medonhos e com portas de entrada com neve até à altura do joelho. Relataram as sortes de poder ir tomar banho à casa do amigo a quem sobrou água quente, e de encontrar lenha para arder na lareira que até agora só enfeitou.

Não, isto não são falhas que eu conheça ou que tenha alguma vez experienciado. Mundo estranho este em que tudo o que já se soube, de repente não é tudo. Ou talvez não. Pensando bem, não é estranho. Tudo o que se sabe nunca é tudo. Às vezes é preciso um abanão, forte, para avivar essa noção (talvez outra coisa que tenha deixado perdida numa daquelas gavetas mentais).

Finda esta semana, que comecei fartinha das paredes que me rodeavam, quero acreditar que a minha agenda incrivelmente soterrada para a próxima, signifique que os meus colegas já não terão de estar com três camadas de roupa nas suas casas. Até lá, estou aqui com os pés ao lume, aceso apenas pelo conforto de o ter, e agradeço o contraste do meu confinamento com a ventania que assobia lá fora.