Na mais pacífica de todas as épocas da história ocidental, nunca a guerra, enquanto metáfora, parece ter sido tão popular. Desde há uns anos, que é dessa maneira que as sociedades ocidentais e os seus governantes lidam com os problemas, declarando-lhes guerras. Foi assim com os jihadistas (“a guerra ao terror”), e é assim com o Covid-19. A ideia da guerra atrai como esforço total. É a garantia de que se está mesmo a falar a sério, e que se espera determinação e unidade. Em Inglaterra, chamam-lhe o “espírito do Blitz”. Mas se todos querem a guerra, ninguém quer os seus custos e consequências. A guerra interessa-nos apenas como estado de espírito. Não admitimos que possa impor sacrifícios e escolhas difíceis, como se viu durante a “guerra ao terror”. Nesse sentido, é difícil distinguir estas guerras da célebre guerra de Raul Solnado, com dias de descanso. Mas as guerras não são assim, e esta também não será.

Sejamos justos: não teria sido possível evitar políticas drásticas. Quando as curvas da infecção e da mortalidade começaram a subir em Itália, de modo cada vez mais rápido e íngreme, o público assustou-se.  Nenhum governo se podia permitir ser acusado de complacência. A ideia de parar a economia, a fim de travar a epidemia, não teve oposição, até ao momento em que começou a ser realizada. Percebeu-se então que as quarentenas iriam ter um preço. Pior: ninguém sabe até quando poderão durar. Conseguirão as economias e as sociedades ocidentais sobreviver a um ano de férias?

Na economia, tornou-se claro que o prolongamento da corrente emergência só poderá significar insolvência e desemprego generalizado. A ideia é poupar os serviços de saúde a uma afluência esmagadora de doentes. Faz sentido. Mas no fim, os serviços de saúde podem ficar como a catedral de Colónia em 1945, o único edifício de pé numa paisagem de ruínas. Confrontados com essa perspectiva, os Estados ocidentais, a começar pelos EUA, recorreram ao meio a que recorrem desde há vinte anos: a injecção maciça de dinheiro, para alavancar a economia. Aqui, há de facto um paralelo com a guerra. Não é de agora: foi assim que os governos europeus pagaram a I Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, imprimindo dinheiro. Foi assim também que, depois de 1918, o governo da República de Weimar tentou manter-se.

Em 1923, aliás, o governo de Weimar fez algo muito parecido com o que os governos são convidados a fazer agora para conter o vírus. Em Janeiro desse ano, a França ocupou a região industrial do Ruhr. A ideia era pressionar a Alemanha a satisfazer  as reparações de guerra. O governo alemão dispôs-se então a pagar a milhões de trabalhadores do Ruhr para ficarem em casa, numa greve por tempo indeterminado contra a ocupação francesa. O resultado foi a “morte do dinheiro” na Alemanha: simplesmente, ninguém acreditou que o governo alemão tivesse meios para pagar tantos salários, e, consequentemente, todos deixaram de acreditar no dinheiro que imprimia para o fazer. A inflação devastou a sociedade alemã, e só foi remediada, em 1924, com a assistência financeira americana. A Alemanha ficou dependente da ajuda externa. E quando esta ajuda faltou, depois de 1929, tudo se desmoronou outra vez.

Não faz sentido, neste tempo de incerteza, anunciar ou prever nada. Mas há ainda quem trate a epidemia como mais um incidente para ser usado em pequenos golpes políticos. É um caso fantástico de miopia. Algumas das maiores transformações sociais e políticas do mundo no século XX deveram-se às guerras mundiais. Foi assim com o fim do tipo de sociedade de classes do século XIX, após 1918, ou com o colapso dos impérios europeus, depois de 1945. Tenham cuidado quando pedem uma guerra: ninguém sabe o que vem a seguir.