Há sempre um momento importante mais ou menos a três meses das eleições norte-americanas. O anúncio de quem vai fazer parte do “ticket”, ou seja, o nome que o candidato escolheu para ser o/a seu/sua vice-presidente. Deixem-me, aliás, dizer-vos que, à parte alguns casos em que o presidente e o VP desenvolveram relações pessoais importantes (ou, evidentemente, se acontece alguma coisa ao presidente durante o mandato), este é mesmo o momento em que o vice-presidente é mais importante. É que esta figura é escolhida por complementaridade ou por compatibilidade, e isso diz muito do presidente e ao eleitorado.

Recorre-se à compatibilidade quando o candidato é tão forte, que a sua campanha sai reforçada com um vice de perfil semelhante, ainda que com uma ou outra característica diferenciadora. A complementaridade serve o contrário: ela é vantajosa quando o candidato não é consensual, procurando-se alguém que represente outra ala do partido, para que os eleitores mais reticentes lhe deem um voto de confiança. Era isto que, teoricamente, Joe Biden deveria ter feito.

Bem sei que Trump nos enche impiedosamente os olhos e o novo coronavírus, associado, tem-nos feito andar distraídos. Mas deixem-me lembrar-vos: o Partido Democrata está bem dividido. De um lado, os democratas clássicos, como o próprio Biden, que não perceberam duas coisas essenciais: que o mundo mudou drasticamente nas últimas décadas e que nem Barack Obama, cheio de carisma, conseguiu acertar com a agulha do tempo interno e externo. Deixou muitíssimo por resolver e ajudou à polarização que o país vive hoje. Não parece sensato tentar combater novos problemas com velhas fórmulas, porque isso já deu o que tinha a dar e não foi bom o resultado.

Outro fator a ter em conta é que se ergueu um grupo significativo de políticos no Partido Democrata, nascidos a 16 de setembro de 2008, no dia em que o Lehman Brothers ruiu. Estes novos democratas, muito mais radicalizados, têm quatro pontos fundamentais na agenda: reformar de alto a baixo o sistema financeiro norte-americano; implementar uma agenda verde que está fora do alcance dos Estados Unidos – do ponto de vista político, económico e social; proteger as minorias (seja de que tipo for), acima, se necessário, da maioria; e insistir na cancel culture até ela se tornar num dado adquirido. Dir-me-ão: é uma agenda perigosa. É. Mas nos Estados Unidos as agendas perigosas acabaram por ser absorvidas nos grande partidos, até que a tempestade passe. Biden também parece ignorar um novo eleitorado jovem, que terá tempo de perceber que esta agenda não serve e que um vice-presidente não tem poder que chegue (nem pouco mais ou menos) para mudar o que quer que seja. E esse eleitorado não deveria ser desprezado.

Biden representa essa velha guarda. Não renovou o suficiente para fazer uma espécie de ponte entre o velho e o novo Partido Democrata e desperdiçou uma oportunidade de fazê-lo através do ticket. Kamala Harris tem ascendência em dois continentes, é mulher, mas é também muito indefinida politicamente. Não é senhora nem de grandes convicções, nem de grande popularidade em tempos em que as emoções, mais do que qualquer outro elemento, se traduzem em votos nas urnas. Senadora na Califórnia, e uma representante do sistema, não dá a Biden vantagem num estado difícil, nem é suficientemente surpreendente para arrebatar votos de indecisos ou de descontentes com o Partido. É uma espécie de escolha segura. Aliás, é a escolha mais-do-que-previsível e até um pouco preguiçosa, em consonância com o que Biden tem feito até aqui: aparecer o menos possível, ser uma cópia envelhecida de Barack Obama e despertar pouco ou nenhum entusiasmo entre o eleitorado. Kamala Harris é poucochinho.

Joe Biden parece estar simplesmente à espera que Donald Trump perca as eleições. Se fossem hoje, assim seria. O candidato democrata leva vantagem em quase todos os grand battle states. Mas há três ou quatro advertências que lhe faria: apesar das crises enfrentadas por Trump, nos últimos meses o presidente conseguiu diminuir a vantagem do adversário, ao ponto de nada estar decidido. São más notícias para Biden. Mais, como incumbente, Trump tem uma vantagem competitiva nos tempos que correm: pode conseguir anunciar algum avanço significativo relativamente a uma cura ou vacina para o novo coronavírus. Além disso, como presidente em exercício, teve a capacidade – e audácia, em contexto americano – de criar pacotes de ajuda financeira diretamente para as famílias. Biden, simplesmente, não tem essa capacidade. Mais, Trump é um animal de campanha. Apesar de todos os problemas – e são muitos, do seu estilo pessoal à performance em crise – não tem desistido e a sua insistência tem dado resultados. Ah, e mais uma coisinha: Hillary Clinton perdeu as eleições por achar que eram favas contadas. Biden tem obrigação de saber que não é assim. Mas até agora está por provar que aprendeu a dura lição da candidata que o antecedeu.