Muito resumidamente, eis a minha posição sobre o aquecimento global. A temperatura média da Terra aumentou 1°C desde meados do séc. XIX. E, embora as emissões de CO2 provenientes da actividade humana contribuam para o efeito de estufa, mantêm-se em funcionamento os outros factores que sempre influenciaram o clima e fazem dele um sistema tão complexo. Assim, a contribuição humana para a subida das temperaturas, ainda que exista, não é de todo decisiva. As alterações verificadas (com os seus aspectos negativos e, não esquecer, positivos) fazem parte da variabilidade natural do clima.

Logo, uma revolução na estrutura económica mundial, tal como a exigida pelo Acordo de Paris (e, agora, por iniciativas como o Green New Deal nos EUA) é uma solução demasiado radical para resolver um problema que a humanidade, se não teve poder para causar, não tem poder para solucionar. A aplicação de medidas tão drásticas implica uma transformação profunda do nosso modo de vida, que afectará a forma como nos alimentamos, trabalhamos e protegemos – uma transformação que, reconheça-se, a Venezuela está a fazer com assinalável sucesso. Mas, havendo este grau de incerteza, é uma mudança definitiva demais para levar a cabo. Citando cientista muito inteligentes já mortos, afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias. Portanto, o risco potencial da solução é maior do que o risco potencial do problema. Ao contrário do que os alarmistas querem fazer crer (sendo “crer” aqui usado também no sentido religioso), impondo um sentido de urgência, um pânico moral, que serve para justificar a implementação a mata-cavalo das medidas mais extremas.

É má ideia substituir à bruta uma energia barata e acessível por outra que, por enquanto, não dá garantias de conseguir alimentar o consumo energético necessário para continuar a tirar e manter pessoas fora da pobreza. As energias renováveis serão o futuro, mas, por agora, por ainda serem intermitentes e pouco fiáveis, não dão segurança. Seja a eólica, a solar ou outra que surja entretanto, como o aproveitamento da potência gerada pelo grupo de indignados das redes sociais quando martelam vigorosamente no teclado. (Calma, não comecem já. Essa tecnologia ainda não foi inventada).

Afirmando que o Homem não é o principal responsável pelas alterações climáticas, logo, as medidas propostas são desadequadas, é esta a posição de vários cientistas. (Entre eles, por exemplo, um grupo alargado de membros da American Meteorological Society, que responderam a uma sondagem, em 2016. Nela, 33% consideraram que a responsabilidade principal pelo aquecimento verificado não é do Homem e 40% disseram que a maior parte do futuro aquecimento não pode ser evitado pelas medidas que tomarmos. Apesar de serem minorias, desmentem a ideia mítica do consenso dos 97%).

E é também a minha posição. Ou melhor, era. Entretanto, revi-a. É que as crianças vieram agora dizer que o mundo vai acabar por causa do aquecimento global e que, por isso, na sexta-feira fazem greve às aulas. Faz todo o sentido ouvir as crianças sobre este tema. Não há maior autoridade em temperaturas do que elas, como sabe qualquer pai que já recomendou um agasalho e ouviu ‘mas está calor!’ Aliás, entende-se a preocupação dos mais novos. É óbvio que um aumento das temperaturas vai afectar os mais calorentos. E não há mais calorento do que uma criança que só consegue ser arrancada do banho quando está roxa e a bater os dentes de uma maneira que a impede de gritar ‘não tenho frio!’ sem parecer um espectáculo de flamenco.

Também já fiz greve às aulas por causa do clima. Na altura, início dos anos 90, o objectivo era o mesmo, alertar para os fenómenos meteorológicos que prejudicam a nossa vida. Mas era uma coisa mais prosaica. Ao contrário dos jovens de hoje, não nos preocupavam os efeitos devastadores no nosso futuro, mas os efeitos maçadores no nosso presente. É que chovia nas salas de aula e isso, parecendo que não, aborrece. Mas não exigíamos a alteração do modo de vida da humanidade. Bastava a alteração do modo de vida do Sr. Augusto, que era o faz-tudo da escola. Queríamos que deixasse de beber tanto ao pequeno-almoço, para conseguir subir ao telhado e arranjá-lo.

Admito que é impressionante ver o empenho dos mais novos nesta causa, a evangelizarem os mais velhos com um ímpeto que já não se via na juventude desde que a Guarda Vermelha de Mao usou o charme juvenil para convencer chineses recalcitrantes. São milhares a exigirem que reduzamos o consumo de energia, em greves espalhadas pelo mundo. Só não participam estudantes de países como o Afeganistão, o Iémen, a Somália ou a Coreia do Norte. Possivelmente, porque são egoístas irresponsáveis. Ou então porque não podem abdicar de algo que nunca tiveram e que nós, nos países ricos, damos como garantido. Há-de ser uma dessas duas hipóteses. Calculo que seja difícil convencer um jovem a jogar menos Fortnite, para não consumir tanta electricidade produzida a partir da queima de combustíveis fósseis, se esse jovem não souber o que é a electricidade.

No entanto, confesso que é difícil assistir impassível à súplica de um petiz que diz que, se nada for feito, morre. A não ser que já se tenha assistido à súplica de um petiz que diz que, se não arranjar bilhete para os One Direction, morre.

Agora, desconfio deste súbito fascínio pelo bem que as crianças fazem ao mundo, por parte de um movimento ecologista que costuma propor às pessoas que tenham menos crianças, pelo mal que fazem ao mundo. É o clássico malthusianismo que acompanha este género de discurso apocalíptico. Mas é inglório, apelar às pessoas que não se reproduzam por causa das alterações climáticas, quando as alterações climáticas, sonsas, propiciam estupendas condições para a reprodução. Ou é o calor, que dá vontade de tirar a roupa, ou o frio, que convida a dormir em conchinha, ou o vento, que obriga as pessoas a falarem ao ouvido uma da outra, enfim, tudo o que meta clima é desculpa para uma agradável ribaldaria.

Todavia, faz sentido que uma pessoa dessas não tenha filhos. Não está preparada. Se um dia de calor fora do comum lhe causa um ataque de pânico, imagino o que acontecerá quando o seu bebé se engasgar com um pedaço de quinoa e fizer cocó pelas pernas abaixo – e o bebé na fralda. E é mais seguro para a humanidade que estas pessoas se abstenham de procriar. Quem considera que o avanço científico humano é uma intervenção maléfica que vai destruir o equilíbrio da Natureza, em princípio é aquele tipo de gente perigosa que não vacina os filhos.