Todos os anos, muitos britânicos deixam a sua ilha e mudam-se para sítios estrangeiros. Dependendo dos seus gostos e riqueza, a maior parte procura paragens soalheiras na Europa. Os milionários procuram herdades em ruínas na Toscânia, com a garantia de que haverá oliveiras, limoeiros e pelo menos uma dúzia de ciprestes à vista. Médicos e advogados escolhem o sul de França, à procura de uma casa rural em ruínas donde, pelo menos uma vez por dia, possam ver passar à janela um senhor de bicicleta com uma baguete. Os que não têm muita imaginação vão para o sul da Espanha e arranjam um apartamento num condomínio ao pé da praia. E há, finalmente, os britânicos — 80 ou 100 mil – que vivem em Portugal.

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Quais são as suas razões para sair? O horrendo clima britânico é uma grande razão, e ainda acho graça ao modo como tantos expatriados ficam em choque depois do seu primeiro inverno português. Quando se encontram uns aos outros na rua, trocam olhares mudos, a tremer: “O inverno português é assim? Mas ninguém me tinha dito …”. Fui uma dessas pessoas há uns anos atrás. Já passei essa fase. Quase.

O custo de vida, o sofrimento eterno da vida britânica e a falta de campos de golfe são outros motivos para deixar a Grã-Bretanha.

Alguns citam o declínio do país, o caos apocalíptico em que está a Grã-Bretanha, e os “imigrantes a mais” como razões para sair. Estes últimos nunca percebem a ironia de que, para escapar aos imigrantes na Grã-Bretanha, eles próprios se tornaram imigrantes noutros países. Mas como são britânicos e brancos, não se consideram imigrantes. São “expats” (expatriados) — não se esqueçam!

Uma outra boa razão para deixar Grã-Bretanha é a fuga à lei… parece que há bastante desses no sul de Espanha… alegadamente.

Enfim, estas são as suas razões para sair, mas o que são as suas razões para escolher um novo sítio para viver? O clima, sim; o golfe (nunca perceberei o apelo de atirar pequenas bolas através de um relvado pirosamente manicurado), sim; mas acima de tudo, o “lifestyle”: o estilo de vida é a principal razão dada para justificar os destinos da emigração: “vamos disfrutar o lifestyle”, “lá, o lifestyle é simplesmente…. melhor”, “vamos aproveitar o ritmo mais lento da vida”.

O que é esse “lifestyle” do que falam? O lifestyle de que gozaram quando cá vieram de férias, por duas ou três vezes? Será o lifestyle de ir à praia todos os dias, beber muitas caipirinhas e cambalear para casa ao fim da noite? Será o lifestyle da aldeia de pesca pitoresca, onde podem ficar à varanda, como se fossem aspirantes a romancistas, a olhar para as velhotas pitorescas e os pescadores pitorescos a viverem a sua vida pitoresca?

Será o “lifestyle” de passar metade do dia no café? Há, entre os britânicos, a ideia de que “no continente” existe uma coisa chamada “a cultura de café”, uma coisa que supostamente não existe na Grã-Bretanha.  É uma ideia estranha. É a ideia de que as pessoas, “no continente”, ficam horas e horas sem fim, paradas diante de um café, ou a rir e a descansar olhando para o mar, num ambiente delicioso. É uma ideia contraditada pela realidade da maior parte dos cafés portugueses, com as suas paredes cobertas de azulejos tipo casa-de-banho, cadeiras desconfortáveis e luzes fluorescentes — um ambiente o menos romântico que se pode imaginar, e onde a maior parte de nós entramos, tomamos o nosso café e fugimos logo.

Ou é o “lifestyle” que consiste em passar duas ou três horas por dia na autoestrada, a  perguntar-se porque tem um emprego que é uma porcaria com um salário que é uma porcaria? Ou o “lifestyle” de levantar cedo, levar as crianças à escola, correr para fazer todas a coisas que é preciso fazer antes de voltar à escola para ir buscar as crianças e continuar a fazer as coisas que precisam de ser feitas? Ou o “lifestyle” de viver sozinho numa aldeia donde todos os jovens já saíram, com uma pensão do estado, e tentar imaginar como manter-se quente durante o inverno?

Ok, sim, cá em Portugal, podemos ficar na rua à noite durante mais meses do que na Grã-Bretanha, ir à praia com sol em vez de chuva, e tudo cá é mais barato e mais simples, sim… mas é mais barato só para quem não vive com o salário médio de Portugal, e é mais simples só para quem não tiver de trabalhar, lidar com as ruas, o hospital, as finanças e outros seres humanos. Porque de outro modo, o “lifestyle” aqui é igual ao “lifestyle”” em qualquer outra parte do mundo.

Se o inverno finalmente mostrar a cara este ano (ainda há dúvidas), reparem nas pessoas em calções e com um olhar chocado. São os “expats” britânicos recém-chegados, a passar o seu primeiro inverno no País do Sol.

(traduzido do original inglês pela autora)

 

We’re going for the lifestyle

Every year, many Britons leave their island and head off to live on foreign shores. Depending on their proclivities and wealth, they go and find somewhere sunnier in Europe to call home. The desperately rich find a collapsing farmhouse in Tuscany and make sure there are olive and lemon trees and a view of at least a dozen cypress trees. The professional types go to Provence, find a collapsing farmhouse with a view of at least one man per day with a baguette on a bicycle. The even less imaginative go to Southern Spain and find a flat in a condo near the beach. Then there are the Britons of whom there are estimated to be between 80 and 100 thousand in Portugal.

What are their reasons for leaving? The ghastly British weather is a big reason, and it still amuses me to see some people arrive in Portugal and spend the next ten years in shock after their first Portuguese winter. When they meet other immigrants in the street, there are muted exchanges between them, their eyes wide, trembling, “Portuguese winter is like this? No one told me…”. I was one of them, once. I’m almost over it.

The huge cost of living, the eternal grind of life in Britain and the lack of golf courses are other motivators for leaving.

Many cite the downfall of Britain, the apocalyptic mess it’s in and the “too many immigrants” as their reason for leaving. These fail every time, of course, to see the huge, unfunny irony of the fact that they are now immigrants. They don’t believe they are immigrants because they are British and white. They are “expats” and don’t forget it.

Another good reason for leaving Britain is being on the run from the law… there are quite a few of those in Southern Spain, allegedly.

Those are their reasons for leaving, but what are their reasons for choosing their new home? The weather, yes, the golf (as long as I live, I will never understand the appeal of bashing tiny balls over a tackily over-preened lawn), yes, but above all “the lifestyle” is the reason given for their emigration destination. “We’re going for the lifestyle”, “The lifestyle over there is just… better”, “We’re going for the slower pace of life”.

What is this lifestyle they are thinking of? The lifestyle they had when they came on holiday two or three times? Is it the lifestyle of going to the beach every day, drinking too many caipirinhas and staggering home every night? Is it the lifestyle of the quaint fishing village, where they can stand on their verandas, watching, in romantic aspiring novelist fashion, the quaint little old ladies and quaint fishermen on the beach, living their quaint old fashioned ways?

Is it a lifestyle of hanging around in cafés for hours on end? There is a perception of “the continent” that there exists a thing called “café culture”, a thing that supposedly does not exist in Britain. It is an odd perception. It is the strange idea that people on “the continent” sit around, for hours on end, languishing over a teensy coffee, laughing and relaxing or looking out to sea, in beautiful surroundings. It is a perception at odds with the reality of most Portuguese cafés, with their cold bathroom tiled walls, uncomfortable chairs and fluorescent lighting, surroundings as unromantic as you can get, where most of us just run in, say hello, grab our coffee fix and run out again.

Or is it the lifestyle of sitting on the motorway for two or three hours a day, wondering why they’re doing a crappy job for no money and wondering what on earth they’re doing with their life? Is it the lifestyle of getting up, taking the kids to school, running around trying to get too many things done before they have to run and get them from school and spend the rest of the day battling to get the rest of the things done that they need to do? Is it the lifestyle of living alone in a village where all the young people have left, on a minuscule state pension, wondering how they will keep warm this winter?

So, yes, in Portugal, we can sit outside for more nights of the year than they can in Britain, we can go to a local beach in hot weather instead of grey drizzle and everything here is cheaper and simpler… but cheaper only if you aren’t living on an average Portuguese income, simpler only if you never have to work, deal with roads, hospitals, tax offices, and other human beings, or rather, it’s hardly different at all.

If winter finally does kick in this year, watch out for stunned looking people wearing shorts. They’ll be newly arrived Britons, spending their first winter in Sunny Portugal.