A minha primeira escolha desta série sazonal de livros para férias é In Pursuit of Civility: Manners and Civilisation in Early Modern England, por Keith Thomas (New Haven and London: Yale University Press, 2018). Trata-se de um tópico deliciosamente antiquado e fora-de-moda, totalmente alheio à presente atmosfera cultural — dominada pelo tribalismo, pelo relativismo e pela falta de maneiras.

Keith Thomas, um distinto historiador que é Honorary Fellow de All Souls College, Oxford, começa por reconhecer que o conceito de civilidade “foi (e ainda é) escorregadio e instável”.  Mas acrescenta que, “ainda que [a palavra civilidade] tenha sido usada numa variedade de sentidos no início da era moderna, todos eles remetiam de uma forma ou de outra para a existência de uma comunidade política bem ordenada e para as apropriadas qualidades e condutas dos seus cidadãos. […] Também assumiu a mais larga conotação de modo de vida não-bárbaro, o que acabaria por ser conhecido como ‘civilização’. […] Durante o século XVI, também  veio a ser associada aos conceitos de boas maneiras, cortesia e comportamento polido — tratar as pessoas com ‘mútua civilidade’ [common civility], era a expressão consagrada” (pp. 6-7).

Depois de ler Keith Thomas, tenciono nestas férias re-visitar um belo livro, hoje totalmente esquecido, do grande sociólogo Edward Shils: The Virtue of Civility: Selected Essays on Liberalism, Tradition and Civil Society, Edited by Steven Grosby (Indianapolis: Liberty Fund, 1997).

Li este livro na altura em que foi publicado, há mais de vinte anos. E recordo ainda vivamente que Edward Shils apresentava um poderoso argumento associando o liberalismo clássico (que ele enfaticamente distinguia de algum moderno “liberalismo” colectivista americano) a um governo pequeno, limitado pela lei, e a uma vibrante sociedade civil, independente do estado.

Shils argumentava em seguida que a civilidade constituía uma espécie de “cola”, absolutamente crucial: era ela que permitia às sociedades o usufruto da liberdade ordeira; era ela que as protegia contra o caos e o inevitável recurso ulterior à coerção arbitrária. À semelhança de Keith Thomas, Edward Shills associava o conceito de civilidade a um sentimento pessoal voluntário de auto-controlo e de auto-moderação — bem como a uma disposição para o compromisso tolerante com os outros cidadãos, sobretudo se, e quando, estes defendessem opiniões diferentes.

Significativamente, Edward Shils também associava esta capacidade de empatia com os outros (a que Adam Smith chamara “fellow-feeling”) a um sentimento partilhado de patriotismo razoável:

“A existência de civilidade tornou praticáveis as sociedades pluralistas (nacionais) da era liberal democrática. […] A civilidade e o radicalismo ideológico são irreconciliáveis. […] A mera noção de interesse comum, de preocupação com a sociedade no seu conjunto, é odiada pelo radicalismo ideológico. […] Também o populismo, que exalta as virtudes de uma parte da sociedade contra todas as outras, é tão inimiga da civilidade quanto o radicalismo ideológico” (p. 14).

A minha terceira escolha de livros para férias reside num outro velho livro de outro autor antiquado, o distinto filósofo Leo Strauss: An Introduction to Political Philosophy: Ten Essays by Leo Strauss, edited by Hilail Gilden (Detroit: Wayne State University Press, 1989). Tenciono começar por reler o 9º Ensaio, “What is Liberal Education?”.

Uma das mais marcantes recordações que guardo desse ensaio tocante é a sua frase final: “A educação liberal é a libertação da vulgaridade. Os Gregos tinham uma bela palavra para ‘vulgaridade’; chamavam-lhe apeirokalia, falta de experiência nas coisas belas. A educação liberal oferece-nos experiência nas coisas belas” (p. 319).

Não estou seguro de que a leitura de Strauss seja hoje permitida em grande parte das nossas Universidades, que voltam a estar dominadas pelo que Edward Shils designou, na década de 1960, como radicalismo ideológico e “emancipationism”. Mas talvez ainda nos seja possível ler Strauss na privacidade das nossas casas.

“Talvez” é aqui a palavra apropriada. Os ideólogos radicais andam agora a pregar que a civilidade, a liberdade de expressão e a privacidade são obstáculos antiquados às suas causas “emancipadoras”. Alguns populistas da chamada “Nova Direita” juntam-se aos radicais da “Nova Esquerda” no ataque àquilo que o entediante Carl Schmitt chamava com escárnio de “virtudes burguesas”. Para apimentar esta literal “salada russa”, vem agora o sr. Putin dizer (numa muito badalada entrevista ao Financial Times) que “o liberalismo está obsoleto”.

Talvez todos estes cavalheiros pudessem ser gentil e firmemente recordados das palavras de William Pitt (the elder) no Parlamento britânico, em 1763:

“O inglês mais pobre pode na sua ‘cottage’ desafiar toda a força da Coroa. A ‘cottage’ pode ser frágil; o telhado pode abanar; o vento pode soprar no seu interior; as tempestades podem entrar, a chuva pode entrar — mas o Rei de Inglaterra não pode entrar; todo o seu poder não se atreve a violar a fronteira da habitação arruinada.”

Estas palavras foram proferidas em 1763 —  26 anos antes, já agora, daquilo que alguns ainda hoje chamam de “Grande Revolução Francesa” (em rigor, um mero e funesto motim para colocar o abuso da multidão no lugar antes ocupado pela sua obediente servidão).

Convém por isso lembrar ao sr. Putin, à “Nova Esquerda” e à “Nova Direita”, que na data da “Grande Revolução Francesa” (que eles erroneamente associam à génese do liberalismo), já existia o velho ditado: “a casa de um inglês é o seu castelo”. Isso fazia parte do conceito de civilidade — o qual permite redescobrir as origens conservadoras da muito velha, e por isso muito robusta, tradição liberal.