Marcelo tem sucesso, Marcelo tem popularidade, Marcelo é eficaz a comunicar. E o que ganha o país com isso? Por outras palavras, os portugueses elegem um Presidente da República para quê? Para ele ser popular? Não creio.

Mas ponhamos a questão ao contrário: caso não tivesse apostado neste seu desempenho para televisão ver da Presidência da República como um espaço terapêutico de auto-ajuda (em que o PR ora diz umas banalidades sobre o país, ora faz umas considerações ligeiras e simpáticas sobre a situação económica, a paz no mundo e a felicidade de ser português) poderia Marcelo condecorar António Champalimaud sem que o PCP pedisse a sua demissão? Ou travar a intenção do Governo de mudar a lei à medida do que pretendia para a administração da CGD, sem que o PS o transformasse em persona mediaticamente non grata? Provavelmente não. Essa é a força de Marcelo. Mas é também um sinal da sua (e nossa) fraqueza.

Estes seis meses de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém revelam que o terreno para os populismos está aí disponível. E adubado também por Marcelo. Títulos como o recente “Até um bebé sorriu quando Marcelo lhe apertou as bochechas” revelam bem o nível da patetice instalada no país e particularmente entre os jornalistas. Dir-me-ão que Marcelo não é Sócrates nem nenhum dos populistas que assombram a Europa. Pois não. Mas só não o é porque não quer, pois caso estivesse interessado em sê-lo tinha diante de si uma plateia de câmaras e microfones empunhados por pessoas que não distinguem um entertainer de um eleito e que entreveem naquele frenesim presidencial de abraços e beijinhos um sinal de proximidade. Felizmente para nós, Marcelo não é um demagogo nem um corrupto e é um defensor da democracia, mas o registo que fez e faz dele um vencedor não é politicamente livre de consequências.

A primeira dessas consequências é que Marcelo está a presidencializar o regime. O facto de o executivo ser fraco – porque resulta de uma maioria parlamentar de partidos derrotados e porque os resultados do executivo são maus – leva a que o papel político do Presidente cresça e se lhe permita uma alargada margem de manobra. Mas para lá do crescimento do seu espaço político, Marcelo parece ver-se a ele mesmo não como um árbitro mas sim como um jogador. Um jogador que impõe as suas regras. E o seu modo de jogar. De repente é como se após a risota geral provocada pelos seus considerandos sobre o aborto, que sendo crime não era para ser tratado como crime, o país tivesse também ele adoptado aquela lógica de uma coisa e o seu contrário. Instituiu-se até uma espécie de “Guia de Interpretação do que Marcelo Quis Dizer sem Dizer nem se Comprometer”. Tudo isto pode dar um especial gozo aos comentadores mas, politicamente, parece-me lastimável.

A isto junta-se um exercício desequilibrado dos seus poderes: Marcelo Presidente, tal como acontecia com Marcelo comentador, é atento às áreas que domina (Direito) ou de que gosta (como a diplomacia) mas de uma ligeireza a tocar a irresponsabilidade em tudo o que tem a ver com com a economia, as finanças ou o emprego – o pensamento positivo e os abraços dão belas sequências televisivas mas apenas isso! Quanto às Forças Armadas, das quais é Comandante Supremo, o desempenho de Marcelo tem sido no mínimo fútil. Começou mal, ao aceitar que por causa do Colégio Militar o Chefe do Estado-Maior do Exército fosse posto em causa, e não mostrou até agora intenção de travar o menosprezo pelos militares.

Por fim, mas não por último, Marcelo instilou na cabeça de outros políticos da área do PSD e do CDS a presunção de que lhe podem seguir as pisadas. (À esquerda estamos felizmente a salvo desse exercício porque o autoritarismo da esquerda não permite a liberdade inerente a este tipo de percurso.) Não vejo que isso seja facilmente concretizável, a uns por falta de estilo e de originalidade – caso de Marques Mendes – outros por falta de cuidado – caso de Portas – mas os vários candidatos a candidato a ser o próximo Marcelo já estão no terreno, fazendo-se próximos das suas “judites”, tentando criar a sua alternativa aos afectos e sobretudo não dizendo nada de desagradável, nada que os comprometa, nada que não seja redondo. O país já viu muita coisa, mas esta transformação dos estúdios de televisão em incubadoras de candidatos à Presidência da República, para mais em remake pobrezinho, dá cabo dos nervos de qualquer um.

Em resumo, seis meses depois da eleição de Marcelo o balanço é claramente favorável para o próprio. Mas só para ele. O sucesso de Marcelo – um sucesso que acho dificilmente repetível na política portuguesa – foi feito à custa da derrota das ideias. Como se tudo se resumisse a quem comunica melhor, quem repete mais eficazmente aquilo que as pessoas querem ouvir, quem abraça mais pessoas afectadas por uma catástrofe… Tudo isto fez de Marcelo Presidente da República, mas a República precisa de mais.