Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo, o optimista irritante /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro
240

Quando sai à rua todos os dias para anunciar que os portugueses são "os melhores do mundo" em tudo, o Presidente diminui-se e coloca-se ao mesmo nível do mais primário guru de auto-ajuda. É pena.

Todos os cidadãos portugueses com mais de 18 anos e direito de voto (esqueçam: todos os outros também) sabem que o nosso culto Presidente da República gosta muito de ler. Aliás, tem uma dedicação tão grande à leitura que de certeza não lhe escapou um dos maiores bestsellers dos últimos anos. Falo, obviamente, de “O Segredo”, de Rhonda Byrne.

A tese do livro era muito simples (e muito tonta também) e resume-se assim: o pensamento positivo atrai coisas positivas e o Universo dá-nos aquilo que mais queremos desde que sejamos capazes de pedir com muito jeitinho. A autora explicava a profundidade da sua descoberta filosófica desta forma: “Os pensamentos são magnéticos, e os pensamentos têm uma frequência. Quando você pensa, emite para o Universo pensamentos que atraem magneticamente todas as coisas semelhantes que estejam na mesma frequência. Tudo o que é emitido retorna à fonte. E essa fonte é Você.”

Não sei se “Você” percebeu, por isso vou dar um exemplo absolutamente ficcional: pense num Presidente da República imaginário (chamemos-lhe “Marcelo”), de um país imaginário (chamemos-lhe “Portugal”), que tem um grupo de funcionários públicos imaginários com problemas variados (chamemos-lhes “professores”). Ora, como é que “Marcelo” pode resolver os problemas dos “professores” de “Portugal”? Simples: basta sair à rua e dizer, com muita convicção, a frase “Os professores de Portugal são dos melhores do mundo”. Não é preciso mais nada. Esqueçam as avaliações de organismos internacionais, esqueçam as debilidades das escolas públicas, esqueçam o atraso na distribuição dos livros, esqueçam a falta de funcionários. Nada disso é importante: a frase “Os professores de Portugal são dos melhores do mundo” resolve tudo. Especialmente se for seguida de uma explicação elaboradíssima para o porquê de eles ocuparem esse lugar invejável:

  • “Porque têm esperança” (não se percebe bem para que é que precisam de “esperança” se já são os melhores, mas não vale a pena perdermo-nos em detalhes);
  • “Porque transmitem essa esperança” (o que mostra uma saudável aversão ao egoísmo);
  • “Porque olham para o futuro” (já imaginaram se olhassem para o passado?);
  • “E porque estão disponíveis” (não se percebe bem para onde se orienta essa disponibilidade — mas, mais uma vez, são pormenores, pormenores).

Se “O Segredo” funciona com os professores, não há razão para ficarmos por aí. Aliás, o Presidente da República não fica. Em Março deste ano, Marcelo Rebelo de Sousa já tinha revelado ao Universo que “os militares portugueses são os melhores do mundo”; em Junho disse que “os Estados Unidos são um grande país, mas Portugal ainda é maior”; em Julho, perante uma plateia inocente de crianças, apontou para António Vitorino, que estava a seu lado, e jurou que ele era “um dos melhores do mundo”; e em 2016 tinha dito, de forma mais genérica, que “Portugal é a melhor pátria do mundo, somos os melhores”, enumerando depois, resumidamente, que isso acontece no desporto e na ciência e na educação e na literatura e no trabalho e nas empresas. (Pequena pausa para recuperar o fôlego.)

Mesmo fazendo um grande esforço para pensar, não se entende o que pretende Marcelo com este insistente, irritante e irrealista optimismo. Por um lado, todos sabem que nada disto é verdade. Por outro, todos sabem que Marcelo sabe que nada disto é verdade. Assim sendo, sobra para quem o ouve o recurso àquele sorriso paternalista que normalmente reservamos aos tios excêntricos que aparecem nos jantares de Natal a berrar inconveniências. Não é, admitamos, a forma mais saudável de nos relacionarmos com um Chefe de Estado. Quando fala assim, o Presidente da República diminui-se e coloca-se ao mesmo nível do mais primário guru de auto-ajuda. Há pouco tempo, Marcelo disse a um grupo de crianças: “Olhem-se ao espelho e digam: eu sou muito bom”. É uma pena: o Presidente da República pode não ser o melhor do mundo, mas é melhor do que isto.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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