Todos os cidadãos portugueses com mais de 18 anos e direito de voto (esqueçam: todos os outros também) sabem que o nosso culto Presidente da República gosta muito de ler. Aliás, tem uma dedicação tão grande à leitura que de certeza não lhe escapou um dos maiores bestsellers dos últimos anos. Falo, obviamente, de “O Segredo”, de Rhonda Byrne.

A tese do livro era muito simples (e muito tonta também) e resume-se assim: o pensamento positivo atrai coisas positivas e o Universo dá-nos aquilo que mais queremos desde que sejamos capazes de pedir com muito jeitinho. A autora explicava a profundidade da sua descoberta filosófica desta forma: “Os pensamentos são magnéticos, e os pensamentos têm uma frequência. Quando você pensa, emite para o Universo pensamentos que atraem magneticamente todas as coisas semelhantes que estejam na mesma frequência. Tudo o que é emitido retorna à fonte. E essa fonte é Você.”

Não sei se “Você” percebeu, por isso vou dar um exemplo absolutamente ficcional: pense num Presidente da República imaginário (chamemos-lhe “Marcelo”), de um país imaginário (chamemos-lhe “Portugal”), que tem um grupo de funcionários públicos imaginários com problemas variados (chamemos-lhes “professores”). Ora, como é que “Marcelo” pode resolver os problemas dos “professores” de “Portugal”? Simples: basta sair à rua e dizer, com muita convicção, a frase “Os professores de Portugal são dos melhores do mundo”. Não é preciso mais nada. Esqueçam as avaliações de organismos internacionais, esqueçam as debilidades das escolas públicas, esqueçam o atraso na distribuição dos livros, esqueçam a falta de funcionários. Nada disso é importante: a frase “Os professores de Portugal são dos melhores do mundo” resolve tudo. Especialmente se for seguida de uma explicação elaboradíssima para o porquê de eles ocuparem esse lugar invejável:

  • “Porque têm esperança” (não se percebe bem para que é que precisam de “esperança” se já são os melhores, mas não vale a pena perdermo-nos em detalhes);
  • “Porque transmitem essa esperança” (o que mostra uma saudável aversão ao egoísmo);
  • “Porque olham para o futuro” (já imaginaram se olhassem para o passado?);
  • “E porque estão disponíveis” (não se percebe bem para onde se orienta essa disponibilidade — mas, mais uma vez, são pormenores, pormenores).

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