1 Era um dia de Primavera. Fui encontrá-la vestida de vermelho na sua casa da Rua de São Bento, numa sala quadrada cheia de flores (“tenho esta loucura, mesmo que tenha a casa até ao tecto com flores, eu trago sempre mais…”) e as paredes revestidas de azulejos azuis e brancos. Mas porventura só aquelas paredes, se falassem, seriam capazes de contar a história desta mulher e explicar-nos o seu destino. Ela não era. Trazia a vida na pele e o fado no peito e isso chegava-lhe, as palavras eram só para cantar. Talvez por isso, os encontros que tive com Amália eram, antes do mais, uma atmosfera. E o sussurro de um estado de alma que escorria magoado e fatalista, por entre o que ia dizendo.

O coração batia-lhe desordenado, ela nem podia bem explicar, “sou toda assim”.

Nasceu com as cerejas, ninguém sabe bem quando, mas alguém a fez nascer oficialmente a 23 Julho. Amanhã mesmo, faria cem anos. E por isso deixei a memória escorrer para dentro desses momentos, ou profissionais – entrevistas, reportagens – ou pessoais: uma ou outra ida à Rua de S. Bento onde numa delas me assinou antigos “LP” seus, que amorosamente eu guardava; espectáculos, homenagens, uma festa em sua casa para Amália nos mostrar a tela que o pintor Luís Pinto Coelho dela acabara de pintar, visitas aos camarins. Num dos quais, no Olympia de Paris, aterrei uma noite, de nó na garganta, com aquilo a que assistira: a rendição de um público estrangeiro que, com um pasmo deslumbrado explodira em aplausos, enchendo o ar da sala de adjectivos polifónicos.

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Era a voz que Deus lhe dera. Cantada uma vez mais com o medo que sempre sentia e o fulgor do seu génio.

E começou a ser assim em cima de todos os palcos do mundo, esgotando as plateias das mais díspares geografias. “Ouvia tantos elogios e coisas bonitas quando cantava lá fora. Começaram a dizer coisas extraordinárias, que eu era um fenómeno como o Nijinski… Aqui é que nunca diziam nada.”

2 Uma noite de Julho de 1983, Amália foi cantar à Aula Magna. Chegara pelo fim da tarde, discreta, óculos escuros. Pudemos alinhavar duas ou três coisas sobre a entrevista que no dia seguinte lhe iria fazer para o Expresso. Mas o tempo já estava em contagem decrescente, a aflição quase por completo a tolhia. No camarim, dois vestidos pendurados, longos, lindíssimos, negros: “Ainda não sei qual vou pôr, é conforme os nervos. Se estiver muito mal, escolho o que me defende mais, se não, levo o outro.”

Uma hora depois, subia ao palco como se fosse para o calvário. O milagre reeditava-se, Amália esquecia-se de si mesma. Ela era a sua voz e o resto não tinha importância (e ninguém mais do que ela própria o percebera desde sempre.)

Das vezes que a via, o que retinha mais que tudo, porventura mais do que o simplesmente poder estar com ela, dando fermento e alimento à admiração que lhe tinha, era a sua raríssima qualidade humana. Foi sempre assim, Amália surgia-me igual, inteira e intacta na sua integridade. Uma forma de ser também feita de inocência e de uma credulidade que quase se confundia com candura (com muito sofrimento lá dentro). Durante longas décadas teve o mundo aos pés, foi abençoada pelos deuses da fortuna e da glória, provocou a paixão, semeou o desassossego. Nunca nada a maculou, ninguém a corrompeu. A amplitude quase demencial do seu sucesso jamais lhe perturbou o instinto (“eu não sou culta, tenho de dar a volta às coisas”), ou impediu que seguisse o veio da sua prodigiosa intuição.

Foi tudo isso que lhe foi ditando escolhas e gestos: “Os meus amigos dizem que eu peço desculpa de ter sucesso, tenho um pavor, é verdade…” Fazia pausas, punha-se subitamente séria.

“Não sei dizer o que é o fado, está tão preso a mim… é uma música que dá para o meu feitio cantar. É o destino, é a minha vida é, são as coisas que trago comigo.”

Silêncio. “O fado é mistério, ninguém pode explicar o que ele é. Eu cantarolava em casa, nunca pensei cantar como Amália Rodrigues.”

3 Mas cantou, e fê-lo “no mundo todo”: América, Japão, Europa toda – incluindo a ex-URSS e alguns países do então Leste europeu –, América Latina, África.

“A cantar eu passava das 48 pulsações para as 190…”

E um dia, de súbito, sem pré-aviso, estava-se na década de sessenta, ocorre um encontro tão forte, fértil, fulgurante, que Amália logo intui que estava perante uma descoberta que seria absolutamente decisiva, de tão “nova” ela se lhe impunha. Era Alain Oulman. Inspiradíssimo músico e compositor, cidadão interessante e cosmopolita, homem afável, revolucionará – não há outra palavra – o reportório, a carreira, quem sabe, a própria vida de Amália Rodrigues. Sentado ao piano com ela debruçada sobre o teclado, Oulman abre-lhe um novo mundo onde Amália entra como numa revelação: Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Pedro Homem de Mello.

“Ah, o Alain foi o milagre. Eu andava à espera que me aparecesse uma pessoa assim. Queria expandir-me, ele foi o único que me fez esse tipo de música. Há nela uma tristeza e uma profundidade que me tocam tanto… e fez-me cantar outros poetas.”

Revelação, sim.

“Um dia o O’Neill escreveu-me um grande fado, A Gaivota. E a música do Alain dá-me para voar como as gaivotas, umas vezes alto, outras vezes baixo…”

Tinha uma imensa inteligência, apenas moldada pelo instinto, e usava-a com argúcia e finura. A mesma com que logo percebeu que Alain era “o milagre”, oferecendo-lhe as palavras dos poetas e o também génio das suas composições;  a mesma que a fazia cantar em diversos idiomas sem ter nunca aprendido nenhum, a mesma que a fazia estar com os grandes deste mundo como se estivesse em casa; a mesma que, como me disse um dia:

“Não sei porque é que tenho esta intuição, mas tenho. Eu, de repente, olho para a cara das pessoas e digo para mim, aquele apetece-me olhar para ele, aquele não me apetece. Ou então, apetece-me muito…”

E tudo isto ocorria, vale a pena repeti-lo, uma e outra vez, sem que Amália se tivesse em grande conta. “Ia cantado como sentia em cada momento”.

Muita gente frequentava a sua sala de azulejos azuis na Rua de S. Bento, onde por vezes ela quase podia parecer alegre. Ria alto, rodeada de amigos do peito, brilhava, cantava, conversava com devotos e fiéis (alguns, após Abril de 74, viraram a fidelidade do avesso, virando-lhe também as costas). Quem lá esteve, sabe bem como o génio e a boémia enfeitiçavam aquelas tertúlias.

Quando adoeceu, na década de noventa do século passado, novamente conversámos, desta vez para o jornal Público. Foi logo no início do ano de 1997 e – lembro-me como se fosse hoje — encontrar naquele dia alguém mais triste do que ela ter-me-ia sido impossível. Desta vez, o que escorria já não era nem o fado, nem o mel dos mais demorados aplausos, mas só mágoa, só incerteza.

Estava doente. Um abandono de presságios, “por causa das contas que a vida fazia com ela”.

Era: “É que, para mim, não cantar é como não estar viva.”

Foi: “A minha vida é mesmo uma estranha forma de vida. Aconteceu-me o destino fazer de mim o que sou.”

4 É desta Amália que me lembro, foi assim que a vi, é ela que quero guardar. Ainda hoje, não sabendo se era a mulher que se achava a si mesmo de trazer por casa o que mais me comovia; se era a sua voz que se confundia com o que nos prometem ser o céu, que mais me interpelava os sentidos.

Não importa. Mas de quantos dedos de quantas mãos precisaria eu para eleger muitos outros “alguéns” assim? De quase nenhuns dedos, estou hoje certa (sempre o tendo estado).

Há dias Pedro Castro, dotadíssimo artista da guitarra portuguesa, idealizou e encenou um espectáculo de homenagem a Amália Rodrigues. Ouviu-se a guitarra portuguesa tocada por cem guitarristas na escadaria e outros espaços da Câmara Municipal de Lisboa. A evocação de Amália mereceu o eco e a dignidade inspiradores dessa moldura. Ela deve ter gostado muito de os ouvir. E, ou muito me engano, ou terá deixado rolar uma lágrima comovida ao ouvir o tão viçoso Joel Pina, que sempre a acompanhou, a recordá-la na abertura da sessão. Este maldito vírus que nos consome impediu a festa que Lisboa e o Museu do Fado haviam preparado para a homenagem festiva dos gloriosos cem anos de vida do músico, cumpridos esta última Primavera.

Não houve festa, mas houve — há — Joel Pina a lembrar-nos Amália.

P.S. : A estalajadeira foi chamada às fileiras e, de novo, convocada a alistar-se no serviço doméstico. Quando for desmobilizada, voltarei. Até lá, e apesar de tudo  – e tudo é hoje tanto! –  vivam o Verão como “a única estação”. Como nos lembrou o poeta Ruy Belo, que também escolhia as neblinas deste Oeste e as ondas deste Atlântico para celebrar o Verão.