Muitos de nós, que trabalhamos no setor dos serviços, investigação e desenvolvimento, profissões que permitem o trabalho a partir de casa, temos conseguido produzir bastante à distância. Funciona – ou melhor, vai funcionando – com base num computador e em comunicação via Skype; pelo menos por agora, nos primeiros dias. Como se costuma dizer, o homem é um animal social, e por isso precisa de socializar. Parece que agora, até aquele colega com que habitualmente não temos grande relação, faz falta. Não sabemos até que ponto o isolamento terá consequências para a nossa saúde mental, a longo prazo. Contudo, esta crise já marca o momento em que as empresas em Portugal, e noutros países menos habituados ao teletrabalho, se viram obrigadas a viabilizar, em tempo recorde, o trabalho à distância dos seus colaboradores. Esperemos que haja uma mudança de atitude, já que a flexibilização do local de trabalho, desde que bem organizada e gerida, pode levar a ganhos de produtividade.

Todos os dias milhões de pessoas deslocam-se nas cidades para trabalhar, estudar, fazer compras, lazer, visitar familiares, etc. São muitos os motivos que nos levam a utilizar o sistema de transportes. Seja utilizando o nosso carro, os transportes públicos, ou os ditos modos suaves ou ativos: andar a pé ou de bicicleta. Ainda não há muito tempo, antes deste período de crise, publicava aqui no Observador a minha opinião sobre se os transportes públicos deveriam, ou não, ser pagos pelos seus utilizadores. Sobre essa mobilidade, a grande missão dos governos com visão de futuro, especialmente na europa, mas também um pouco por todo o mundo, tem sido a de transferir procura de mobilidade do automóvel para os transportes públicos. Nada é tão eficiente como um autocarro cheio de gente. Muitas políticas têm sido implementadas para que tal ocorra, sem, francamente, nenhum resultado muito significativo na redução do tráfego automóvel. Pode o leitor questionar-se se existe algum resultado sistemático dessas políticas, que seja transversal aos vários países? Sim, existe. Em muitos casos, foi possível conter o aumento da utilização percentual desses veículos, mas nunca algo que tenha conduzido a uma mudança radical nos seus impactos. As cidades, entretanto, continuaram a crescer, os centros – em muitos casos – esvaziaram-se, e com esse crescimento populacional qualquer efeito positivo se dispersa.

O estudo de caso mais famoso de como foi possível uma redução enorme de automóveis, quase de um dia para o outro, foi a grande crise do petróleo de 1973, quando os países árabes exportadores dessa matéria-prima decidiram boicotar a sua venda aos Estados Unidos e à Europa, devido ao seu apoio a Israel. Nessa altura, nos Estados Unidos — o país do automóvel — vizinhos começaram a juntar-se nos carros uns dos outros para viajar juntos, dada a escassez de combustíveis, reduzindo muito significativamente o número de automóveis nas estradas. Finda a crise, o número de pessoas a utilizar o transporte individual motorizado retornou aos níveis anteriores. Desde então, nenhum outro evento havia tido o mesmo efeito; nenhum, até esta pandemia.

O efeito do vírus nas nossas estradas tornou-se agora viral, passo a expressão, com todas as imagens que circulam, das mais variadas cidades do mundo, desertas de carros. Na minha retina fica a cidade de Nova Iorque, cujas avenidas, até há bem pouco tempo, estavam repletas de automóveis e estão agora transformadas em grandes campos de betuminoso sem propósito aparente. Ou até a rotunda do marquês de Pombal, que nos faz pensar no porquê de ser aquele o ponto nevrálgico da rede viária de toda a cidade, se não se vê ninguém. Uma espécie de cidades comunistas desenhadas para impressionar mas cuja atividade económica nunca chegou. O vírus, de forma tortuosa e maldosa, está a fazer aquilo que não fomos capazes de fazer em tantos anos, reduzir o número de automóveis nas estradas.

Em Itália, imagens dos canais de Veneza correm o mundo inteiro. Pela primeira vez em muitos anos é possível ver os peixes, o fundo dos canais. Seja porque há menos poluição ou porque os barcos já não agitam aquelas águas, Veneza já não é a mesma; ou talvez seja a mesma, mas de há um século atrás. Paradoxalmente, Veneza não tem automóveis, é uma das poucas cidades do mundo que não os tem. Os benefícios para as outras cidades não podem naturalmente ser os canais limpos, mas sim uma fortíssima redução nas emissões poluentes. Se, por um lado, esta crise vai marcar a história económica da Europa de forma negativa, é também uma oportunidade para compreendermos as reais consequências do nosso comportamento. É dos livros que o crescimento económico tem sido feito à custa de um aumento de pessoas e mercadorias transportadas. Realizar a dissociação das duas curvas de crescimento, ou pelo menos gerir a procura de mobilidade, tem sido um desígnio da Europa, ainda que com resultados muito insipientes.

Ainda estamos na fase inicial desta pandemia, mas o efeito na redução da poluição prevê-se impressionante, já que no caso do nosso continente os transportes contribuem, em média, para cerca de 30% das emissões poluentes. Têm circulado imagens de satélite da China comparando o antes e depois do período de quarentena, representando a concentração de NO2 sobre o país. Os efeitos são visualmente esmagadores na redução deste poluente. É claro que não será apenas o setor dos transportes que contribui para este efeito; também o setor produtivo, energético e mineiro parou. É finalmente para nós possível ver o impossível. No entanto, este vírus não mexe apenas com a parte negativa da mobilidade, ele em atacado especialmente os transportes públicos que, pela sua natureza facilitam a sua transmissão. É irónico que, quando verificamos que conseguimos reduzir a utilização do automóvel, esta ocorra sem a ajuda dos transportes públicos. Várias autoridades de transportes anunciam já a necessidade de um bail out, se as coisas não estavam bem antes, a seguir ao vírus estarão bem pior. Por outro lado, a bicicleta tem sido alvo de grande atenção como mitigadora da impossibilidade de utilizar transportes públicos. Para as cidades que investiram em infraestrutura de apoio a este modo de transportes a bicicleta afigura-se como a grande alternativa para aqueles que não têm transporte individual motorizado mantendo a sua mobilidade ainda ativa. Pelo menos enquanto não for decretado o lockdown. Comparativamente com andar a pé, a bicicleta permite percorrer maiores distâncias levando o seu viajante mais facilmente para fora de zonas de contágio e conduz a uma distância interpessoal maior. Infelizmente sistemas de bicicleta partilhada podem também facilitar a transmissão do vírus pelo que por agora a posse de bicicleta própria seria o ideal.

O que está a acontecer neste momento coloca-nos um dilema fundamental: por um lado queremos ver peixes nos canais de Veneza, a inexistência da poluição, controlar o aumento da temperatura da terra, mas por outro lado estamos em ânsia de poder retomar o mesmo ritmo de antes, os nossos hábitos, o nosso conforto, o nosso equilíbrio de consequências lentas e por isso pouco visíveis. Pudera, a nossa economia disso depende, os nossos empregos, mas também a nossa liberdade de “ir e vir”. Um exemplo concreto é o da aviação, um modo de transporte com grandes impactos sobre o meio ambiente. Em constante crescimento nos últimos anos, alimentado pelas multidões de turistas que querem ver tudo, várias e muitas vezes, e a baixo custo. Mas não são só os turistas. A União Europeia abriu as portas a que tantos de nós, por necessidade ou vontade, viéssemos a decidir trabalhar neste ou naquele país, à distância de uma viagem barata para Lisboa ou para o Porto. O contrato tácito ou explícito que assinámos com essa mudança de país foi o de que a mudança seria feita, mas sempre à distância de uma viagem low cost. Todos os países da Europa Ocidental e Central contam hoje em dia com grandes aeroportos que nos dão todas as possibilidades e mais algumas de ir passar o fim-de-semana ao país de origem. Quando isso deixa de ser possível, porque os voos são cancelados ou porque as companhias vão à falência, a distância aumenta muito mais do que a distância física. A angústia instala-se.

A falência da companhia Flybe e as dificuldades pelas quais estão a passar várias outras companhias aéreas mostram-nos que estas empresas operam muito no limite. Os aviões têm de estar no ar, sob pena de não ser possível resistir por muito tempo. O futuro de toda a aviação é neste momento incerto, e vem acompanhado das consequências que isso poderá trazer para o nosso modo de vida, as weekend escapes em Lisboa, as despedidas de solteiro em Amesterdão, ou as idas à neve poderão ser mais dificultadas nos próximos anos. Não estamos preparados para isso neste momento e, no entanto, é o que precisávamos para ajudar a combater as alterações climáticas. Talvez seja possível que esta fase de cancelamento de viagens leve também, por exemplo, vários profissionais a reconsiderar as viagens para reuniões curtas que podem muito bem ser feitas através do computador. Já seria um bom resultado.

O grande desafio para o futuro continua a ser o mesmo: conseguir a tal dissociação entre mobilidade – constantemente traduzida em mais automóveis – e atividade económica. O trabalho à distância, a utilização dos transportes coletivos, a utilização da bicicleta mas também as novas tecnologias, como a mobilidade elétrica, que permitem um custo e impacto ambiental mais baixo por km de pessoa transportada, são a matriz para conseguirmos ter uma economia forte com uma menor pegada ambiental. Vamos tentar não esquecer isso quando a crise passar.