A sociedade já não está organizada para que as famílias possam tomar conta de crianças e de idosos em casa e daí que a opção de creches e lares seja cada vez mais frequente. Os lares de idosos são geralmente casas onde se está até morrer. Em imensos casos, os lares são uma grande ajuda para as famílias e têm condições muito boas que a família não consegue proporcionar. Noutros casos, os idosos sentem-se abandonados e sós.

É o caso de uma amiga minha, residente num lar. Antes da doença de Covid-19, ela já não estava muito feliz com a sua situação. Sentia-se rejeitada pela filha e ignorada pelos netos. Não sente carinho. Gostaria de passar mais tempo com a filha e com os netos e não com os outros residentes do lar, que ela nem conhece bem.

A Covid-19 veio agravar a situação desta residente de lar, como a de tantos outros. A solidão e o abandono que já sentia agravaram-se dramaticamente. Antes, podia sair para ir ao médico ou à farmácia sozinha. Agora, “para a proteger”, a filha e o lar pedem-lhe que não saia. As poucas visitas que tinha, estão agora reduzidas a uma vez por semana num horário limitado. O contacto que tinha com os outros residentes também é distante e está limitado, ou passou a ser quase inexistente desde que foram implementados turnos para tomar as refeições.

Também nos hospitais os doentes com Covid-19, assim como os restantes pacientes estão mais isolados e sozinhos. Os pais não podem assistir aos partos dos filhos e as mães têm que viver o trabalho de parto sozinhas. Os mais doentes, especialmente de Covid-19, têm visitas extremamente limitadas ou nenhumas. Talvez tenham que morrer sozinhos, sem a companhia de um familiar. Visitas dos capelães para dar assistência espiritual, estão igualmente bastante limitadas ou são inexistentes em hospitais e lares.

Há várias histórias sobre Santa Teresa de Calcutá (Madre Teresa) a cuidar de moribundos. Mesmo que estivessem à hora da morte, ela lavava-os, cuidava deles e fazia-lhes companhia. Um deles, no momento de morrer terá dito: “ Vivi como um animal, mas morro como um ser humano.”

Uma das casas que Santa Teresa fundou em Calcutá foi para os que esperavam apenas que chegasse a morte. O “Nirmal Hriday”, Lugar para o Coração Puro, criado depois de se ter apercebido que, todas as manhãs, os trabalhadores do lixo recolhiam os corpos das pessoas que tinham morrido nas ruas durante a noite. Algumas, muito doentes e sem se poderem mexer, eram roídas pelos ratos. Alguns bebés mortos eram abandonados nos caixotes do lixo. Santa Teresa de Calcutá pediu esta casa aos representantes governamentais, dizendo: “O que Calcutá precisa é de um lugar para os moribundos passarem as suas últimas horas. Os moribundos deveriam poder morrer com amor, consideração e dignidade.”

A minha amiga do lar não está numa rua em Calcutá a ser roída por ratos. Tem condições físicas, materiais e médicas bastante razoáveis. E será que isto garante que ela morra com “amor, consideração e dignidade?” Não existem outros factores? Esta minha amiga e os outros residentes de lares vão morrer de uma forma agora agravada pelo surto da Covid-19, ainda mais isolados e sós.

A prioridade é clara: minimizar a propagação da Covid-19. Excelente propósito! Mas à custa de quê? Nos lares, esta prioridade parece ser a primeira e a única. Os residentes estão lá para morrer e podem morrer de qualquer maneira, desde que não seja com Covid-19. A minha amiga passa quase 24 horas do dia numa completa solidão, no seu quarto ou num espaço comum do lar, afastada de qualquer contacto humano. Quando me liga diz: “Ando triste. Não sei por quê.” Será que é só a Covid-19 que mata? Ou a solidão não mata também? Quantos estudos existem sobre a pertença à comunidade, a amizade, o relacionamento humano e os seus efeitos no estado psicológico e até físico do ser humano?

Nos hospitais a prioridade também é evitar um surto de Covid-19. Para qualquer instituição, seja lar, hospital ou escola, um surto de Covid-19 divulgado nas notícias, é péssima publicidade. E os doentes de Covid-19 podem morrer sozinhos numa cama qualquer, sem assistência espiritual nem familiar, desde que não propaguem a doença.

Faz lembrar a lepra. Parece que seria melhor, se houvesse um bairro, fora das muralhas da cidade, para onde se pudessem enviar os infectados por Covid-19.

A prioridade de não propagar o coronavírus (doença que ainda não sabemos se poderá ser erradicada nem se irá ter vacina eficaz) está a ser posta como prioridade única e absoluta para quê? Para não morrer. Desde que eu não morra de Covid-19, tudo é justificável.

A última vez que investiguei o assunto, não havia um “elixir” contra a morte e vamos todos ter que passar por essa etapa. A morte é um facto inalterável da vida. A Covid-19 pode causar a morte, entre muitas outras causas de morte e vem confrontar-nos com a nossa mortalidade, mal de que padecemos todos. Confrontados com esta realidade, a casa abana e vê-se de que são feitos os alicerces. Individualmente, as prioridades das pessoas emergem e também como país, Portugal mostra as suas prioridades políticas e sociais.

Erradicar o vírus, batalha que ainda é incerto se é possível sequer vencê-la, é uma prioridade a equilibrar com muitas outras. Por mais que queiramos pausar a vida, encontrar uma cura e retomar a vida de novo, não podemos. A vida não para,  continuam a nascer pessoas e a morrer como antes, ou até mais rapidamente. Não interessa só tentar que não morram e que não nasçam, mas importa continuar a tratar do nascimento e da morte humanamente, pois fazem parte da existência. Vamos todos morrer, mais cedo ou mais tarde. Mas interessa como as pessoas morrem, com que amor, compaixão e dignidade.