Eu sei que, com a notícia da detenção de Sócrates, deixou de haver espaço mediático para pensar sobre outros assuntos. Mas, antes de arrumarmos a questão das subvenções vitalícias dos ex-políticos na gaveta, convinha percebermos melhor o que realmente significou o caso. A proposta de PSD e PS para o levantamento da suspensão da subvenção dos ex-políticos foi, em termos políticos, um erro e uma estupidez. Obviamente, causou indignação geral, piorou a imagem dos políticos e caiu, mesmo depois de ter sido aprovada num primeiro momento. É justo e muito fácil perceber porquê – tratou-se de uma tentativa sorrateira de reposição de um privilégio para ex-políticos, e logo num período em que se exige tantos sacrifícios aos portugueses. Uma vergonha, portanto. Mas há muito mais neste caso do que apenas motivos para indignação: está aqui uma verdadeira síntese política dos nossos tempos. E perceber isso é antecipar o que o futuro reserva para 2015.

Desde logo, a coligação dos interesses. Ficou claro que, quando os interesses são comuns, é fácil para PSD e PS entenderem-se. Um sinal que veio no tempo certo, agora que os socialistas tanto discutem se o partido está mais próximo de BE e PCP ou de PSD e CDS. E foi um sinal esclarecedor, porque fez sobressair que a questão não é somente de regime ou de identificação com o projecto europeu, mas também de ordem prática: os interesses de quem está no PS são os mesmos dos que estão no PSD, e a defesa desse bloco central de interesses não é compatível com uma coligação à esquerda. Tudo indica que a desilusão atingirá, em breve, muita gente à esquerda.

Ficou também evidente o relativismo do debate sobre as questões constitucionais. Hugo Velosa (PSD) afirmou que defendeu esta proposta por uma questão de justiça. Isabel Moreira (PS) passou os últimos dias a defender a proposta explicando que, no seu entender, a suspensão da subvenção vitalícia é inconstitucional. Vamos admitir que sim. Mas isso é, em termos políticos, um critério absoluto? Deveria ser, mas está visto que não é. A suspensão vigorou durante todo o ano de 2014 sem que algum partido se mostrasse incomodado ou pedisse a fiscalização constitucional. E é improvável que Isabel Moreira só agora o tenha descoberto. Do lado da esquerda mais à esquerda, constitucional ou não, é-se simplesmente contra. Ou seja, a defesa da Constituição, que tanta gente transformou em bandeira política, afinal não é mais do que um argumento político utilizado à medida das ocasiões. Quando uma inconstitucionalidade satisfaz o moralismo dos partidos “defensores da Constituição”, deixa-se passar. A Constituição foi transformada numa arma de arremesso.

Mas nem tudo é mau. A atenção mediática que esta proposta de alteração teve em apenas dois dias está na origem da decisão de PSD e PS a deixarem cair. Julgo que, sobre isso, ninguém terá dúvidas, mesmo que os partidos tentem negá-lo. E é importante reconhecê-lo, porque o facto é demonstrativo de uma mudança de mentalidades. Desde 2010, as pessoas sentem na pele o impacto que as asneiras dos políticos têm sobre as suas vidas e, consequentemente, a sua margem de tolerância para essas asneiras diminuiu muito. De certo modo, o respeito pelo dinheiro dos contribuintes passou definitivamente a ser um factor a considerar na avaliação que se faz dos políticos. É por isso que qualquer notícia que aponte para privilégios sociais ou profissionais no Estado, despesismos megalómanos ou má gestão de dinheiros públicos é recebida com indignação e, em minutos, se espalha como um vírus pelas redes sociais. Esse é um dos efeitos positivos da crise: o escrutínio apertou e a impunidade de tempos recentes acabou. Nem que seja por preocupações quanto à sua popularidade, isso condiciona quem governa.

Enfim, já se sabia que a tentação de regressar aos níveis de vida e de privilégios pré-crise estava a entrar em força nos discursos políticos. O que se calhar muita gente não tinha percebido é que essa tentação alastrou a alguns sectores do PSD. Agora já se sabe. E é por isso que, mais do que indignação, este episódio assusta: se o que nos mostra sobre o presente é mau, o que nos diz sobre o futuro é ainda pior.