Marcelo pede que não se “berre” sobre o apoio aos portugueses na Venezuela Talvez tenha sido pelo “berre”. Afinal há palavras de que gostamos e outras não. E claramente eu não gosto de “berre”. Ou talvez tenha sido por causa dos calções, mais a toalhinha de banho, a cabecinha dentro de água e aquela mania de comentar assuntos de Estado quando vem a sair da água. Nós, os que não nos candidatámos à Presidência da República, quando saímos do banho falamos do almoço, do caminho para casa e doutras trivialidades. Vossa Excelência, que transforma numa trivialidade os assuntos mais sérios do país, ao primeiro microfone que entrevê, ainda com a água a escorrer-lhe entre o cabelo e o pescoço, dá dois dedos de conversa sobre a beleza da paisagem, e o desemprego; a temperatura da água e as Forças Armadas… Seja pelo desconchavo da situação, seja porque Portugal é um país a viver sob o Síndrome da Vergonha Alheia, faz-se de conta que tudo isto é normal.

E assim estávamos nós neste aquashow sobre todo e qualquer assunto por mais grave que ele seja quando Vossa Excelência vem de lá com esse “berre”. Ao princípio quis crer que era uma espécie de forma de protesto do presidencial corpo, avezado que já andava à usança das entrevistas em tronco nu e que de um dia para o outro teve de voltar ao fatinho e quiçá aos sapatos apertados, que é coisa que literalmente falando dá vontade de berrar, uivar e às vezes até ganir. Mas eis que leio devidamente detalhadas as declarações de Vossa Excelência nessa entrevista à Renascença: “O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, espera que ‘casos como o da Venezuela’ não se transformem ’em instrumento de campanha eleitoral’, porque ‘começar a berrar’ sobre a estratégia de apoio aos emigrantes portugueses na Venezuela poder ser prejudicial. ‘Para alguns, pode ser muito interessante, erradamente, começar a berrar em torno disso, mas podem prejudicar os nossos compatriotas que lá estão. O que tem que ser feito, tem que ser feito de uma forma que não é pública’, defende o chefe de Estado, em entrevista à Renascença.”

Como Vossa Excelência bem sabe, sempre, mas sempre que o poder político – e sim, estou também a referir-me a Vossa Excelência, que a par do senhor conselheiro Francisco Louçã é dos políticos há mais tempo em funções neste país – nos diz que algo é tão importante, mas tão importante que nós não podemos ser informados sobre isso e muito menos comentá-lo, o resultado é que nos estão a esconder casos de corrupção, falhanço de medidas, incapacidade, negligência e incompetência de governos ou, como aconteceu com os chamados retornados em 1975, a fazer de conta que a catástrofe não está a acontecer. Relembro-o, senhor Presidente, que em Junho de 1974, quando os primeiros incidentes nos musseques de Luanda deram o sinal para a traição anunciada de democracia e liberdade para Angola, ninguém berrou em Portugal. Porque só os reaccionários é que berravam, não era? E que berraria não teria sido denunciar o massacre dos comandos negros na Guiné, em Julho de 1974?… Aliás, durante anos, falar de retornados em Portugal era uma berraria, não era?

Mas vamos às berrarias contemporâneas. Mais precisamente ao que distingue no vocabulário político-mediático o conceito de berraria do de denúncia de uma injustiça.  Por exemplo, Vossa Excelência berrou ou denunciou quando, a propósito dos refugiados, declarou a 20 de Junho: “A defesa dos refugiados a nível mundial é uma obrigação de uma sociedade democrática”. Numa mensagem disponibilizada no portal da Presidência da República, a propósito do Dia Mundial do Refugiado, o chefe de Estado sublinha “os valores de solidariedade, abertura e tolerância que Portugal defende e preconiza, e também o amplo consenso nacional sobre o acolhimento e integração dos refugiados na sociedade portuguesa”?

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.