A direita ganhou as eleições mas perdeu o governo. Passado o choque, o imediatismo das máquinas partidárias, sobretudo a do PSD, logo se agitou e criou a ficção de que a passagem pela oposição impunha um “reposicionamento” que levasse o partido de volta à social-democracia e para longe do liberalismo – houve até quem descrevesse os anos de governo como um “trip ideológico”. A questão, obviamente, nunca foi filosófica nem ideológica – o PSD é um partido plural e ninguém ansiava por um debate que opusesse seguidores do pensamento de Bernstein aos de Adam Smith. A questão é meramente táctica: José Eduardo Martins, Rui Rio e outros dos críticos não têm um problema com o liberalismo, mas com a liderança de Passos Coelho e as suas próprias ambições partidárias. Mas, por enquanto, são os únicos: ao contrário do que se dizia, no congresso não se viu Passos Coelho isolado no PSD.

A tradição portuguesa dita que quando se cai na oposição deve mudar-se liderança e discurso, como quem clama por redenção e anseia recomeçar tudo já lavado de pecados passados. Mas os tempos mudaram e as tradições já não são o que eram: os problemas estruturais do país foram identificados, a direita apresentou as suas propostas, venceu as eleições e seria agora incompreensível que renegasse às suas próprias ideias. Passos Coelho, vencedor de duas eleições legislativas consecutivas, é de longe o melhor líder que o PSD poderia ter. E mudar por mudar (fosse a liderança, fosse o discurso) seria um erro. Há, pois, que aguentar o barco na tempestade e manter o rumo.

Manter o rumo não significa rondar a “geringonça” como abutres, à espera que emperre. Foi essa a tentação nestes primeiros meses na oposição, ao longo dos quais PSD e CDS foram uma nulidade – apresentaram iniciativas legislativas insuficientes e incipientes, e ficaram reféns da agenda do governo, sem falar na incompreensível ausência do PSD no debate do Orçamento. Note-se que o ponto aqui não é tanto a agressividade ou a passividade com que se faz oposição (ao contrário do que indicou Paulo Rangel). O ponto é que Passos Coelho ainda não se tinha assumido, até hoje, como líder da oposição. Faltava- lhe disponibilidade para impor serenamente as suas ideias, resgatar as reformas que constam do manifesto eleitoral, reflectir sobre outras, trabalhar nelas, melhorá-las, impingi-las na agenda mediática e no parlamento. No fundo, saber esperar e querer preparar a governação, negando facilitismos, arrumando a ideologia na gaveta e introduzindo no debate público medidas diferenciadoras para problemas reais.

Nesse sentido, hoje, no seu discurso de encerramento, Passos Coelho assumiu-se por inteiro como líder da oposição, voltou aos bons discursos, insistiu na reforma da Segurança Social e soube apontar ao futuro “sem pressa”. Continuam, contudo, a faltar-lhe as propostas concretas para cada sector que, segundo o próprio, serão trabalhadas a partir de agora. Ora, porque as próximas eleições legislativas não se ganharão a falar sobre o passado, reside nessas propostas a diferença entre a capacidade e a incapacidade para recuperar cerca de meio milhão de votos. No CDS, Assunção Cristas começou bem, no mês passado, lançando o debate sobre a universalização da ADSE. No PSD, teremos ainda de esperar para ver.

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