Um dos principais factores de atraso da Economia Portuguesa está, há muito, identificado: as teias de interesses entre o Estado (leia-se o poder político) e os privados. Não fui o primeiro a queixar-me de uma classe empresarial que se alimenta à mesa do Orçamento do Estado. E não serei o último a dizer que o Estado português está capturado por interesses privados.

Talvez por ser tão óbvio para tanta gente, houve tantos celebrarem a coragem de Pedro Passos Coelho ao dizer não a Ricardo Salgado, permitindo que o império do Grupo Espírito Santo ruísse como um baralho de cartas. Ricardo Salgado era o epítome do que queremos dizer quando falamos de ligações perigosas. Basta lembrar as relações próximas que tinha com Mário Soares (que o ajudou a recuperar o império) e com Marcelo Rebelo de Sousa — provavelmente, os dois mais populares presidentes da história da democracia portuguesa — e que não teve dificuldades em chegar a Durão Barroso (presidente da Comissão Europeia), que o aconselhou a falar directamente com o primeiro-ministro. Quando Passos Coelho anunciou a saída do PSD, na maioria dos epitáfios elogiosos que foram escritos em sua homenagem, destacou-se precisamente, e com toda a justiça, esse “não” a Ricardo Salgado.

Como já referi acima, concordo em absoluto com todos os elogios feitos a esta decisão. Mas ainda está por apurar qual a dimensão dos efeitos benéficos na economia portuguesa. É que, evidentemente, o problema de Portugal não era (só) Ricardo Salgado. É, isso sim, toda a teia que fez do capitalismo português um capitalismo antiliberal que defende os instalados em vez de defender os inovadores.

Como imaginam, não é fácil estimar os efeitos disruptivos de uma decisão destas. Mas penso que concordarão comigo que os efeitos benéficos só se sentirão caso a forma de fazer negócios em Portugal mude. Infelizmente, os poucos dados (reconhecidamente imperfeitos) que existem sobre o assunto não nos permitem ser muito optimistas.

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