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Moda

Niqab de alta costura

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Marcas como a Dolce&Gabbana ou a DKNY, que tentam dar glamour a indumentárias que são símbolo de opressão, merecem agravos. As mulheres podem exercer a sua liberdade e comprar noutro lado.

Dei por este assunto no twitter. No princípio do ano li que a Dolce&Gabbana iria ter uma coleção de abayas e niqabs. Depois de controlar a subida súbita de tensão arterial, recorrendo aos cristais de quartzo e à aromaterapia (à falta de medicação convencional para a maleita de que eu normalmente não padeço), que a notícia me provocou, apelei de imediato ao boicote à Dolce&Gabbana. No dia seguinte reincidi no Facebook: ‘Ontem soube da traição da Dolce&Gabbana, que lançou uma coleção de abbayas e niqabs da marca, juntando-se assim ao lado negro da força que impõe indumentárias simbólicas da opressão e do desrespeito dos direitos humanos das mulheres. O que convoca, claro, um boicote à empresa por todas as mulheres de boa vontade. (Perfumes, que eu thank God não gosto, incluídos.)’

Entretanto voltei à minha vida, que não se cruza amiúde com a Dolce&Gabbana. Mas houve desenvolvimentos. A Marks & Spencer decidiu por à venda um burkini nas suas lojas. Isto depois de a Mango ou a DKNY (a segunda marca da luxuosa Donna Karan), entre outras, terem lançado roupa para o Ramadão. A ministra francesa dos direitos das mulheres, Laurence Roussignol, contra-atacou, acusando as marcas ocidentais que vendem roupa feminina desenhada segundo os ditames islâmicos de irresponsabilidade, de colaborarem no controlo social dos corpos das mulheres, estarem a vender os princípios ao lucro e comparou até as mulheres que viam com bons olhos estas indumentárias como os ‘negros que apoiavam a escravatura’. E agora podem aplaudir a ministra, que bem merece. Pelo menos por não ter cedido aos rodriguinhos com que as feministas de esquerda costumam tratar este assunto.

Pierre Bergé, que criou a Yves Saint-Laurent com o costureiro, alinhou com Roussignol e reproduzo aqui as suas palavras para se entregarem a nova sessão de palmas. Disse magnificamente: ‘Estou escandalizado. Os designers existem para tornarem as mulheres mais bonitas, para lhes darem liberdade, não para colaborarem com esta ditadura que impõe esta coisa abominável que esconde as mulheres e as faz viver uma vida escondida. Estes criadores estão a participar no aprisionamento das mulheres e deviam perguntar-se a si próprios várias questões’. Mais: ‘Desistam da massa. Tenham convicções. Defendam as convicções’. (A mim estas palavras fizeram-me feliz – e não só porque adoro o Opium Noir e os vernizes da YSL são dos poucos que não me causam alergias e me permitem ter unhas encarnadas ou roxas ou azuis.)

Do lado oposto também se esbracejaram argumentos. A muçulmana Shelina Janmohamed opinou, no Telegraph, ser uma questão de liberdade vender e vestir roupa que siga os preceitos islâmicos. E terminou o texto com a gigantesca sonsice de aconselhar mais atenção ao que as mulheres muçulmanas são como pessoas em vez de ao que vestem. Como se a forma de nos vestirmos não fosse uma maneira extraordinariamente eficaz de nos exprimirmos e de revelarmos a nossa personalidade. Garanto a toda a gente que as cores das minhas carteiras, ou o abundante roxo ou azul-turquesa na roupa, brincos, anéis e sapatos, são inteiramente eu. E como se o modo como nos apresentamos vestidos não condicionasse a nossa relação com os outros, seja porque uma mulher toda coberta convida a criar distância (que é, lá está, o objectivo dos panos pretos), seja porque a cara tapada e linguagem corporal mitigada por roupa larga e comprida exterminam parte da comunicação.

Abdallah Zekir, do conselho islâmico francês, alucinou ainda mais. Que a ministra estava a empurrar jovens para o daesh com as suas palavras – porque é evidente que a resposta imediata e proporcional de qualquer pessoa com circuitos cerebrais funcionais que ouve um disparate de um ministro é ir a correr para a Síria oferecer-se para colete de explosivos humano, ou para destruir à picareta vestígios arqueológicos do dissoluto império romano que persistam no Médio Oriente. Que a ministra não objetava às princesas sauditas que se passeiam nas lojas caras de Paris – sendo que, em boa verdade, é mais provável as ditas princesas usarem bikinis reduzidos quando na Europa do que abayas. Um exemplo: já estive em Jaipur num hotel que estava metade por conta de um príncipe saudita e a sua corte mais próxima. As endiabradas senhoras da comitiva exibiam-se de calças, saias, camisas mas, helas, nada de abayas ou, sequer, lenço – sem eu ter visto as contrapartes masculinas correrem atrás para lhes oferecerem vergastadas.

Mais confusão no tópico moda islâmica veio da Air France, ao impor às suas hospedeiras que usassem hijab quando desembarcassem em Teerão. Os sindicatos – e até tremo de comoção por concordar com sindicatos – exigem que, dada a imposição, as hospedeiras possam recusar trabalhar nesta nova rota.

Mas, terminando, claro que as lojas podem vender abayas e niqabs. Se forem proibidos no espaço público, podem bem usá-los nos espaços privados que permitam. Nem me escandalizo com o burkini. Já vi islâmicas tomarem banho no mar e em piscinas mais vestidas do que eu costumo ir trabalhar no verão. Ainda fico boquiaberta quando me lembro de uma senhora que observei em Goa tomando banho na praia de burqa completa. As estâncias europeias oitocentistas assistiam a aparatos semelhantes. Pelo que o burkini é um grande avanço.

Mas marcas como a Dolce&Gabbana ou a DKNY, que tentam dar glamour a indumentárias que são símbolo de opressão, merecem agravos. As mulheres – e os homens – também podem exercer a sua liberdade e comprar noutro lado. As escolhas de consumo são com frequência escolhas políticas e morais.

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