Tenho uma relação complicada com tatuagens. Por um lado, o Robert De Niro em modo de Max Cady no “Cape Fear” é uma inspiração estética imbatível; por outro, quando vou à praia de Carcavelos e observo a carne pintada dos cidadãos preciso de suster a náusea—uma parte de mim sonha revelar-se pela tinta na pele, outra odeia o fenómeno como um fingimento óbvio de rebeldia. Tirando dois pequenos apontamentos que tatuei nos braços há uns anos, vou permanecendo no dilema (a minha mulher também agradece). Ainda assim, fascino-me com os desenhos dos tatuadores (ao ponto de ir rabiscando uns meus numa conta de Instagram chamada “Desenhos Desastres”).

Numa das contas de tatuagens que sigo vi há uns dias o desenho de um Jesus montado num caracol dizendo: “ele voltará”. Não podia ter sido mais apropriado, tendo em conta que entrámos no Advento. O Advento é o período do ano que os cristãos devotam a recordar que Jesus teve de ser esperado no Velho Testamento como continua hoje a ter de ser esperado por nós, criaturas do Novo—o Advento antecipa, claro está, o Natal. Se há escola complicada na vida é a escola da espera. É muito bonito falar de esperança quando nos esquecemos que dentro dela está também a palavra espera.

Quando a pessoa lê as cartas do Novo Testamento fica com a ideia de que o regresso de Jesus estaria para breve. Mas é no conceito de breve que o assunto se complica. Daí que, por pouco crente que fosse o desenho daquele tatuador que punha Jesus montando um caracol, há uma provocação pertinente. Afinal, o povo também diz que quem espera, desespera. Não fazem os cristãos figura de tolos quando, ano após ano, e confortavelmente instalados na festa cada vez mais exuberante do Natal, proclamam que Jesus virá novamente? Talvez.

Sou dos que crê que um cristão fazer figura de tolo mais do que um problema é uma solução. Não quero soar demasiado defensivo mas cabe a quem não tem fé a tarefa de encontrar sentido nesta vida. Aos cristãos é dado o privilégio de ter uma vida algo entalada, entre agora e depois, desprovida de triunfos empíricos. Vejam bem: se Cristo obrigou a que as pessoas antes de ele vir tivessem de esperar por ele, obriga agora os que depois dele vieram a ter de continuar a esperar que ele regresse. A vida do cristão é o absurdo de reconhecer que o mais importante não é propriamente viver, mas esperar que se viva quando Jesus se dignar a aparecer.

Nessa medida, as vidas dos cristãos são quartos vazios, são esperas pelo hóspede que se demora. Num mundo veloz, Cristo sem dúvida monta um caracol. Aquele tatuador, provavelmente não desejando fazer uma apologia da fé, acabou a ilustrá-la na perfeição. A espera desaloja-nos do centro das coisas porque quem se toma como o centro não espera por ninguém. Sabemos que vivemos numa época especialmente complicada quando a espera é do que mais evitamos—receio que a geração dos nossos filhos é a mais amaldiçoada de toda a história do Universo por ser poupada de qualquer momento que os tire do centro da existência fazendo-os esperar por algo.

Como se prega o evangelho no Natal de 2023? Não diria que devemos tatuar a imagem daquele Cristo jóquei do caracol, mas, pelo menos, não a esqueçamos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR