Ufa! O furacão desvaneceu-se e transfigurou-se numa tempestadezinha.

O furacão aproximava-se a toda a velocidade, rugindo e ameaçando com vagas de fundo gigantescas, ventos ciclónicos e justiceiros e chuvas impiedosas e diluvianas. Previa-se que causasse danos incalculáveis em numerosas estruturas e que abalasse até as fundações de alguns edifícios de construção mais débil. Vaticinou-se mesmo a obliteração pessoal de alguns.

Felizmente, amainou.

E não, não me refiro ao Lorenzo, ao Ophelia nem ao Leslie. Refiro-me ao pretenso furacão António Costa e à sua maioria absoluta, que desejou, que pediu, que implorou com falsos pudores e que, por fim, se desvaneceu e que perdeu para sempre.

Costa bem tentou cavalgar a tempestade, esteve a um passo de ir aos Açores em busca de fotografias dramáticas e relatos comoventes; bem rezou para que o Lorenzo o salvasse de um empecilho ainda maior do que o Bloco – o caso de Tancos, que volta uma e outra vez para o assombrar, provocando-nos a todos um sentimento profundo e desconfortável de vergonha alheia, uma incomensurável vergonha alheia.

Mas em vão. O furacão afrouxou, desviou-se e morreu. As sondagens recentes mostram o PSD na casa dos 30% (imagine-se se fosse um PSD com outra liderança …) e um PS condenado (em caso de vitória, agora longe de ser certa) a mais uma ronda de negociações para ver “quem quer casar com a carochinha”. Se assim for, certamente Bloco e PCP lá estarão, na linha da frente – o primeiro por sede de poder, agora que o cheirou tão de perto, e o segundo por pura sobrevivência (os votantes que gostam mais da “geringonça” são mesmo os da CDU, com 83% a favor de um Governo PS), num momento em que pode ver o seu grupo parlamentar reduzido a metade. Parece, de resto, cumprida a profecia que lancei em 2018 ao atribuir o “Prémio PREC” a Jerónimo de Sousa: “O papel do PCP na engrenagem da geringonça foi sempre difícil de entender. Encravado entre a ânsia de poder e a pulsão contestatária, arriscou a sua identidade, a sua base de apoio popular e a própria subsistência política. Iniciou-se há pouco tempo o Processo de Reviravolta Em Curso, em que Jerónimo tenta seduzir os trabalhadores, nas ruas e nas empresas, com a linguagem de sempre e empunhando as velhas armas – greves e tumultos vários. Está para breve o fim da quadratura do círculo”.

Agora é, portanto, a hora de apelar ao voto de forma séria e corajosa, cumprindo-me fazer aqui um disclaimer – para quem não entendeu, a minha última crónica neste jornal, que apelava à maioria absoluta do PS, era apenas ironia.

E o apelo que faço é aos funcionários públicos – aqueles por quem o socialismo nunca fez nada, aos quais nunca proporcionou dignidade e ambição na carreira e a quem nunca ofereceu formação séria e consistente, de modo a potenciar o seu futuro.

Apelo aos funcionários públicos esclarecidos, competentes e que não estão cegos pelos respectivos umbigos, que se preocupam com o bem comum, que não estão reféns nem cativos de um PS cativador mas pouco cativante e da sua teia de interesses amiguistas – e sei que são muitos.

Apelo ao voto consciente dos funcionários públicos que se preocupam com o futuro e com os seus filhos –  e por isso não têm medo da meritocracia, querem uma administração de qualidade e não de compadrio e anseiam por uma carreira livre, aliciante e independente, sem serem subjugados à pressão da emigração que é exercida pela carga fiscal sufocante.

Apelo àqueles que querem libertar-se da canga socialista, que querem quebrar o círculo vicioso da promessa de pretensa e podre estabilidade, que resulta em migalhas de contentamento efémero e imediato e depois redunda em votos que constroem um edifício incapaz de resistir a um qualquer sopro de um vento económico desfavorável ou a um espirro mais forte de uma guerra comercial.

Apelo ao voto de todos aqueles que se recusam a abdicar do seu direito ao sufrágio destinado a apoiar um desígnio e uma visão, vendendo um votozinho hoje a troco de um prato de lentilhas que acaba amanhã.

Apelo  a todos aqueles que se recusam a ser os carneiros pastoreados pelas avoilas e pelos nogueiras e que se recusam a pactuar e a tolerar os casos de amiguismo doentio e enquistado que o Governo do PS promove e encabeça, de que o exemplo de Tancos – grave na sua irresponsabilidade, gravíssimo na sua incompetência – é apenas a ponta do iceberg.

Agora que o furacão se desviou dos Açores, aproveitemos o ensejo para desviar também de lá (e do continente, já agora) os discípulos de César, que se vêem forçados a ir trabalhar para poderem passar mais tempo na companhia da família!