Escrevi na minha última crónica que o medo é o impeditivo natural para que, pessoas responsáveis, usualmente as mais úteis à sociedade, se abstenham de participar numa retoma ou numa estratégia de retoma, quaisquer que sejam os seus contornos, por estarem demasiado apreensivos com a dissonância de dois discursos: a realidade (e também o reality show montado por todos os lados) que obrigou todos a ficar em casa, por um lado, e a necessidade de retomarmos a economia  e prosseguirmos a vida num novo normal, por outro.

Sou uma pessoa que muda de opinião se necessário for, felizmente. Neste caso não consigo mudar de opinião.

O medo é a única dimensão e variável que impedirá que mais depressa se faça uma qualquer retoma. Perante o desconhecido e na incerteza do que poderá acontecer o ser humano retrai-se e procura encontrar zonas de conforto para lutar contra um mal coletivo que desconhece.

Não se podem fazer dois discursos paralelos: contenção, dramatização e medo contra vamos lá, a retoma tem que se fazer e a vida continua. Vamos trabalhar e vamos criar e repor a sociedade e o wellbeing conhecidos.

Primeiro porque a aceitação da incorporação do medo permanente demora tempo e, ao contrário, a sua dissociação demora mais tempo ainda. O medo pode instalar-se de forma rápida, verdade. Mas neste caso, e como o medo trás associado uma mudança profunda, o processo começou naturalmente pela negação. Depois passámos à interiorização, fazendo o luto a uma série de atividades possíveis antes do medo se instalar mesmo, aceitando-se aos poucos, por entre muitos momentos de raiva, e negociando o possível para, finalmente, começarmos a aceitar e a viver com esse medo. Passa a ser uma dimensão própria da vida de cada um e, para o melhor e para o pior, os mais responsáveis são os que melhor interiorizam estas questões. Porque, que dúvidas não existam, os “carregadores de pianos” das sociedades não são os grandes inovadores e temerários nem os mais relaxados. São a massa do meio que, e esta parte deve ser sublinhada, são o sustentáculo, até em número, do mundo em que vivemos.

Como referia, a queda no medo até pode ser relativamente rápida. A saída dele, neste caso, é bem mais lenta. Não há nem curvas em V nem curvas em U. Haverá uma curva, por paralelismo com a recuperação económica, em L onde a segunda perna do L está francamente deitada. A recuperação de algumas das dimensões de vida do período pré-Covid vai demorar mais tempo do que a aceitação deste período de lockdown.

Segundo porque já há uma maioria que percebeu que não se pode construir uma economia como a que conhecíamos. O ajustamento é longo e penoso porque temos mesmo de nos reinventar. Só o simples facto de sermos forçados a viver com distanciamento social para os demais seres humanos vai-nos levar a ter de repensar de quase tudo a tudo mesmo. A sociedade de proximidade não estará tão depressa reabilitada, se alguma vez estiver, e os novos normativos impõem formas alternativas de pensar e de fazer. Para alimentar o medo vai sempre contribuindo o caso A e o B do conhecido, e do conhecido do conhecido que, entretanto, se soube que ficaram doentes. E isso trará falta de confiança no mundo que se vai viver.

Terceiro porque as vozes e os pedidos (fecha-te em casa versus retoma e reinventa-te) serão vistos como dissonantes e, na dúvida, acredita-se mais no medo do que na capacidade para fazer novo e recriar. As pessoas estão congeladas, inertes, e a inovação que todos queremos demora tempo. Não é adaptação. Não é mudança incremental. É mudança mais que transformacional.

Como dizia na minha crónica anterior, o medo não aparece como variável do PIB. Mas tem, por certo, impacto indireto no PIB (consumo privado, investimento, por exemplo), sendo também a variável possível para controlar as massas, em democracia, mas também a mais difícil de reverter. Vai demorar tempo a interiorizar novas regras e normativos de funcionamento e vai demorar tempo a que as pessoas responsáveis aceitem viver sem medo.

Mais, são conhecidos, ou deveriam ser hoje conhecidos de todos, os tempos de produção e distribuição de uma vacina. Mesmo sem testes em animais, e supondo que há humanos em número suficiente e candidatos a submeter-se diretamente a testes de vacinação com obliteração de passos prévios protocolares, existirão sempre três tipos de testes em todo o processo. Administrar e estudar efeitos em dezenas de pessoas, posteriormente e não paralelamente em centenas de pessoas e, na fase final de milhares para milhões de pessoas, no sentido de prosseguir para a produção. Tudo isto com estudo acompanhado dos efeitos que a vacinação induz nas várias pessoas voluntárias.  É aqui, nos testes clínicos, que mais falham as vacinas. E tudo pode voltar ao início. Só então, depois de devidamente aprovada pelos organismos competentes, vem a produção e a distribuição. O desenvolvimento clínico por fases, a produção e distribuição não ocorrem em menos de 1,5 a 2 anos, na melhor das hipóteses.

Há dois pontos, neste contexto, que gostaria de deixar a título final:

  1. Quem pensa que a vacinação poderá ocorrer em Setembro e/ou que a vacina está encontrada, e que por isso pode ser administrada em massa, penso que em Setembro vai ter uma desilusão.
  2. Quem pensa que a economia deve ter uma estratégia de recuperação – e deve mas não baseada no pré-Covid-19 – seria bom pensar antes em que tipo de recuperação se pretende e quais as variáveis de contexto para relançar a economia, sendo certo que não estamos a falar da mesma economia nem do mesmo contexto.

Isto dito e aqui chegados, se há altura para pensar estratégia, a altura é esta.

Finalizando, é também caso para reafirmar o título, e só o título, do livro de Patrick Rothfuss, O Medo do Homem Sábio E para perguntar: Mas e o homem sábio, afinal, tem medo?