Não faltam razões para criticar a actuação da deputada Joacine Katar Moreira, eleita pelo Livre. Mas se é justo reconhecer que nem sempre as críticas de que é alvo têm relevância, importa sublinhar que as ideias de Joacine colidem com os fundamentos de uma sociedade livre e plural. O ponto é este: Joacine Katar Moreira analisa o mundo pela lente identitária de um conflito racial permanente e essa visão enviesada converte o “outro” numa ameaça ao nosso modo de vida de forma irremediável — se nas classes sociais a mobilidade é possível (um pobre pode tornar-se rico), quando o foco político está na raça essa mobilidade fica impossível e o conflito é irresolúvel. Assim, sob essa lente, a deputada atropela sucessivamente uma distinção fundamental: são os actos que determinam uma injustiça ou a existência de desigualdades, e não a cor da pele que, sendo uma característica da nossa identidade, não nos define.

Um exemplo recente deste enviesamento surgiu a propósito da morte de um jovem estudante (IP Bragança) de origem cabo-verdiana, Giovani Rodrigues, que terá sido vítima de um espancamento colectivo. Este caso grave e lamentável, sob investigação policial, foi imediatamente qualificado pela deputada como um acto movido a ódio e racismo, assente no facto de a vítima ser de origem africana. E isso justificou um voto de pesar apresentado pelo Livre no parlamento, no qual se afirma que “a luta contra o ódio e o racismo é também a luta pelo reforço da democracia”. Ora, segundo as informações disponíveis até ao momento, não existe qualquer indício que justifique a consideração de racismo neste crime — ou seja, nada faz supor que a vítima tivesse sido atacada por causa da cor da sua pele, sendo por isso indiferente a sua origem.

O tratamento político dado por Joacine Katar Moreira a esse caso contrasta com o igualmente lamentável homicídio de um outro estudante (Pedro Fonseca), em Lisboa, após ter sido atacado e esfaqueado por três jovens de origem guineense. Tal como no caso anterior, não há razões para crer que o crime tenha tido motivações raciais — a informação disponível sugere que terá sido um assalto que evoluiu para um confronto físico mortal. Ora, a discrepância de tratamento que o Livre e Joacine Katar Moreira atribuíram a estes dois crimes gerou uma avalanche de montagens e manipulação de declarações, já devidamente denunciados e desmentidos. O facto é, contudo, que o Livre não apresentou qualquer voto de pesar, possivelmente porque não interpretou o crime sob a mesma lente, apesar de em ambos os casos não haver indícios de racismo — o que muda sobretudo num e noutro são os perfis das vítimas e dos agressores.

A análise torna-se politicamente mais interessante quando se verifica que, se se invertesse a descrição acima, estar-se-ia a falar de André Ventura (do Chega!), cujo comportamento foi precisamente inverso. Em relação ao homicídio em Lisboa, o Chega! identificou no crime uma oportunidade para alimentar a percepção de insegurança junto dos mais jovens e na proximidade dos centros académicos, dando força à sua agenda securitária — e apresentou um voto de pesar. Perante o homicídio de Giovani Rodrigues, também ele estudante do ensino superior, André Ventura não teceu iguais preocupações nem considerou relevante a apresentação de qualquer voto de pesar.

Passemos ao lado do facto de ambos os partidos (Livre e Chega!) instrumentalizarem a morte de jovens estudantes para impor as suas agendas políticas através de votos de pesar, o que é de um mau gosto indescritível. Aqui, é muito mais o que une André Ventura e Joacine Katar Moreira do que o que os separa: nestes casos, ambos deixaram que fosse a cor da pele dos agressores e das vítimas a guiar a sua consternação. Joacine Katar Moreira, por ver racismo quando a vítima não é branca. André Ventura, por detectar insegurança quando os agressores não são brancos – repare-se, ainda, neste recente Voto de Condenação e Preocupação sobre as agressões a profissionais de saúde, onde Ventura faz questão de assinalar a etnia cigana de agressores (absolutamente irrelevante para o conteúdo desta iniciativa parlamentar). Afinal, a coincidência não surpreende se se tiver em conta que ambos se destacaram no mundo da política por fazer bandeira das questões raciais — Ventura através de críticas contra as comunidades ciganas de Loures, Joacine através do seu activismo na área.

Joacine e Ventura podem estar em lados opostos da trincheira política e frequentemente em confronto, mas são o reflexo invertido um do outro: alimentam e partilham uma visão racial e identitária da sociedade que tem demasiados pontos comuns. Infelizmente, não estão sozinhos. Não falta quem, à esquerda, siga o mesmo guião, por exemplo no Bloco de Esquerda — veja-se a reacção do deputado José Soeiro ao homicídio do estudante do IP Bragança. Do mesmo modo que, à direita, pululam vigilantes das notícias de crime dos jornais, que logo inquirem sobre a etnia de agressores e transgressores quando esta não surge mencionada, para então denunciar encobrimentos e favorecimentos a negros ou ciganos. O ponto é que, à esquerda e à direita, o enviesamento imposto por esta visão identitária e racial começa a ganhar espaço no debate público. E travar o contágio é tão urgente de um lado como de outro.