Qualquer polémica em Portugal que exija um conhecimento de base de História, de Literatura, de Filosofia Política, transforma-se geralmente numa triste demonstração de ignorância das classes que, em princípio, deviam aprofundar e transmitir aos outros informação suplementar e fundamentada. Falo de grande parte dos académicos e jornalistas, excitados pela recente descoberta de um conveniente Mal Absoluto, do Inimigo de sonho de que andavam há muito necessitados desde o apagamento de Pedro Passos Coelho.

Só esta semana, por exemplo, houve um moderador que disse que todos os regimes totalitários chegaram ao poder por eleições (além de Hitler, não conheço nenhum), e um estudioso do neofascismo em Portugal que afirmou, num colóquio universitário, que o grupo fundacional do Futuro Presente – o José Miguel Júdice, o António Marques Bessa, o Nuno Rogeiro, eu próprio – tinha andado pacientemente a preparar o Chega… Talvez num tubo de ensaio, com o apoio técnico de cientistas nazis escapados para a Argentina e o Paraguai, através de redes de conventos de monges fascistas italianos, e para cá trazidos pela famosa organização Die Spinne; e tudo isto ao longo de vários anos (mais precisamente 40, uma vez que o Futuro Presente foi criado em 1980), enfim, os anos que fossem precisos até que o partido de Ventura visse finalmente a luz do dia. Outra efabuladora da semana foi uma colaboradora do Expresso, que me põe como ideólogo da última encarnação do Mal, o dito Chega, e de André Ventura, líder que eu estaria a doutrinar e a instrumentalizar para ressuscitar António de Oliveira Salazar da campa rasa onde dorme o sono eterno.

As esquerdas precisam desesperadamente de Linhas Vermelhas e de Cercas Sanitárias para a prática do frentismo populista, de um antifascismo militante que disfarce as suas agendas corrosivas e as suas práticas iliberais, que preencha o vazio e que, mobilizando também os liberais bem comportados, as mantenham no poder – político, ideológico e cultural. E para se afirmarem e se pensarem como Bem Absoluto criam à volta de certas personalidades e Agendas a ideia de que são o Mal Absoluto, reencarnações do próprio Adolfo Hitler ou a súbita materialização de “um Salazar em cada esquina”, o famoso programa de salvação nacional de alguns dos nossos taxistas.

O problema do mal

Hannah Arendt, com a sua inteligência inquieta e erudita, percebeu isto bem quando escreveu “que o problema do Mal ia ser a questão fundamental da vida intelectual na Europa do pós-guerra”. A autora de The Life of Mind seguiu Santo Agostinho na admissão da presença do Mal no mundo e na História. Maquiavel, um pessimista antropológico, não tinha dúvidas em afirmar essa natureza “má”, “anti-social”, dos homens, dos seres humanos, e Thomas Hobbes, século e meio depois, concordava com ele. Rousseau viria contrariá-los, imaginando um homem naturalmente bom que as instituições – a Religião, o Estado, a Propriedade, a Família –, agrilhoando-o, tinham tornado péssimo. Era, pois, preciso reabilitá-lo. Marx iria no mesmo sentido, para já não falarmos dos anarquistas.

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Arendt, em The Origins of Totalitarianism, radica esse Mal absoluto nos modelos totalitários do século XX – o totalitarismo comunista soviético, com Estaline, e o totalitarismo nacional socialista, com Hitler. E igualizava-os a partir do fenómeno concentracionário, dos campos do Gulag e da Shoah, onde encontrava coisificado o Mal absoluto. E identificava também a “banalidade do mal”, dos funcionários que, “só cumpriam ordens”.

O que é talvez interessante e importante é que o mecanismo ético-político por detrás deste Mal absoluto, que reduzia a condição humana à maior indignidade e sofrimento, era a construção, como justificação ideológica, de um Bem maior. Quer o Comunismo, que objectivou o mal absoluto no inimigo de classe, o Burguês, e no inimigo ideológico, o Dissidente, quer o hitlerismo, que objectivou o mal absoluto no inimigo do povo alemão, o Judeu, faziam-no justificados por um Bem Maior, do qual detinham o monopólio e o superior entendimento. As narrativas – a narrativa marxista-leninista, com o sonho revolucionário de libertação do Proletariado, e a narrativa nacional-socialista, com a libertação do Povo Alemão, oprimido e humilhado na Grande Guerra e pelo “Judeu Internacional” – apontavam nessa direcção. E para extirpar o Mal absoluto e os maus, o Bem e os bons, na boa tradição maniqueísta, não precisavam de mais justificações. Valia tudo.

Não é, por isso, estranho que os neo-marxistas ou neo-maoistas de hoje, na sua ânsia de libertar os homens, ainda agrilhoados pela religião e por um “fascismo” sempre renascente pelos ovos da serpente, fascismo que vêem multiplicar-se entre os deploráveis eleitores de Trump ou de Orban, decretem a liquidação dos “inimigos do Povo”, imaginem conspirações tenebrosas, estejam à procura de fascistas para os denunciar, para os proibir de escrever, para os silenciar.

Hoje, como no passado, o mecanismo é precisamente o mesmo: a identificação de um Mal Absoluto e a absolutização de um bem, que pode ser a revolução socialista e igualitária, ou a salvação do povo alemão e a hegemonia da raça ariana, ou o advento de um qualquer homem novo, e depois a perpetuação do poder. Inimigos, entraves – Gulag com eles, reeducação à Mao ou Pol Pot, célula da Lubianka, Auschwitz, câmara de gás. O Bem e o Futuro agradecem.

Então qual é o mecanismo mental que os novos profetas do radicalismo esquerdista activam – desde os Antifas (que no fim de semana passado em Washington, perante a súbita surdez e cegueira do mainstream mediático, agrediram famílias isoladas de manifestantes pró-Trump em fim de festa) aos que, por cá, pedem a proibição dos “fascistas” e dos “racistas” (coisa que só eles são competentes para definir)? É a identificação dos inimigos do Bem, do Bem absoluto, que são e só podem ser o Mal e o Mal absoluto. E como tal devem ser extirpados, lançados biblicamente às “trevas exteriores” posto que são o “mal radical”.

Como Trump, por exemplo. Um dos trânsfugas republicanos do Never Trump, Rick Wilbon, escolheu bem o título do seu livro: Running against the Devil. Um outro crítico do Presidente chamou-lhe “um lunático perigoso e violento”. Na fúria da perseguição, tudo, até a contradição dos inquisidores, é desvalorizado, até porque o julgamento já está feito à partida: é para queimar. Por isso Trump é ao mesmo tempo estúpido e maquiavélico; um racista, sempre com os comícios cheios de negros; um supremacista branco, que duplicou o voto entre os afro-americanos; um etnocêntrico, que aumentou o voto entre os latinos. Um imbecil, maluco e incompetente, que, culpado por cada morto de pandemia na América e com a economia escaqueirada (que antes tinha atingido os melhores níveis dos últimos anos) não foi “esmagado por uma onda azul”, como previam os respeitáveis institutos de sondagens, e teve mais de 73 milhões de votos, mais dez milhões e meio que em 2016.

O que explica esta campanha única na História (em que para atacar Trump, os liberal media até louvaram Reagan e McCain que, a seu tempo, tinham atacado e caluniado miseravelmente)? O que explica a dimensão do insulto, da calúnia paranóica contra Trump, que tende a estender-se a outros Diabos nacionais e europeus, é precisamente a sua prévia diabolização.

Não é tanto porque sejam maus, ou sequer grunhos. Se defendessem valores e posições mais consentâneos com a ortodoxia reinante, acabariam acarinhados, desculpados, louvados. A diabolização é interessada, interesseira, ideológica. É que para com os que os “liberais” decretam “iliberais” parece só haver vias de facto. O sistema é este – há que diabolizar os adversários para (como concluía o Nietzsche da “Morte de Deus”) tudo ser permitido contra eles. É no que estamos.