Uma família em isolamento, dia 28

Tenho uma filha (mais nova) que continua sem querer sair de casa e outra (mais velha) que até aqui estava sempre pronta para ir esticar as pernas e fazer a fotossíntese mas agora começa a dizer, pontualmente, que prefere ficar a brincar ou a ver um filme. Não estamos ainda preocupados com isso, até porque se o programa envolver uma bicicleta e a ideia de fazer um circuito inventado ou pedalar numa ciclovia, ela vai sem necessidade de grande argumentação da nossa parte. Mas o simples (e até aqui eficaz) “vamos à rua dar um passeio” já não cola tanto. Sobretudo porque implica convencer as duas.

As redes sociais são uma janela possível para o mundo e aquilo que vejo através do Facebook ou Instagram faz-me perguntar a alguns amigos se a sensação é comum ou se são as pequenas cá de casa que estão particularmente sensíveis – ou se são os crescidos cá de casa que não estão a conseguir dar a volta ao texto, que isto às tantas já colocamos tudo em causa.

Claro que ninguém com dois dedos de testa está a levar os filhos para potenciais aglomerados irresponsáveis de gente (que também os há), mas, de uma forma ou outra, continuam a sair com eles para passeios higiénicos à noite, quando há menos pessoas nas ruas. Ou para voltinhas nas zonas verdes das cidades. Uns miúdos andam mais resistentes e bonacheirões com a ideia de sair , outros andam mais necessitados de ar livre e precisam de gastar energias no exterior para não darem em malucos (e os pais também) no interior. E os que têm varandas grandes ou terraços estão a aproveitar como nunca esses balsas de salvação da arquitetura. Para os que vivem no campo nada mudou e os quintais são o recreio perfeito.

O que sinto, porém, das pessoas com quem falo, é que são eles próprios, os adultos, que não têm grande vontade de sair. Precisam de arejar, sim, mas fazem-no por necessidade e a medo. Não por prazer. A necessidade de passear o cão. A necessidade de ir ao supermercado. A necessidade de ir à farmácia.

Nada será como dantes, sabemos bem, e enquanto não houver vacina contra o novo coronavírus só conseguimos andar à vontade se sentirmos que ninguém vai respirar para cima de nós, nenhuma gotícula de suor de um corredor que passe a um metro e meio nos vai infectar e nenhum espirro ouvido no corredor do supermercado com dois corredores de intervalo pode chegar perto.

Este é o novo normal e vem acompanhado de tantas reservas que até já temos dúvidas se vamos mesmo abraçar com tanta força assim as pessoas de quem temos saudades. Quer dizer, nós queremos agarrá-las e tocá-las. Sentir-lhes a pele, venham de lá esses ossos, encosta-te a mim, peito esmagado contra o peito. Queremos muito. Mas só lá vamos de alma e coração quando a saúde estiver bem defendida. Só quando nos disserem que a vacina existe e nos sentirmos inoculados ou quando o mercado tiver um comprimido milagroso que não deixa que os pulmões sejam comidos é que vamos conseguir, de um dia para o outro, abraçar com gosto. Até lá, não abraçamos. E quando nos pudermos juntar, vamos abraçar a medo.

Mesmo que a OMS declarasse agora que a pandemia tinha atingido o pico no planeta inteiro e que cada vez menos pessoas seriam infetadas, mesmo que os governos todos desatassem a levantar as medidas de contenção e se começassem a injetar milhões com um desfibrilhador económico para recuperar empresas e postos de trabalho, mesmo que todas as procissões, todos os concertos, todas as festas de aniversário e todas as celebrações passassem agora a ser autorizadas, quem é que ia querer estar novamente colado a outra pessoa sem se sentir protegido por um medicamento? Quem é que quer agora sentar-se num avião e ali ficar fechado ao lado de um estranho durante seis ou sete horas – ou mesmo duas?

A minha filha de 6 anos não quer sair de casa e a irmã de 7 começa a seguir-lhe os passos. Eu olho pela janela e nem sempre me apetece ir lá fora. E a minha casa, a casa dos meus amigos, a casa das pessoas que vejo nas redes sócias, é cada vez mais um terreno protegido que queremos manter asséptico contra a ameaça que está no exterior. Não dá para fazer transplantes de rins na bancada da cozinha, mas sentimo-nos mais seguros nos nossos espaços do que alguma vez sentiremos lá fora, perto de outros. Mesmo que sejam os nossos outros.

Até haver vacina, este é o novo normal.

Veja também (Diário de Uma Família em Isolamento):

Dia 1. Sabe o nome do seu vizinho?

Dia 2. Teletrabalho? Vocês não têm filhos pequenos, pois não?

Dia 3. Vai para dentro, olha que te constipas, pai

Dia 4. Jantar de grupo, hoje. Por vídeo? Cada um na sua casa.

Dia 5. #vaificartudobem, mas antes disso estamos a ficar mal

Dia 6. Domingos que parecem outro dia qualquer, sempre iguais

Dia 7. Uma quarentena para ler as mensagens todas no WhatsApp

Dia 8. “Quando é que isto acaba?” Não sei, filha

Dia 9. E os professores dos nossos filhos, como estão a lidar com isto?

Dia 10. Já chegou. Um dos nossos está infetado

Dia 11. Rotinas 0 – 1 Sanidade mental. Que se lixem as rotinas

Dia 12. Agenda: às nove no Instagram ou às dez no Skype?

Dia 13. Como explicar o que aconteceu na Ponte 25 de Abril?

Dia 14. Os vossos pais também não param em casa?

Dia 17. “Sim, vai mesmo ter que ir às urgências”

Dia 18. Pão, vinho e Bruno Nogueira. O que mudou em três semanas

Dia 19. O medo lá fora – a minha filha não quer sair de casa

Dia 20. A vida em suspenso

Dia 21. “E então, o que vamos fazer hoje?” Fartos de pensar nisto todos os dias?

Dia 22. “E se te vestisses de professora?”

Dia 23. Não vamos à terra na Páscoa e a minha mãe está triste

Dia 24. “E se eu infetar o meu filho?” Médicos e enfermeiros em isolamento

Dia 25. “Não vamos ter ensino à distância”

Dia 26. “Nunca fizemos tanta companhia aos nossos animais de companhia”