Dissolver o povo e eleger outro? A pergunta fecha um poema sintomaticamente intitulado “A solução” escrito por Bertolt Brecht no ocaso da sua vida, quando a revolta dos trabalhadores alemães contra o “governo dos trabalhadores” em 1953, na Alemanha de Leste, e a brutal repressão que se seguiu, o deixou dilacerado e confuso. É natural que, nos dias que correm, muitos também andem dilacerados e confusos, mas a sugestão de Brecht não era para levar a sério – até porque era dirigida ao dito “governo dos trabalhadores”.

Em dias complexos e imprevisíveis a prudência recomenda antes a humildade, a inteligência obriga-nos a fugir das ideias feitas e o mínimo de sensatez leva-nos a desconfiar de respostas simples ou de visões conspirativas. Pelo que, mesmo não sendo eu daqueles que pensam que o povo nunca se engana, continuo a pensar que residindo a soberania no povo temos de respeitar a sua vontade. E que se esta porventura é esdrúxula, então temos de tratar de compreender como se chegou a esse ponto e, depois, como se inverte essa situação.

Naturalmente que tudo isto se torna mais difícil quando explicam todos os males do mundo como se estes fossem fruto de maquinações ocultas (“Há uma conspiração de extrema-direita a nível internacional, muitíssimo bem pensada, bem planeada e que vem sendo executada passo a passo”) e se acha que se pode desafiar a natureza das coisas, como se a lei da gravidade não se aplicasse de igual forma ao algodão e ao chumbo (“O Facebook e o WhatsApp servem-lhes tudo de bandeja e levam-lhes as ovelhas às mesas de voto, como cordeirinhos dóceis ao matadouro”).

Estas duas frases são de Miguel Sousa Tavares (MST) e de um texto cujo título, Calem-se: o povo é quem mais ordena, é em si mesmo o reflexo da tragédia de um jornalismo e um comentariato que tem preferido meter a cabeça na areia em vez de tentar perceber e, sobretudo, de reconhecer que algumas das chaves de leitura que antes ajudavam a perceber o mundo têm hoje menos validade. Ou não têm mesmo validade nenhuma.

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