Mostram-nos um casulo e só nos fascina o dedo espetado. Passa-se uns tempos a aprender história e acaba-se a falar como um professor. Eis um enorme mistério da educação. Ligado a este, existe o mistério menor de a maior parte das pessoas que falam como professores aparecerem na televisão. A melhor indicação de que alguém passou por uma escola não é tanto aprender qualquer coisa que até aí não sabia como o facto de passar a falar como quem a ensinou; e a melhor evidência disso pode ver-se justamente na televisão, onde aparecem, convivem, e se reproduzem os professores.

Um indício importante desta situação é o facto de praticamente todas as pessoas que aparecem na televisão terem interiorizado a ideia de período lectivo. Ninguém por isso toma a sério a possibilidade de falar durante menos de cinquenta minutos; fazem-no quase todos com segurança, e apenas nos menos experientes se pressente uma campainha que tarda em tocar. Não são facilmente intimidáveis por quem os possa estar a ouvir, e aliás a possibilidade de haver quem os queira interromper não lhes ocorre. É a esta constância de propósitos que se chama na Constituição serviço público.

Um segundo indício é a maneira como se fala. A regra consiste em tomar precauções para que em cada palavra (mesmo nos monossílabos) haja pelo menos uma sílaba tão longa que não deixe dúvidas sobre a sua importância especial. Explica que as interjeições (onde ocorrem muitas sílabas longas) sejam tão frequentes. O processo é astucioso: substitui por certos barulhos os argumentos que seria maçador para os outros tentar elaborar em apenas cinquenta minutos. A uma série reconhecível de sílabas longas ao longo de pelo menos cinquenta minutos chama-se propriamente tom professoral. O tom gera economias. Foi aprendido na escola, onde se adquire muito cedo a capacidade de sugerir que temos em casa bens e produtos (uma explicação, uma bomba atómica, um leão) que naquele dia não pudemos trazer para a aula.

Em terceiro e último lugar, o que distingue o verdadeiro professor é a sua imunidade à ideia de que possa haver outros professores por perto. Na televisão, a relação entre as várias pessoas que por acaso coexistem num mesmo período de tempo é a relação que existe entre a aula das nove e a aula das dez, a aula das segundas e a aula das quintas. Em vez de um combate feroz pelos cinquenta minutos, como na polifonia renascentista, instintivamente as pessoas educadas consideram que quem vier a seguir estará naturalmente a expor matéria de índole diferente, a respeito da qual pouco lhes ocorre dizer. Contribui isto para o aspecto pausado dos debates na televisão, e também para a ideia de que a educação, que podemos agora definir como o ensino do modo de aparecer na televisão sem usar argumentos, é uma actividade vantajosa.