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Crónica

O mistério da educação (XI)

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A única coisa que vale a pena saber sobre ciências da educação é que aquilo de que os alunos se lembram é só ocasionalmente aquilo de que os professores quiseram que se lembrassem.

Um erro que frequentemente se comete ao falar de educação é imaginar que o resultado da educação é como o produto de uma receita de cozinha. Ao executar uma receita, quem cozinha pretende obter certos resultados; exerce meios técnicos que asseguram que esses resultados sejam atingidos; e depois, caso tenha o talento requerido e tudo corra bem, contempla o resultado favorável dos seus esforços.

Nenhum cozinheiro se reconhecerá porém nesta descrição. Mesmo quando tem a intenção de executar o melhor possível uma certa receita, quando tem o talento para o fazer de modo irrepreensível, e quando todos os requisitos técnicos que imagina precisos estão à mão, não pode ter a certeza de que aquilo que fez seja apreciado por quem o prova. Os comensais podem sempre exultar diante de pratos que o cozinheiro olha com desdém; esquecer coisas em que pôs as suas complacências; ou concentrar-se em pormenores a que não deu importância. Com o tempo os cozinheiros acabam por perceber que o que fazem nunca é suficiente para garantir a alegria de quem lhes come os pratos; e talvez também não seja necessário: será nos casos melhores uma causa esporádica de satisfação.

Esta peculiaridade define também a educação, e é um dos seus maiores mistérios. De facto, nenhuma receita, nenhum programa e nenhum método assegura só por si que qualquer objectivo seja atingido. A única coisa que vale a pena saber sobre ciências da educação é que aquilo de que os alunos se lembram é só ocasionalmente aquilo de que os professores e os especialistas em educação quiseram que se lembrassem. Haverá decerto uma relação entre ensinar e aprender: mas essa relação não é nem suficiente nem necessária. Por essa razão, a justificação para ensinar uma determinada coisa não pode ser a de que as pessoas a conseguirão aprender: tem de ter a ver com a coisa que está a ser ensinada.

Quem ensina, e sobretudo quem ensina bem, terá esperanças acerca dos resultados daquilo que faz; vai porém sempre ter de esperar algum tempo para poder perceber quais foram. Para isso terá de prestar atenção àquilo que quem foi ensinado andou a fazer depois de ter escapado da sua órbita. É por essa razão que o número de patentes registadas, o número de romances escritos, o número de teorias físicas inventadas, e o número de lojas abertas são sinais muito mais importantes que os indicadores sobre a execução de habilidades aritméticas ou gramaticais.

Estes indicadores proporcionarão aos profissionais do ensino a satisfação breve dos treinadores de cães; e a de imaginar que fora da escola não há salvação. Existe porém uma satisfação maior e mais importante: a de ver os outros fazer o que nunca nos passou pela cabeça. Essa satisfação é um programa político, teológico e moral; consiste em gostar da ideia de que a sobrevivência do mundo não vai depender de nós.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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