Desde o limiar da maturidade, tem-se propagado com a persistência de um eco num vale a noção de  que a juventude se mantém alheia aos meandros da política. Contudo, essa perceção simplista malogra ao tentar encapsular a complexidade e a dinâmica com que os jovens de hoje se relacionam com o universo  político. Distanciando-se das tradicionais juventudes partidárias e das estruturas políticas que parecem  fossilizadas no tempo, esta geração não renuncia ao seu ímpeto crítico e formativo, o mais robusto da sua  linhagem. A Fundação Calouste Gulbenkian, no seu relatório, lança luz sobre uma vivacidade participativa que,  embora esquive dos canais convencionais, pulsa vigorosamente em associações e coletivos. Nestes espaços,  os jovens não apenas reivindicam as suas causas com fervor, mas também tecem redes de pertença e  afiam as suas competências de liderança.

Imersos até o pescoço na era digital, estes jovens são os alquimistas da participação cívica,  transformando podcasts, vídeos informativos, debates ao vivo e comentários políticos nas redes sociais nas  suas novas armas de engajamento. Cresceram alimentados pelas histórias de luta e conquista narradas pelos  avós, absorveram as lições da ditadura e dos artífices da democracia através dos livros de história, como quem  decora os ingredientes de uma receita ancestral.

Figuras como Diogo Freitas do Amaral, Jerónimo de Sousa, Marcelo Rebelo de Sousa e Carmelinda  Pereira, jovens deputados da Assembleia Constituinte de 1975, eram os ícones rebeldes da sua época, na linha  de frente dos seus partidos, encarnando uma geração que não apenas sonhou com a liberdade, mas a arrancou  das garras da ditadura.

No entanto, para a geração mais qualificada da história, os partidos que foram os pilares do  renascimento democrático agora parecem peças de museu, incapazes de sintonizar com os desafios e anseios  contemporâneos. Esta desconexão resultou numa erosão de credibilidade, tornando os partidos tradicionais  quase como relíquias aos olhos do eleitorado jovem, dificultando a sua atração para as estruturas políticas  convencionais.

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Partidos como o PSD, que sempre se ergueram como bastiões da juventude e inovação, hoje  enfrentam o desafio de renovar a sua linguagem e métodos de comunicação para capturar a atenção e o  entusiasmo dos jovens. A ironia não escapa aos mais observadores: o partido que se orgulha de ter a juventude  como uma das suas principais bandeiras, agora precisa de reaprender com essa mesma juventude como se  reinventar e se manter relevante num mundo em constante evolução.

Segundo análises de sondagens de 2022, os jovens portugueses têm demonstrado preferência por  partidos como Iniciativa Liberal, PAN, Livre, Chega e Bloco de Esquerda, entidades políticas mais jovens que a  própria idade mínima para votar em Portugal. Estes partidos, operando à margem dos círculos políticos  tradicionais, adotam abordagens disruptivas e se comunicam com a juventude através das redes sociais,  mostrando um interesse genuíno nas suas preocupações e incentivando a sua participação ativa, embora que,  muitas vezes, ingénua.

Chegou o momento crucial de abraçarmos com fervor a ideia de trazer os jovens de volta ao cerne da  política partidária. Mesmo que isso possa gerar debates acalorados, é hora de considerarmos corajosamente a inclusão vigorosa de jovens nas listas eleitorais. Para além das polémicas que possam surgir, devemos  também adotar medidas, como a criação de estágios envolventes em instituições políticas e o fomento de  uma educação cívica robusta sobre os sistemas eleitorais. Guiando os jovens rumo à participação ativa e  informada na construção do nosso futuro político.

A suposta letargia política dos jovens portugueses é uma fábula ultrapassada, um manto de ilusão que  se desfaz ante a chama inextinguível da sua vontade. Os Jovens não apenas anseiam, mas anseiam com uma  paixão voraz por ingressar no palco político, ansiosos por moldá-lo com as tintas vibrantes das suas vivências  e aspirações. A inclusão apaixonada das suas vozes nas mesas de debate é a sinfonia que pode ressuscitar a  participação dos mais jovens nas teias decisórias do país, transformando o árido deserto da política  convencional num jardim exuberante de diálogo e colaboração intergeracional.