Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

O “pacote”, a forma como se denomina um conjunto de serviços oferecidos por um preço que tipicamente é inferior à soma das partes, tem dominado vários setores do comércio de serviços, com especial destaque para as comunicações e turismo. Confesso que nunca me atraíram, apesar de em algumas ocasiões acabar por comprá-los. Muitas vezes não há outra alternativa. Compra-se uma coisa que se quer e mais uma série de outras coisas que não queremos. Ou, ao contrário, não se encontra nada de parecido com o que que pretendemos e compramos um sucedâneo, uma coisa quase semelhante ao que desejamos ou imaginamos querer.

A tentativa de construir uma solução à nossa medida é normalmente caríssima ou impossível. Na política também é assim. Temos partidos que nunca conseguem responder a tudo o que gostaríamos de ver implementado ou apenas se enquadram parcialmente nos nossos pontos de vista e não mais do que afloram o nosso pensamento económico e social. Como é normal em todas as agremiações humanas, têm de tudo. Gente séria e escroques, iluminados e estúpidos, bem-educados e malcriados, académicos e iletrados. É por isso que têm potencialidades para quem esteja disposto a aceitar boas e más companhias. Uma espécie de família. Só que, sendo quase só “famílias”, os partidos, a não ser para que os que vivem à custa deles, já não respondem às necessidades dos eleitores. Por isso, embora não só, há abstenção crescente.

A existência de partidos garante alguma sistematização e estas associações são entidades que podem servir de base para a formação e agregação de quadros com capacidade para governar um País. Mas vão ter de mudar. Não podem continuar a ser, como ainda são, o trampolim para cargos públicos ou privados que acabam apenas por servir para a manutenção do círculo vicioso do poder que está sempre nas mãos dos mesmos. Inventam-se “competentes”. Os partidos não podem ser a única forma de acesso dos cidadãos a lugares de influência ou a cargos eleitos para que se sintam capazes. Basta ver quem são as pessoas em lugares de topo, de executivos a consultivos, nas grandes corporações nacionais em setores como a banca, transportes, energéticas, etc. para percebermos o papel dos partidos na gestão do País.

Ora, na defesa de um papel exclusivo na conquista e conservação do poder, os partidos criaram um sistema constitucional e administrativo onde a vida de independentes é muitíssimo difícil. A voz independente é aquela a que ninguém deve ligar, o incómodo que se silencia, não se cita e se tenta esquecer. É difícil pensar por si, ser salutarmente individualista nas ideias e na forma de ver o mundo. Nem todos querem ser de esquerda ou direita como os partidos assim definiram o espetro nacional. Há pessoas que não se conseguem rever em nenhum partido dos que existem ou que não teriam paciência para aturar um qualquer iluminado a que se convencionou chamar de “líder” mesmo quando é só “chefe”. Há cidadãos que gostam de dizer o que lhes apetece, mantidos o decoro e civilidade, sem quererem ser confundidos com o chorrilho de disparates em que o politiquês nacional se transformou. E, no meio dessas pessoas, ainda há quem acredite que pode fazer a diferença e aceite disputar eleições. Merecem um enorme respeito.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

É por isso que num mundo de “pacotes” é fundamental que subsistam independentes que se candidatem em eleições. Verdadeiros independentes que não se misturem com os arranjos dos partidos que andam por aí a caçar nomes “fortes”. O ideal seria mesmo que pudesse haver nomes isolados, sem a camuflagem dos “movimentos” que são embriões de partidos. Parece que não é fácil e os partidos tudo têm feito para que seja cada vez mais difícil. Vamos estando mais longínquos de um sistema democrático, com círculos pequenos e uninominais, em que se vote em alguém e não numa sigla ou num símbolo vazio de significado. Por enquanto temos o “pacote” que tem quase tudo o que não queremos e quase nada do que precisamos.

Mas, como todas as generalizações são falsas, os “pacotes” também são capazes de acolher e guardar algumas pessoas de verdadeira competência, quase sempre aqueles de quem se fala menos. É neste campo que podemos enquadrar a candidatura do Engenheiro Carlos Moedas a edil de Lisboa. É um homem de partido, com serviços públicos de grande relevância, nacional e internacionalmente, que foi acolhido na mais importante fundação portuguesa, a quem devo muitíssimo pessoal e profissionalmente, porventura a que mais tem feito para selecionar quadros por mérito e menos por carreira política. Parece-me o melhor candidato, dos que já se conhecem, para dirigir os destinos da cidade onde nasci e vivo. Mas o seu maior problema, paradoxalmente, pode ser o partido. Moedas precisa do PSD para pôr a cabeça de fora do “pacote”. É um daqueles casos em que tem de usar a montra maior para mostrar que não devia estar naquela loja. Meteu-se no “pacote”, desconfio, com a esperança de um dia lhe mudar o conteúdo.

Não vou discutir fidelidades. É claro que sendo militante e estando disponível, faz bem em ser “cara” do PSD. Precisa da máquina de propaganda, já em marcha com um vídeo inspirador, e necessita de se afirmar como ator político do tempo após Passos Coelho. Sim, após, porque mesmo que Passos volte, o que só a ele compete decidir, será para um novo tempo político e social. O “passismo”, coisa de que todos falam e ninguém consegue definir, será sempre uma coisa nova, adaptada a novas realidades, lamentavelmente, com a ressonância pós-socialista da falência das contas públicas.

E os partidos também servem para gerar políticos “eternos”. São raros e muito valiosos. Na galeria nacional, além de Passos Coelho que mete medo a todos, não apenas à esquerda, sobressai o Professor Cavaco Silva. Da ternura sentida pelo PS ao “velho” do Jerónimo, um jovem comunista de grande futuro, tivemos direito a quase tudo. É preciso ser uma verdadeira estrela para poder andar quase sempre calado, resolver falar uns minutos e ofuscar os outros todos. Ter vencido, muitas vezes e por muitos, com e sem partido, faz muita diferença.

Mas Carlos Moedas começa coxo, já parco de apoios para lá da PaF, reconstruída para estas autárquicas, com um PSD que não se une e um CDS que se desune. IL e Chega estão noutra. Também precisam de afirmação, poder, votos que sejam só deles. Para IL e Chega, para quem a implantação autárquica não interessa nada, os votos colhidos nas eleições locais são um fim em si mesmo. Moedas começa com o encargo de ser o seguro de vida de Rui Rio, exatamente quem ele deseja substituir. Começa sem vontade e sem remédio que não seja a de ser Presidente de Câmara, lugar de salto, muito abaixo das competências de quem um dia poderá ser primeiro-ministro de Portugal. Vida ingrata a de Carlos Moedas. Ganhará para benefício político de Rui Rio e perderá para um benefício que dificilmente será dele. O trunfo de que Moedas precisa é o de ser o “independente” filiado. Tem de ganhar por mérito dele e perder por culpa do “pacote”.

Conclusão, venham independentes, dos verdadeiros, sem amarras e a quem não faça grande mossa perder. Estava a sonhar, desculpem. Não há democracia sem partidos, clientes, lóbis e candidatos. O problema maior é encontrar quem se queira candidatar a qualquer coisa. Só por isso, pela demonstração da coragem em trocar o certo pelo desconhecido, o Engenheiro Carlos Moedas já merece a nossa admiração. Só lhe desejo que saiba sair do “pacote”, a tempo de não ir para o lixo depois de comidas as bolachas.