Uma maneira de subir na vida é pesar pouco. Os danos causados por lideranças “mais leves que o ar” são, infelizmente, subestimados. É errado pensar que a falta de conhecimento técnico, ou de conteúdo programático, pode limitar a dimensão dos prejuízos que uma chefia oca pode causar. Para se ser mau dirigente não é preciso ser-se vicioso, e é frequente os ignorantes se transmudarem em tiranos quando se lhes dá poder. Um exemplo dos danos que um dirigente sem preparação técnica e moral pode causar é-nos dado pela carreira de Gao Qiu (高俅, ?—1126) tal como relatada numa obra clássica, o Shui Hu Zhuan 水滸伝:

“Durante o reinado do Imperador Zhezong [哲宗, 1077—1100], da Dinastia Song, vivia na Capital Oriental Bianliang, em Kaifeng, um perdulário inútil chamado Gao. […] É verdade que tocava bem instrumentos de corda e de precursão, mas não sabia nada de poesia nem de literatura, nem conseguia acompanhar uma conversa acerca da benevolência, da justiça, da etiqueta, da sabedoria ou da virtude.

“Gastava o tempo com o filho de um homem rico e todos os dias ambos dissipavam a sua juventude em casas de dissolução. A conduta de Gao Qiu tornou-se tão ofensiva que, um dia, o homem rico o acusou ao Magistrado. Este prendeu-o, condenou-o a vinte açoites com cana de bambu e expulsou-o da capital.

“Gao Qiu foi então para Huaixi em Linhuai onde encontrou refúgio numa casa de jogo que dava abrigo a patifes de todos os quadrantes. Ao fim de três anos de andar nessa vida, o Imperador, para demonstrar ao mundo a sua benevolência, concedeu uma amnistia geral, que permitiu a Gao Qiu regressar à capital.

“Obtendo uma carta de apresentação para um certo Dong Jiangshi, proprietário da drogaria existente na ponte Jinhiang, para lá se dirigiu. Ao ler a carta, o comerciante recordou-se da má reputação de Gao Qiu e, temendo a má influência que este poderia ter na sua família e no negócio, disse-lhe, passados alguns dias: ‘Aqui não farás grande carreira. Vou-te recomendar a Su, o letrado, que te ajudará a subir na vida.’

“Gao Qiu ficou contente e agradeceu a Dong Jiangshi. Dong escreveu uma carta de recomendação e enviou-a com Gao Qiu à residência de Su. Quando o porteiro anunciou o visitante, o letrado saiu para ver Gao Qiu. Também ele se recordou da má fama de Gao Qiu e para se livrar dele recomendou-o como criado ao Príncipe Wang Jinqing, genro do Imperador.”

E assim, apesar de ser um inútil e ter má fama, Gao Qiu foi subindo rapidamente na vida, mercê de ninguém o querer ao seu serviço, até entrar um dia, após várias peripécias, ao serviço do Príncipe Duan pouco antes de este ser elevado ao trono Imperial, como Imperador Huizong (宗, 1082—1135). Continua o relato:

“Depois de ascender ao trono, [o Imperador Huizong] não fez nada de bom. Um dia, disse a Gao Qiu: ‘Quero fazer-te oficial. Mas não te posso promover se não houver registo do teu mérito. Vou pois ordenar ao Conselho de Estado para inscrever o teu nome como ajudante imperial.’ Ao fim de seis meses Gao Qiu foi elevado a Marechal da Guarda Imperial.”

Assim que foi promovido a Marechal, Gao Qiu transformou-se: de ignorante inútil e autoindulgente, tornou-se um oficial orgulhoso, vingativo e diligente ao serviço da injustiça. O que se seguiu foi uma história de corrupção, nepotismo, opressão e violência que levaram a um dos mais celebres episódios de revolta aristocrática e popular contra o poder estatal corrompido por um incompetente e sua clique.

Para os tugas, fica a moral que gerações de chineses retiram desta história: não há nada que pese tanto na sobrevivência e integridade de uma organização, seja uma empresa, agência ou ministério, que a leveza dos seus dirigentes. O que, bem vistas as coisas, não é assim tão diferente que um português de antanho já havia sentenciado: “Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.” (Os Lusíadas, III, 138)