O Partido Socialista anda efectivamente demasiado nervoso. As sondagens não são famosas, a maioria absoluta tornou-se uma miragem cada vez menos nítida e parece que passou mesmo de virtualmente impossível a totalmente impossível.

E António Costa, portanto, nervoso anda. E se António Costa transpira, a máquina treme e agiganta-se – refiro-me à máquina do aparelho, do establishment rosa, o rolo compressor mediático que, não contente com o domínio incontestado da propaganda socialista na comunicação social de edição “oficial”, convoca a terreiro toda a sorte de arsenalistas de pena em punho. Sejam eles efectivos, reservistas, de primeira categoria ou de quarta.

O objectivo é bombardear o adversário por todos os lados, em guerra total, e o móbil parece ser os nervos à flor da pele – as eleições europeias estão à porta (com todo o lastro de piloto para as legislativas que aquelas contêm) e o adversário preferido tornou-se por estes dias Paulo Rangel.

Rangel tem feito intervenções diárias, no âmbito da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, que se caracterizam por um estilo contundente e assertivo e pela insistência na crítica severa e ocasionalmente ríspida às políticas do Governo para Portugal e para a União Europeia. E tem, através desse método e por causa desse conteúdo, incorrido, de forma sistemática, em dois pecados capitais: revitalizar o PSD (e a respectiva performance nas sondagens que vão aparecendo) e também condenar à mais completa e absoluta obliteração política o candidato Pedro Marques — de quem, diga-se de passagem, também não rezaria a História em qualquer caso.

Ora, como toda a gente sabe, quem se mete com o PS leva. E Rangel tem levado em doses cavalares, numa proliferação de insultos e de argumentários desonestos, propalados nos jornais pelos operários da máquina cor-de-rosa, que mostra que, se calhar, alguém está finalmente a fazer a oposição que tanto falta em Portugal.

Não devo nenhum favor a Paulo Rangel e ele nada me deve a mim, nem me passou procuração. Suspeito até que preferiria não dar importância aos dois amanuenses que vou citar, mantendo-se em nível bem superior, mas a verdade é que isto não pode passar em claro.

Primeiro, Ascenso. Brindou o mundo com um “manifesto anti-Rangel”, todo construído em cima de um mal-entendido propositado sobre o que o visado dissera acerca do nepotismo e da família numerosa de António Costa e destrunfando exemplos históricos completamente alheios ao ponto de discussão. E, vai daí, entendeu por bem apelidar Rangel de insolente, impostor, defensor dos morgadios, deputado miniatural e outras gentilezas.

Depois, Barroso. Para ele, Rangel é um “político impertinente, desconchavado e trauliteiro, fanfarrão e quezilento”, “uma criança desinquieta a brincar à política com um linguajar de varapau”.

Dispensando-me de comentar as elegantes e auto-explicativas prosas dos não menos elegantes prosadores, quero aqui deixar duas notas e um elogio público.

Primeira nota: nunca esperei, mesmo de gente insuspeita deste calibre, observar por cá o grau de populismo a que estamos a assistir, com as comparações que Barroso estabelece entre Donald Trump – “vaidade incontida; a preocupação de estar sempre a dizer que é o melhor; achar-se alguém especial; fazer-se acompanhar por pessoas que ele considera especiais; sentir-se legitimado; ter falta de empatia; ser abusador, invejoso e arrogante” — e Paulo Rangel.

A segunda nota é esta: Rangel foi acusado de não fazer trabalho no Parlamento Europeu, pelo novel cabeça-de-lista-do-PS-ao-Parlamento-que-já-quer-sair-do-Parlamento-e-ir-para-a Comissão. Quem tiver interesse em ajuizar por si a veracidade desta afirmação e as intenções de quem a produz, deve consultar o ranking dos deputados europeus onde se encontra colocado entre os melhores e onde não é sequer contabilizado o trabalho incansável que, como vice-presidente do PPE, desenvolve diariamente em prol de uma democracia melhor na Europa, em prol da ligação efectiva entre os parlamentos nacionais, pela qual é responsável, em prol da liberdade para o povo da Venezuela, etc., etc.

Quanto ao elogio público, ele é também duplo: um sério e um a brincar.

O sério, a Paulo Rangel: um deputado prestigiado, admirado e reconhecido pelos seus pares e por inúmeros chefes de Governo europeus. Trata-se de um jurista brilhante, de um parlamentar superior e de um político culto, sagaz, com rasgo e estudioso de todas as matérias em que intervém. E, uma vez que tenho a sorte de o conhecer pessoalmente, atesto também que se trata de um homem probo, de rectas intenções e de uma pessoa a todos os títulos excepcional.

Agora a brincar: um elogio (e agradecimento) a Barroso porque me poupou o tempo e energia neuronal necessários para descrever com acuidade a persona de António Costa: “vaidade incontida; a preocupação de estar sempre a dizer que é o melhor; achar-se alguém especial; fazer-se acompanhar por pessoas que ele considera especiais; sentir-se legitimado; ter falta de empatia; ser abusador, invejoso e arrogante”.

Na mouche!