Eleições Europeias

O que fazer? /premium

Autor

Se a UE quisesse acabar de vez com a abstenção e, sobretudo, com os «soberanistas», deveria pôr o eleitorado de todos os países a votar na mesma lista de cada um dos partidos europeus.

Não estou a invocar a pergunta-chave que Lénine pediu de empréstimo a Tchernischevski enviado anos antes pela polícia do czar para a Sibéria. Mais terra a terra, pergunto tão só o que fazer no domingo que vem em matéria de eleições europeias? O voto português, como o da maioria dos países da União Europeia (UE), excepto os cinco ou seis com maior população, conta pouco e não sai do trivial: «populares» ou «socialistas», mais um para cá, menos outro para lá. Já no conjunto da União, desta vez, as sondagens internacionais vaticinam que a aliança entre «populares e socialistas» que vem governando a UE há décadas poderá ter que se alargar aos «Liberais», o que seria finalmente algo de novo!

O caso do Reino Unido volta a ser importante, pois ainda poderá dar muitos deputados aos inimigos da UE se porventura não conseguir sair da União, como aparentemente não consegue. Perante o pequeno número de deputados que Portugal pode dar a cada um dos dois grandes grupos parlamentares que até agora têm contado para a orientação da UE, a importância do voto português é baixa para não dizer mínima, tanto mais que cerca de 80% dos votantes elegem deputados pertencentes ao eterno grupo dos «dois e meio» (PS, PSD e CDS)!

É daí que vem boa parte da abstenção maciça do eleitorado português, a qual chegou a dois-terços nas anteriores eleições. Se a UE quisesse acabar de vez com a abstenção e, sobretudo, com os «soberanistas» de extrema-direita e de extrema-esquerda, que só querem sair da União ou, pelo menos, da moeda única, a UE deveria pôr o eleitorado de todos os países a votar na mesma lista de cada um dos partidos europeus, os quais apresentariam listas de candidatos originários de todos os países sendo eleitos segundo a percentagem do partido em questão e não da nacionalidade de cada um. Nessa altura, talvez os eleitores de cada país de sentissem mais perto dos deputados dos partidos europeus e não dos «partidos locais», que são especialista em dizer uma coisa cá e outra lá. Mas isto já são ideias avançadas demais para a burocracia que domina a UE desde sempre à imagem do remoto ideal do pós-guerra: centro-direita/centro esquerda. Talvez precisemos de um «centro radical» como aquele de que já tenho falado aqui.

A maioria dos comentadores e dos jornalistas portugueses despreza o significado da abstenção e falam das sondagens como se a abstenção, que se eleva hoje em Portugal a 50% em média, não existisse. Ainda há dias, uma sondagem vendia a ideia de que 80% dos eleitores iriam votar de certeza ou quase. Iriam… mas não irão, como sabemos. Longe disso. Nem nas eleições legislativas quanto mais nas europeias!

Pela minha parte, sou dos que pensam que a abstenção é a prova maior da falta de reconhecimento do eleitorado português, como consumidor da representação política oferecida pelos partidos, num sistema eleitoral imposto sem referendo há mais de 40 anos e, entretanto, blindado pelos tais «dois partidos e meio» para que a oferta não mudasse até hoje como não mudou. E quando a oferta não evolui ou, quando é obrigada por pressão internacional a evoluir, nega que evoluiu, o que sucede é perder os clientes. É aliás de reparar que, para bem ou para mal, os partidos portugueses ainda não descobriram as «redes sociais», que entre propaganda e «fakenews» fazem agir os eleitores noutros países!

Nestas condições de mercado político-partidário arqueológico, para não dizer mentiroso, como um partido que propagandeia no meu bairro que «é preciso aproveitar o dinheiro que vem da União Europeia»!, pouco ou nada há a fazer… Nesta penosa dúvida, que de resto se dissipará rapidamente na segunda-feira seguinte a fim de nos virarmos para as novas escandaleiras que estão para vir de certeza, para não falar de pior, resta ponderar o que Portugal tem hoje em dia a menos e o que tem a mais.

O que temos a menos não será propriamente a Liberdade. Ninguém vai preso se não votar nem se disser mal do governo do dia. Pode talvez perder o lugar na lista para um emprego mas não mais do que isso. O que mais falta é juntar liberalismo à mera democracia eleitoral a que hoje se reduz o nosso sistema. Neste sentido, um voto na «Iniciativa Liberal» faria sentido para identificarmos quanto há de espírito de iniciativa entre nós. Já no que diz respeito àquilo temos decididamente a mais e precisamos urgentemente de varrer para debaixo do tapete é a corrupção. Todos o sabem e, nesse sentido, outro voto indicado para domingo que vem é «Nós Cidadãos», já que o exercício da cidadania é também algo que nos faz muita falta.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Demografia

Envelhecimento e crescimento económico /premium

Manuel Villaverde Cabral

Nada é mais importante para países como Portugal do que o imparável envelhecimento da população e as suas consequências a todos os níveis da sociedade, da saúde ao potencial de crescimento económico.

Marcelo Rebelo de Sousa

O comentador de televisão /premium

Manuel Villaverde Cabral
725

O presidente-comentador tem contribuído tanto como o PS para a paralisia política imposta pela «geringonça». Apenas lhes importa que as probabilidades de mútua reeleição não se alterem.  

União Europeia

A construção da Europa /premium

Manuel Villaverde Cabral

A União Europeia ficaria sem dúvida mais pobre sem o Reino Unido mas, em compensação, ficaria mais europeia; menos nacionalista e imperialista; porventura menos obcecada com os mercados.

Ambiente

A onda verde na UE e os nacionalismos

Inês Pina
134

Se hoje reduzíssemos as emissões de CO2 a zero já não impedíamos a subida de dois graus centígrados. E estes “míseros” dois graus vão conduzir ao fim das calotas polares e à subida do nível do mar.

Eleições Europeias

Os ventos que sopram da Europa

Jose Pedro Anacoreta Correira

É preciso explicar que o combate pela redução de impostos não significa menos preocupação social. É precisamente o inverso: um Estado menos pesado contribui para uma sociedade mais justa. 

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)