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O secretário de Estado da (má) Educação /premium

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A área de Cidadania e Desenvolvimento, dirigida a crianças desde os 6 anos de idade, é o ‘cavalo de Tróia’ para a introdução da ideologia de género.

No mesmo dia em que foi aqui publicada a crónica A ideologia de género não é ciência, é ideologia, o secretário de Estado da Educação, Professor Doutor João Costa, fez, numa rede social, o seguinte comentário: “Este é o mesmo senhor – tenho alguma dificuldade em chamá-lo Padre – que há uns anos insultou um jovem por não tirar um chapéu sem procurar saber que ele o enterrou na cabeça para não ser reconhecido pelo pai, que lhe batia para não ir à escola. Estamos, portanto, conversados. Felizmente, como me disse um Padre a sério, a Igreja é como a arca de Noé: há espaço para todos. Deve ser fácil pregar em circuitos fechados de elites privilegiadas.”

O jornal Notícias do Viriato, que divulgou esta mensagem com o título óbvio – “Secretário de Estado da Educação insulta Padre” – acrescentou a seguinte explicação: “O secretário de Estado da Educação, João Costa, ao reagir no Facebook a um artigo de opinião no Observador sobre a Ideologia de Género, do Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, referiu-se ao Padre como não sendo ‘a sério’ e que tinha ‘dificuldade em chamá-lo Padre’. Curiosamente, o título do artigo de opinião anterior do Padre, intitulava-se de Já abriu a caça aos Padres?”.

Se o que um senhor João Costa pensa de um padre qualquer nem a este interessa, muito menos à opinião pública. Mas, mesmo tendo o ofendido relevado o insulto, não pode passar despercebida a grave acusação de que o dito presbítero insultou um jovem, desmerecendo da sua condição sacerdotal, formulada publicamente pelo secretário de Estado da Educação. Com efeito, há alguns anos, um efémero Ministro da Cultura foi mesmo obrigado a demitir-se, por se ter expressado também, numa rede social, de uma forma indigna de um membro do governo. Não é, portanto, por motivos pessoais – aliás inexistentes – que se presta este esclarecimento, mas em prol da verdade e a bem da nação.

A 12-1-2016, publiquei neste jornal a crónica O ministro da (má) educação na Baixa da Banheira, em que, entre outras coisas, escrevia: “No Público do passado dia 5 de Janeiro [de 2016] noticia-se, em artigo de página inteira, a visita que, na véspera, o ministro da Educação e o secretário de Estado João Costa fizeram à Escola Secundária da Baixa da Banheira, por ocasião do início do segundo período lectivo. A acompanhar o texto, consta uma fotografia em que se podem ver, ao fundo, os governantes e comitiva junto à porta aberta da sala onde, em primeiro plano, aparecem quatro presumíveis alunos daquela escola”.

Até aqui o facto, que me limitei a registar. Depois, acrescentei o seguinte comentário: “O que mais prende a atenção é o facto de três dos ditos quatro alunos estarem de cabeça coberta, em plena sala de aula. Um, decerto o mais friorento, não se contentou com um simples gorro, porque enfiou o capuz do seu blusão impermeável que, ao tapar-lhe as orelhas e a boca, indicia um total alheamento. Os outros dois ficaram-se por uns mais discretos bonés, que um deles usa com a pala para trás. Ora, ter a cabeça coberta, dentro de uma sala, é objectivamente uma falta de respeito, tanto em Bragança como em Faro, ou na Baixa da Banheira, salvo algum muito discutível modismo local que me esteja a escapar”.

E rematei o assunto, dizendo: “Talvez alguém pense que a questão dos bonés é relativamente secundária, tendo em conta os enormes desafios a que devem fazer frente as escolas em zonas mais sensíveis, como é o caso. Não ponho em causa as intenções daqueles adolescentes, nem o mérito dos seus professores e da sua escola, mas a educação, ou é integral ou não é nada. Educar não é despejar um conjunto de conteúdos nas cabeças de uns quantos indivíduos, na esperança de que depois os saibam debitar. É, sobretudo e principalmente, formar cidadãos livres e responsáveis, que amanhã possam contribuir validamente para o bem comum. Para tal, precisa-se certamente de alguma bagagem cultural e técnica mas, mais ainda, de aprender a conviver, o que não se pode fazer sem um mínimo de educação. De boa educação, entenda-se!”

Agora, três anos e meio depois, o secretário de Estado da Educação foi desenterrar esta crónica para dizer que sou “o mesmo senhor […] que há uns anos insultou um jovem por não tirar um chapéu sem procurar saber que ele o enterrou na cabeça para não ser reconhecido pelo pai, que lhe batia para não ir à escola.

O comentário do Professor Doutor João Costa, tal como foi publicado no Notícias do Viriato, apresenta graves deficiências gramaticais, indesculpáveis num membro do governo, que até é secretário de Estado da Educação e doutorado em linguística. Por exemplo, a frase “que há uns anos insultou um jovem por não tirar um chapéu sem procurar saber que ele o enterrou na cabeça para não ser reconhecido pelo pai” (uf!) carece de alguma pontuação, em benefício dos asmáticos e não só. Também a alusão a “um chapéu” (?!) não é correcta, porque, embora chapéus haja muitos, ali só havia gorros, capuzes e bonés. Enfim, faltas de educação…

Mais infeliz, porque caluniosa, é a sua afirmação de que, nesse texto, se “insultou um jovem”. Na dita crónica, que pode ser lida na íntegra no Observador, não só não há nenhum insulto, como até muito delicadamente se reconheceram “os enormes desafios a que devem fazer frente as escolas em zonas mais sensíveis, como é o caso”, ao mesmo tempo que se afirmou, expressamente, que não se punham “em causa as intenções daqueles adolescentes, nem o mérito dos seus professores e da sua escola”. Aliás, não foi “um jovem”, mas três os que foram referidos por estarem encapuçados na sala de aula – será que os três padeciam da mesma incompreensão familiar?! E, em relação ao que estava mais resguardado, até houve a caridade de o desculpar, supondo que era “decerto o mais friorento”. Portanto, senhor secretário de Estado, onde está o insulto?!

Se alguém não teve a devida consideração pelo jovem em questão foram, decerto, a escola e os ditos governantes. Com efeito, não respeitaram o direito à imagem desse aluno, nem a sua privacidade, porque deixaram que fosse publicada, num jornal de expressão nacional, a sua fotografia. Sabendo da melindrosa situação familiar desse rapaz, os dirigentes daquele estabelecimento de ensino não deviam ter permitido a presença de jornalistas ou, autorizando-a, deveriam ter proibido a publicação de fotografias do dito estudante. Mas, claro, como todos os motivos são bons para fazer propaganda política, o ministro e o secretário de Estado deixaram-se retratar junto daquele aluno, sem se preocuparem com a consequência trágica que, para o jovem, podia decorrer dessa sua acção gratuita e publicitária. E, como se não bastasse, três anos e meio depois, o mesmo secretário de Estado vem a público dizer que fui eu que insultei o pobre estudante …

Quanto à arca de Noé, é muito de saudar o seu conhecimento bíblico. Mas, para o país, seria melhor que, em vez de promover a opção política totalitária do monopólio estatal da educação, garantisse a constitucional liberdade de aprender e de ensinar. Como?  Viabilizando os colégios de maior qualidade educativa, como o da Imaculada Conceição, em Cernache, agora impedido, pelo Ministério da Educação, de prosseguir a sua meritória acção educativa e social, que privilegiava sobretudo os estudantes mais carenciados.

A Doutora Mafalda Miranda Barbosa, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, também comentou, na mesma rede social, a crónica que tanto indignou o secretário de Estado da Educação: “Um texto a não perder. Um texto que, pelos vistos, incomoda os políticos no governo, o que só mostra o seu valor. Até porque contra ele não conseguiu o senhor secretário de Estado que se resolveu pronunciar mobilizar um único argumento, preferindo desferir ataques ad hominem”. De facto, é de lamentar – ou talvez não – que o Doutor João Costa não tenha sido capaz de fazer uma única crítica ao teor da referida crónica e, por isso, se tenha visto obrigado a recorrer ao insulto pessoal, como aliás o Notícias de Viriato publicamente reconheceu, no título da respectiva notícia.

É óbvio que o recurso à calúnia mais não foi do que uma manobra de diversão, para desviar a atenção do que realmente interessa: a implementação, em Portugal, da ideologia de género. Como muito bem escreveu o Engº Mário Cunha Reis, conselheiro nacional do CDS, “a área de Cidadania e Desenvolvimento, dirigida a crianças desde os 6 anos de idade, é o ‘cavalo de Tróia’ para a introdução da ideologia de género, da sexualidade precoce e da cultura LGBT” (Ideologia de Estado, Observador, 16-3-2019).

O mesmo engenheiro escreveu ainda: “João Costa rejeita a existência da Ideologia de Género. Demonstração? Simples: ‘Uma pesquisa bibliográfica simples no catálogo da Biblioteca Nacional não regista qualquer entrada sobre Ideologia de Género (sic). Tive oportunidade confirmar e de fazer igualmente uma pesquisa por Ideologia Comunista. De facto, para ambas não há qualquer resultado, pelo que devo depreender também que a ideologia comunista não existe, não obstante ter sido causadora da perda de milhões de vidas humanas. Bizarro, não é? Contudo, fazendo uma pesquisa por queer, a teoria que confere o carácter científico à ideologia de género, a que defende que a orientação sexual e a identidade sexual ou de género é uma construção social, não estando constrangida pela natureza ou pela biologia, é apresentada mais de uma dezena de entradas”.

Conclui Mário Cunha Reis: “Se o Doutor João Costa estivesse a prestar provas académicas, por certo que ouviria do júri que se esperava dele maior honestidade intelectual; mas, afinal, trata-se, agora, de um mero governante socialista”. Pois é, e é pena. Haja a esperança de que o próximo Secretário de Estado da Educação, mesmo que seja também de um governo low Cost(a), não só seja um governante a sério, mas sobretudo seja sério. Pode ser que ainda haja algum, no porão da arca de Noé…

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