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Deficientes

O Sol, quando nasce, é para todos! /premium

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Ir à praia e apanhar sol é, para pessoas portadoras de deficiência e/ou com mobilidade reduzida, fonte de bem-estar e saúde. É mesmo uma necessidade básica de saúde dos cidadãos, mediterrânicos ou não

Nada mais eficaz do que passar pela experiência para perceber certas coisas. Experimentar é um princípio científico, uma prática laboratorial, mas também podemos fazer incontáveis experiências fora do laboratório, e nem precisamos de ser cientistas. O mais leigo entre os leigos está apto a experimentar quase tudo, basta querer.

Este introito serve para sublinhar uma verdade de la Palisse: só quando sentimos as coisas na pele é que lhes damos valor e ficamos em condições de contribuir para transformar a realidade.

Estou a pensar numa simples ida à praia, que todos programamos em modo praticamente instantâneo, sem pensar muito no assunto, tantas vezes em cima da hora, dependendo do calor e da distância geográfica. Não nos ocorre fazer um grande discernimento sobre uma ida à praia. Ou vamos ou não vamos. A regra é muito simples: ou apetece e é possível, ou simplesmente não apetece. Ponto.

Acontece que não é assim para todos e, daí, a importância de sentir na pele o que sentem aqueles que têm que vencer uma enormidade de barreiras e contornar uma estúpida sucessão de obstáculos para conseguirem pôr um pé na areia ou dar um simples mergulho no mar. Falo das pessoas com mobilidade condicionada, claro.

Não se trata apenas de deficientes (como eu detesto esta palavra!) ou de pessoas em cadeira de rodas, mas também de homens e mulheres mais velhos, mais ou menos incapacitados, de bebés e seus acompanhantes. Gente que precisa de se deslocar com uma inconcebível parafernália de coisas e arrastá-las até ao areal. Isto, claro, se lá conseguir chegar! No que toca às pessoas com deficiência, é frequente desistirem e voltar tudo para casa.

Eu própria já assisti a muitas destas frustrantes desistências e já vivi cenas verdadeiramente kafkianas em dias tórridos, com um calor de ananases, em que depois de sucessivas tentativas para contornar os incontornáveis obstáculos só apetecia ter um camião do exército, daqueles com lagartas em vez de rodas, capaz de avançar contra tudo e contra todos, para chegar à beira-mar.

Existem cada vez mais praias classificadas como ‘praias adaptadas’, com parques de estacionamento com espaços próprios para deficientes e passadeiras apropriadas para cadeiras de rodas ou andarilhos, mas os selvagens que vão a estas praias não estão com meias medidas e estacionam os seus carros nos lugares reservados. Durante a época balnear é recorrente ver estes lugares ocupados por abusadores que não respeitam nada nem ninguém.

Por ter bons amigos que, por acidente ou doença, vivem diariamente em cadeira de rodas, assisto a esta cena repetidas vezes. Demasiadas vezes, por sinal. E dou-me conta do impacto brutal que esta realidade tem na vida destes meus cinco amigos e em todos os que, como eles, se deslocam em cadeira de rodas ou são dependentes de terceiros. São incontáveis as vezes em que, depois de carregarmos o carro (e note-se que carregar elevadores, cadeiras, tabuleiros-mesas adaptados, rampas e tantas outras coisas que servem para cuidar, alimentar e manter a higiene pessoal de pessoas que ficaram tetraplégicas já é, em si mesmo, uma tarefa hercúlea), dizia eu que depois de carregarmos o carro debaixo de sol, dirigimo-nos à praia na mira de passar ali um dos nossos dias de férias, mas eis que uma vez lá chegados os lugares estão ocupados por quem não tem nenhum dístico indicativo de prioridade ou incapacidade.

Como os carros se acumulam no perímetro das praias, também não sobra espaço absolutamente nenhum para conseguirmos descarregar tudo, a começar pela própria pessoa e a sua cadeira. Mesmo que estacionássemos mais longe e quiséssemos carregar tudo e todos em ombros, ou fazer cadeirinha com os braços, isso não é possível porque as coisas são muitas e requerem espaço de circulação. E mais: se estacionarmos longe do areal e das entradas para pessoas com mobilidade reduzida, as cadeiras não rolam na areia e torna-se impossível deslocar também a quantidade de acessórios que são precisos.

Resultado? Voltamos para casa. Um dia, dois dias, três dias, quatro, cinco, os que forem impostos pelos ditos selvagens que ficam na maior, a aproveitar o dia de praia e o facto de terem ‘conseguido’ estacionar muito perto. Os tais ‘espertos’ que vivem convencidos que são realmente mais inteligentes que os outros.

Não sei quem, de entre os leitores, se pode dar ao luxo de desperdiçar dias seguidos de sol e férias por imprevistos destes, mas sei que solidariamente os amigos destes amigos (e as famílias de muitos outros que não conheço, mas existem e sofrem o mesmo flagelo) também não põem um pé na praia nesses dias, para lhes poder fazer companhia em casa. Fechados em casas muitas vezes quentes, abrasadoras, onde não apetece estar quando lá fora está um dia de praia mais-que-perfeito.

Podem sempre vir argumentar que se são deficientes e estão em cadeiras de rodas, fiquem em casa. Já li coisas destas e bem piores nos comentários dos nossos estimados ‘haters’, neste e noutros jornais. Os criticistas militantes também podem argumentar que é uma questão menor. Podem, mas não é. É uma questão maior! Bastava que sofressem esta realidade na pele para perceber que é uma desumanidade.

Todos temos direito a férias e todos temos direito a ter livre acesso aos espaços públicos. Além disso ir à praia e apanhar sol é, para muitas pessoas portadoras de deficiência e/ou com mobilidade reduzida, uma fonte de bem-estar e saúde. Ir à praia nunca foi nem será um capricho para ninguém. Diria que está entre as necessidades básicas de saúde de todo e qualquer cidadão, mediterrânico ou não.

Por não ser uma questão menor e ter um impacto violento nas pessoas que se vêm impedidas de ir à praia vezes sem conta (mesmo vivendo num país com centenas e centenas de quilómetros de costa!), o Instituto Nacional para a Reabilitação promoveu um encontro com o eloquente tema Praia Acessível – Praia Para Todos!. Será já esta 4ª feira de manhã e será uma sessão aberta a todos, dos agentes turísticos, autoridades, políticos, instituições, organizações, aos cidadãos. Vou lá estar porque me faz sentido dar voz àqueles que não têm voz (ou têm, mas pouco são ouvidos) quando se trata de afinar políticas de inclusão e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos com mobilidade reduzida. Vivemos radiantes, numa exaltação permanente perante as quantidades torrenciais de turistas que aterram, atracam ou chegam ao nosso país. Somos capazes de pensar novas estratégias para os novos desafios que estas multidões nos colocam, mas há sempre uma legião de esquecidos e são estes que me interpelam e fazem agir. Porque acredito que o sol, quando nasce, é para todos!

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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